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Jaminho: ‘Do Tereré’

(*) Jaminho –

Decifra-me, ou não bebes!

  Se dissermos que o tereré é um chimarrão gelado, estamos sendo 50% corretos; todavia se falarmos que o chimarrão é um tereré morno ou quente, aí então se está 100% certo.

Erva-mate.com.br

  Endereço eletrônico da Erva Mate São Antônimo afirma que o tereré foi inventado na Guerra da Tríplice Aliança (1864-70) porque os soldados não podiam tomar chimarrão de noite, pois não era indicado acender o fogo: o inimigo avistava a chama e lá vinha bala! Pow! Outra versão dá conta de que foi na Guerra do Chaco (1932-35), pelas mesmas razões. Se acendessem fogo para esquentar a água, os bolivianos viam e mandavam bala. Ra-ta-ta-ta!

   Quanta bobagem! Que falta de lógica e imaginação… Pensamentozinho raso!! Superficial. Renego, arrelio, refuto que os paraguaios só inventariam o tereré ao final do século XIX.… Ou na primeira metade do XX!!  Du-vi-de-o-dó! Risco, piso e sapateio em cima! Não apenas porque o Paraguai já estava bem inventado antes de 1811 – quando se torna independente – tanto mais e também porque é o tereré seu elemento cultural mais simbólico, mais idiossincrático, depois da língua Guarani. Logo… Por quê? – me valha Madrecita de Dios! – por que este seria inventado apenas em 1865, 66, 67, 68…!? Ou só lá por 1932, 33, 34 ou 35!!? Mais, quá!!

   Raciocine, pense paisano. O tereré não seria então tomado nos tempos de Gaspar Rodrigues de Francia…? El Supremo? Nem nos dourados dias de Carlos Antonio Lopez – pai do Mariscal?!! O próprio Mariscal não teria esbravejado, ordenado, praguejado e se jactanciado com uma guampa de tereré na mão, entre um sorvo e outro?! (e mais outro?!). Madame Linch não teria conhecido e se afeiçoado do tereré…? E tido horas de desejo, angústias e nostalgias quando se acabaram suas três arrobas de erva-mate, já no exílio de seu retorno a Paris…?

   O tereré nasceu antes do Paraguai independente. Nasceu com os ameríndios, povos pioneiros, povos originários, depois amadureceu com os jesuítas.  Nos séculos XVII e XVIII, índios e jesuítas já colhiam, tratavam e usavam a erva-mate. Esta era, inclusive, usada como meio para atrair ameríndios às reduções. Como eles a tomavam?… Fria, em cabaças de porongo, depois em guampas, logo os jesuítas puseram o bombilho, talvez vindo das áreas mineiras, onde a metalurgia era opus diem. Raciocine (Cher)*: desde a expulsão dos jesuítas de terras paraguaias, 1768, os paraguaios só iriam inventar o tereré praticamente cem anos depois, ou cento e cinquenta!!?? Djaipori!* Ou sua senhoria anda fumando outra erva? Esta introduzida na segunda metade do século XX…? M’brena…!*

   Talvez não seja má ideia beber um téres queimando um fino… Dizendo besteiras sobre tereré, mate, chimarrão. Pô, meu! Num esquece os jesuítas, tá.

Notas:

 – filho, para o varão, homem/kuimbae; em fala de mulher/kuña, é che memby.

– expressão utilizada na fronteira, possivelmente: ndaipori, negar, negação.

– expressão fronteiriça muito utilizada também, talvez uma contração, aglutinação, (a) mbopy’aheta: dúvida, indecisão;

Aju ape! Karaí

    Hélio Serejo diz no texto Caraí (Ciclo da Erva-mate em Mato Grosso do Sul, p. 30/31) sobre as origens do uso da erva-mate demonstrada por Félix Azara “Los indios silvestres del Mondaí y de Maracayu usaban tomar yerba, y de ellos lo aprendieron los españoles”.

   Para Serejo, este “tomar yerba” nada mais é que o “tomar chimarrão”. Que os índios faziam uso da caá e deles copiaram isso os espanhóis, nenhuma dúvida resta. Mas os índios não tomavam chimarrão… Como poderiam? Sem bombilho de metal, sem chaleiras ou bules, chapas de ferro para fogões…? Tomar mate/chimarrão exige certos requisitos e pré-requisitos. Em suma: sem vasilhame apropriado e utilizado ainda hoje por nossa sociedade, aos ameríndios, o uso da água morna ou quente era muito dificultoso – senão impossível – logo, eles tomavam é o tereré, com água fria, em cabaças de porongo, bebendo as folhas secas e esfareladas como se fora um chá, mal coado.

   O equívoco se dá por conta do sucesso, primazia e elegância – folclórica, literária e comportamental – que o chimarrão ganhou ao longo da história e do contato das culturas dos ameríndios e dos colonizadores. O mate só surgiu e se firmou – e talvez tenha sido um dos primeiros elementos culturais – do contato entre ameríndios e jesuítas. Entretanto, antes do contato, os ameríndios tomavam yerba – tereré – e seguiram tomando… O chimarrão surgiu depois, com o uso de tomar yerba sendo adaptado e/ou recebendo as invenções e utensílios que a técnica da metalurgia (bombilho, chaleira e chapa de fogão), cerâmica, porcelanato e vidro dos europeus (via jesuítas primordialmente) se imiscuíram nos costumes os hábitos ameríndios, podendo transformar e mesmo revelar novos modos de tomar yerba; assim, do tereré… derivou-se o chimarrão.

   O próprio tereré se transformou, ganhando o bombilho e depois a indefectível guampa, desenvolvidos e juntados no dia a dia da economia ervateira e pecuarista das Missões – é o mais provável. A água gelada – oh neófito inocente! – só foi agregada após o invento da refrigeração, início do século XX. E ao vulgo, ao pobre, somente quando a energia hidrelétrica ficou acessível e barata, na região de fronteira do Mato Grosso do Sul pouco antes de 1980 e, mesmo no Paraguai, com o funcionamento de Itaipu. Antes disso, tereré era com água de poço, de mina d’água, de cacimba…

   Tereré com água gelada, com uma pedra de gelo no balde, na jarra pra resfriar muito! Gelar de doer os dentes! Só vi pobre tomando já na década de 1970. Antes disso, enjoei de ver gente bebendo tereré com água fria, natural, puxada do poço – ou quando dona Abigail Lopes, proprietária da sorveteria, presenteava uma barra (ou meia) de gelo para os taxistas.

   As pessoas gostam de se esquecer disso, pois não é prazeroso lembrar-se de que fomos pobres, de que tínhamos limitações tão prosaicas… Então, finge-se que se tomava tereré gelado desde os tempos da lamparina…! E que os povos ameríndios platinos eram adeptos do chimarrão sem bombilho e sem chaleira. Mas, quá!

   Um pequeno e sugestivo comentário me vem à lembrança: os padeiros tinham acesso a gelo, pois lá em casa havia geladeira a querosene para conservar o fermento usado na Padaria União – fundada por meu avô materno e tocada por meu pai após a morte do sogro. A Fermina Reis vivia brigando com eles, os padeiros, por pegarem o gelo e não encherem e recolocarem as formas no congelador. Dos padeiros beberem água gelada para tomar tereré com água gelada foi um pulo! E muitos gritos e xingamentos de nhá Fermina. Entretanto… Em nome do prazer dum tereré gelado eles aprenderam a pedir ou avisar. E também a encher as formas de gelo com água e as recolocarem no congelador. Sofri com isso: pois os ralhos e xingos – com apimentadas, pagãs e provocativas expressões em guarani, que Nhá Fermina lhes pespegava, opá*.

   Não…! Não vou escrevê-las aqui. Contudo… Podes imaginar uma meia dúzia delas. Jerure añyrô (imploro perdão) Mas não digo nome feio… Japu!*

Notas: opa/fim, acabou, mas na frase o autor se valeu da fala dos imigrantes paraguaios, que usavam a ‘opa’ como o ‘enfim’ dos brasileiros. Daí também porque acentuou a palavra no texto.  No último parágrafo: mentira/japu.

(textos extraídos do livro Tereré Sem Anestesia, de Jaminho, pp 123/128. Editora Telha, 2021).

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