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Investigação aponta como atuava casal de pastores indiciado por abuso de adolescentes

A conclusão do inquérito da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) revelou que os crimes atribuídos ao casal conhecido por pastor Wenderson, 32 anos, e pastora Arielly, de 24 anos, não eram atos isolados, mas parte de uma engrenagem sistemática de abuso de poder. Valendo-se da roupagem de líderes religiosos, o casal estruturou um método de atuação que unia manipulação espiritual, coerção financeira e intimidação institucional para atrair, silenciar e manter sob controle as suas vítimas, a maioria adolescentes entre 12 e 17 anos.

A aproximação facilitada pela cumplicidade

O primeiro passo do método consistia em desarmar qualquer desconfiança de familiares e das próprias vítimas. Por se apresentarem como pastor e pastora, o casal gozava de livre acesso à intimidade das famílias da congregação.

As investigações mostraram que a atuação de Arielly, era peça-chave nesta etapa: ela participava ativamente da aproximação com as adolescentes, facilitando o contato e criando um ambiente aparentemente seguro para que o marido, Wenderson, pudesse executar as condutas criminosas.

O uso da fé como instrumento de dominação

Uma vez conquistada a proximidade, o casal utilizava argumentos de natureza teológica e religiosa para subjugar psicologicamente as vítimas. Em vez de consentimento, o que ocorria era o aproveitamento do chamado temor reverencial — conceito já pacificado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).

As vítimas, devido à enorme assimetria de poder e ao respeito cego à figura do “pastor”, viam-se incapazes de oferecer resistência. A doutrinação religiosa era usada para fazer as jovens acreditarem que se submeter àquelas vontades fazia parte de sua conduta espiritual ou que contrariar o líder seria um pecado grave.

A compra do silêncio

Nos casos em que a manipulação psicológica começava a falhar ou quando as adolescentes demonstravam sinais de que poderiam romper o silêncio, o casal acionava um mecanismo de compensação financeira e suborno.

O inquérito policial reuniu provas de que os indiciados ofereciam vantagens financeiras diretas às adolescentes. Foram identificados pagamentos em dinheiro vivo, transferências bancárias via PIX e a concessão de outros benefícios materiais com o único objetivo de garantir que as agressões sexuais permanecessem em segredo.

A blindagem pelo estatuto da igreja

O modus operandi do casal contava também com uma barreira institucional de proteção. Os pastores utilizavam as próprias normas internas da igreja para impedir denúncias. Os fiéis e as vítimas eram encurralados pelo medo de serem rotulados como “rebeldes” ou causadores de divisão — o que resultaria em severa punição social e exclusão da comunidade.

Essa blindagem estava amparada no artigo 11 da Ata de Fundação da própria igreja, que previa o desligamento sumário de quem ousasse “promover dissidência ou se rebelar contra a autoridade da Igreja”. O medo do ostracismo social e religioso neutralizava a reação das famílias.

Destruição de provas e obstrução da Justiça

Quando o esquema começou a ruir com a primeira denúncia em abril, o casal acionou a última fase do seu modus operandi: a fraude processual.

Para impedir que a polícia tivesse acesso às provas técnicas, Wenderson ordenou a destruição física de seu próprio aparelho celular. Para isso, utilizou uma rede de influência que envolveu a jovem R.B.L.S. (de 20 anos), uma adolescente e até uma das próprias vítimas. Em uma tentativa de dar aparência de legalidade ao sumiço do telefone, o pastor ainda coagiu uma das vítimas a registrar um Boletim de Ocorrência falso, alegando que o aparelho havia sido perdido.

Como destacou a delegada Kamilla Basto em seu relatório, a complexidade do caso residiu justamente nesse “elevado grau de dissimulação”, onde o púlpito e a fé alheia foram transformados em ferramentas de caça e posterior silenciamento de vulneráveis. Ao todo, a polícia identificou 11 vítimas da engrenagem montada pelo casal.

(Informações Folha BV)

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