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Inverno: tempo bom para uma viagem

Laquicho – 31/03/2008

                                           Wilson Biasotto ()
 
“Naquela época tudo era difícil, tudo muito precário, o nosso transporte daqui para Campo Grande por meio de carretas, aquilo eram trinta dias de viagem, de caminhão oito, dez dias. Depois foi ficando tudo mais fácil, foi construída essa estrada ligando a Maracaju, então diminuiu muito a viagem, já era possível fazer de caminhão em três dias, de automóvel fazia em um dia de viagem daqui a Campo Grande.” (Ercília de Oliveira Pompeu).
 
Mesmo sem precisar datas, nossa entrevistada falou sobre a evolução dos transportes na região de Dourados e o tempo economizado com isso. Nos tempos em que Laquicho possuía vigor físico para uma viagem a Campo Grande, as jornadas eram todas feitas em carretas e precedidas de certo ritual:
“Pra aprontar a viagem, carneava uma vaca, secava a carne… arrumava um modo de comer na viagem. Saia, cada doze, geralmente doze quilômetro, treze, nós parava pra dá pasto pro boi, dá água, fazer o almoço… Então nós gastava daqui a Campo Grande… que ponte não existia uma… então precisava pegar os rios baixo pra passar na água. Nós gastava doze dias de viagem, era o normal, quando não havia chuvarada. Chegava a Campo Grande entrava na Rua 14, em 30 nós entrava na Rua 14 com carreta. Pagava cinco mil reis de piso, que hoje nós chama de imposto rodoviário, naquele tempo chamava piso. E havia o fiscal que cobrava o piso das carretas, pagava, ia ao armazém… lá nós carreteava e à tarde saia. Então amanhã nós voltava pra trás. Dava treze dias. Em vinte e cinco, vinte e seis dias nós tava chegando aqui.” (Crispin Fernandes).
 
Para segurança e tranqüilidade dos carreiros, formavam-se comitivas para ir a Campo Grande, pois, além de algumas eventuais encomendas especiais, como a troca das libras que a Companhia Mate Laranjeira gastava no comércio de Dourados e que eram recambiadas no Banco do Brasil, normalmente.
“Leva-se daqui pra lá, levava-se tudo misto, né? Levava feijão, levava arroz, levava couro, o couro vacum, o couro de bicho… que são peles silvestres, né? Levava crina, levava rapadura, levava… às vezes levava milho. Outra hora levava farinha de mandioca e o principal que se levava pra lá era erva-mate, né? E quase sempre a gente completava a carga com banha de porco… charque…” (Miguel Ângelo do Amaral) [1] [22].
 
“As comitivas tinham pontos certos de parada… Quase sempre na beira de uma aguada…” (Crispin Fernandes) [2] [23]. Foi justamente numa dessas paradas que se passou uma história interessante com Laquicho.
Junho e julho sempre foram meses bons para os carreteiros fazerem suas viagens. Normalmente nessa época os rios dão vau e as carretas podiam passar pelas águas rasas. Bom, havia um inconveniente: o frio bastante rigoroso, especialmente em julho. Nada, entretanto, que pudesse reter Laquicho. Ele lotou sua carreta com mantimentos, rapadura, banha de porco, ovos e, acompanhado de outros carreteiros, seguiu para Campo Grande. Lá venderiam seus produtos e comprariam sal, roupas e outras provisões.
Chegando à região do bairro conhecido como Aroeira, na travessia do rio Vacaria, os carreiros pararam para tomar um chimarrão, descansar os animais, dar pasto aos bois. Os que iam a cavalo desarrearam os animais e colocaram os arreios em cima de um pau, à primeira vista, um tronco de coqueiro.
Estavam todos tranqüilos, tomando chimarrão. Quando notaram, os arreios iam atravessando o rio. Ao darem por fé, perceberam que o tronco na verdade era uma sucuri que o frio congelara. Com o calor dos baixeiros e pelegos dos arreios, a cobra esquentou e tomou o seu rumo. E foi baixeiro, foi pelego, foi buçal, foi tudo água abaixo. Os viajantes ficaram sós com os carros de bois e, se quiseram, tiveram que levar os cavalos tocados a pé, do Vacaria até Campo Grande. (Nielson Cristian Sorensen)
(
) Texto extraído do livro “Até aqui laquicho vai bem”, do professor universitário e secretário municipal de Governo da Prefeitura de Dourados.
 
 

 

 

Fonte: Folha de Dourados

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