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Inteligência artificial: ‘testemunhamos uma mudança na interação homem e tecnologia’

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Inteligência Artificial é o tema do momento no mundo da tecnologia. Neste Podcast ONU News a conversa é com o chefe de Informação e Tecnologia das Nações Unidas, Bernardo Mariano. Ele acumula  uma carreira de 30 anos nas Nações Unidas e em organizações internacionais. 

Mariano desempenha as atuais funções na sede das Nações Unidas desde 2021, após um percurso marcado por uma transformação digital na Organização Mundial da Saúde. Mayra Lopes vai colocar a primeira questão.

ONU News: Olá,  Mariano. Obrigada por estar conosco. A gente vai falar de inteligência artificial, que é o assunto do momento, como o Eleutério  acabou de falar. Recentemente, a ONU começou com um órgão consultivo para tratar sobre o tema. Existem muitas expectativas e já acontecendo muitos debates sobre isso, mas uma das coisas que têm sido muito faladas é que a inteligência artificial tem um potencial de gerar renda e de fechar as lacunas de desigualdade. É verdade? Como é que a ONU acredita que isso pode acontecer?

Bernardo Mariano: O que está a acontecer agora, a revolução e a transformação que a inteligência artificial está trazendo, temos que equiparar à criação do world wide web em 1993. Temos que comparar com a transformação que os smartphones trouxeram em 2007. Temos que pensar nisto como um novo modelo de interação entre o homem e a tecnologia, que é diferente daquela que tínhamos antes até agora. Isto traz novas oportunidades. Faz com que os países que ainda estão a introduzir e até a criar infraestruturas nas áreas de tecnologia, possam imediatamente abraçar estas oportunidades, principalmente a inteligência artificial generativa. É verdade que todas as oportunidades têm riscos, mas se nós não abraçarmos estas oportunidades, como exemplo usar essa tecnologia na área de prevenção das cheias, na área de tecnologia agrícola, na área de educação e desenvolvimento humano no geral, vamos perder uma grande oportunidade.

ONU News: E ainda sobre o papel do grupo que a ONU acaba de criar, há um mês ou pouco menos,  o que é que se pode dizer? Muitas vezes, a velocidade entre a evolução das tecnologias e a definição de políticas ou regulamentação não é a mesma. O que é que se pode fazer para fechar esta lacuna e acompanhar essa evolução da tecnologia?

Bernardo Mariano: Deixem-me dizer que eu estou muito feliz. Pela primeira vez nos meus 30 anos de carreira nas Nações Unidas, a organização está a responder muito mais rapidamente na altura em que a própria de comida está a desenvolver-se. Na introdução do world wide web nós estivemos uns cinco anos atrasados em termos de resposta e do papel das Nações Unidas em termos de regulamentação. No desenvolvimento de redes sociais, muito atrasados. Estamos a reagir às consequências. A criação deste grupo consultivo vai permitir que o secretário-geral das Nações Unidas e a organização tenham uma resposta não só adequada, mas, e mais importante, a tempo. Antes de estarmos num modo de reação por causa dos efeitos negativos da tecnologia. Eu sinto-me muito orgulhoso e muito feliz pelo que as Nações Unidas estão a fazer, neste momento, nesta área de inteligência artificial generativa e onde estamos a ter uma resposta muito mais atempada que nas revoluções tecnológicas anteriores.

ONU News: Tem uma timeline para estas coisas acontecerem até 2024 com a Cúpula do Futuro que vem aí e muitas coisas que devem avançar. A gente queria saber é como é que estão os consensos. Nesse momento a gente tem tantas crises e tantos assuntos debatidos aqui dentro da ONU, mas com tanta dificuldade de encontrar consenso. Nesse assunto a gente deve ter algum tipo de lugar comum entre as partes?

Bernardo Mariano: Eu penso que este assunto ainda se mantém um assunto tecnológico com riscos políticos. Pode  ter efeitos negativos em eleições, por exemplo, ou pode ter efeitos negativos na guerra cibernética e efeitos negativos humanos. Neste momento há testes onde um avião de guerra é pilotado por inteligência artificial vai à guerra. Então, tem todas estas iniciativas que estão acontecendo como novos serviços e novas áreas de inovação usando a inteligência artificial generativa. 

Estamos somente há um ano. Foi em março do ano passado que o ChatGTP  apareceu. Há um potencial. Estamos só há um ano. Quero dizer que a conferência do próximo ano, em 2004, está a vir mesmo a tempo, de modo que as Nações Unidas e o mundo em geral possam tomar ações de prevenção, mas também olhar para as oportunidades que estas tecnologias trazem para que a inteligência artificial generativa seja usada para um bem e para o desenvolvimento e minimizarmos os efeitos negativos. Se olharmos em paralelo e em termos de outras áreas, a  energia atômica tem um efeito positivo quando usado para produzir energia e devolver vários setores como desenvolver a agricultura e tudo o resto. Mas também tem um efeito muito negativo. Na inteligência artificial generativa, como Nações Unidas nós estamos atempadamente a olhar para  este assunto e esta transformação, de modo que atempadamente possamos introduzir todas as medidas preventivas para que a parte negativa da tecnologia seja minimizada e a parte positiva seja maximizada.

Mariano destacou oportunidades globais que a inteligência artificial traz em áreas cruciais para a comunidade
Mariano destacou oportunidades globais que a inteligência artificial traz em áreas cruciais para a comunidade/Reprodução

ONU News: E exatamente sobre essa questão de usar para o bem, a inteligência artificial vem com uma série de promessas: máquinas com desemprego potencializado, melhor diagnóstico na medicina, por exemplo, maior assistência a plataformas de rede social e na mídia. Já se pensou exatamente como potencializar este uso para o bem ou ainda se está no vazio e no âmbito da intenção?

Bernardo Mariano: Neste momento, como disse, estamos há um ano. Estamos desde março do ano passado nesta transformação que está acontecendo. A maior parte, quase todos os setores, estão no processo-piloto. Portanto, as Nações Unidas têm vários pilotos em vários setores onde se usa inteligência artificial, estou a pensar em inglês e a querer traduzir em português e sempre falho nisso. Nesse campo da inteligência artificial generativa existem já vários produtos que estão sendo comercializados. Por exemplo, a Microsoft já está a comercializar um produto que se chama Copilot, que é o ChatGPT pessoal, mas também há vários outras empresas que estão comercializando produtos já neste momento. Eu digo que o 80% a 90% de iniciativas na área de inteligência artificial generativa estão ainda num processo piloto, um protótipo, e eu penso que 2024 para frente, vamos ver um grande número de iniciativas que serão já como comoditizadas, comercializadas como o produto final. Neste momento, eu tenho participado em reuniões com várias empresas. Se há hoje também diretores de informática de várias empresas, das grandes empresas do mundo e todo mundo está num piloto. 

ONU News: No começo da entrevista, você estava falando sobre a questão das oportunidades que são criadas com as novas tecnologias, fez até um paralelo em 93 com a criação da WWW, da internet, como a gente conhece hoje. Mas o que tem sido debatido muito é o receio, o medo das pessoas de perderem seus empregos para a inteligência artificial e, eventualmente, isso se confirma de alguma forma. Como estão os debates sobre a questão da inteligência artificial no meio do trabalho? 

Bernardo Mariano: Eu sou um otimista eterno. Então, olhemos para os dados. Nos anos 60, a robótica dizia que muitas pessoas viriam a perder emprego na área de montagem de automóveis por causa da introdução dos robôs. Na verdade, mais emprego aconteceu. Quando a introduziu-se o computador, foi a mesma coisa. Então, na verdade, no passado, todas as tecnologias que foram introduzidas nos últimos 20 anos, houve sempre receio de pessoas perderem emprego, mas na verdade o que aconteceu foi trazer mais emprego para as pessoas. É verdade que algumas pessoas têm que se formar, tem que ter uma nova capacidade. Nas Nações Unidas, nós já estamos a dar cursos, vários cursos internos que os funcionários podem já se subscreverem e também tem que ter esses cursos sobre a inteligência artificial generativa nas várias áreas que podem ser usadas para melhorar os sobre os seus desempenhos para melhorar o trabalho. Na parte da capacitação, é importante que todas as pessoas tenham isto em mente, de modo que se, por exemplo, o meu trabalho era verificar, fazer o draft, preparar os relatórios para o para um certo tópico e nós introduzimos, por exemplo, a Inteligência artificial sociologia que faz este trabalho e pode fazer muito bem. Então, eu já tenho que me capacitar em num produto de mais valia. Portanto, digo, deixo este trabalho de fazer o draft que eu vou ter o draft da IA generativa e vou fazer a mais valia que é controlar a qualidade, por exemplo. Isso é importante, a capacitação, mas vai trazer muito mais empregos do que, portanto, a perda que se fala de trabalho. 

A Inteligência Artificial pode contribuir para combater as alterações climáticas e apoiar o progresso na consecução de todos os ODS
A Inteligência Artificial pode contribuir para combater as alterações climáticas e apoiar o progresso na consecução de todos os ODS/ONU/Elma Okic

A Inteligência Artificial pode contribuir para combater as alterações climáticas e apoiar o progresso na consecução de todos os ODS

ONU News: Como aproximar a inteligência artificial das crianças sem criar os danos, os receios que se tem, a esse respeito? 

Bernardo Mariano: Nós temos que comparar isso com várias gerações. Eu digo eu sou um “born before computer”, nascido antes do computador, mas os meus filhos nasceram com o smartphone. Então, a habilidade de jovens de adotar as novas tecnologias é muito mais alta. E eles vão ser a força dinamizadora de adoção e de uso. Alguém de 60 anos pode dizer com muito orgulho que “não tenho Facebook, não tenho Twitter, não tenho LinkedIn”, se fala isso a uma pessoa de 19 anos, vai dizer “mas tu existes?”, porque é o jovem nasceu num período em que a tecnologia está lá. O que eu quero dizer é que, sim, é uma questão de geração, em que a geração que está habituada ao WWW vai querer manter-se WWW. Mas se olharmos muito bem, neste momento os jovens de 19, 20 anos não usam o WWW. Estão no smartphone, usam os apps, para eles o WWW, de 1993, é uma coisa esquecida. Eu penso que a aceleração da IA generativa vai ser muito mais alta em termos de adoção comparado com as outras tecnologias por causa das oportunidades, benefícios, mas também de como os jovens vão estão adotando isso com muita intensidade. 

ONU News: Para terminar, a gente queria falar um pouco sobre os desafios éticos e sociais que a tecnologia traz também. Um dos riscos, que algumas vezes o secretário-geral também já falou, é que o algoritmo reforça alguns estereótipos, reforça a violência a alguns grupos vulneráveis. O que também está sendo discutido para evitar que esse círculo se renove numa tecnologia nova.

Bernardo Mariano: Há muitas áreas que estamos explorando. Estive com o reitor da Universidade das Nações Unidas discutindo isso porque, na verdade, o algoritmo que gera as respostas está baseado em dados. Portanto, se o dado tem um estereótipo, a resposta vai pelo estereótipo e o resultado vai ser também reforçar estereótipos. Eu gosto de uma frase que o secretário-geral diz “os seres humanos estão são os que estão em controle”. Não é a máquina, não é a inteligência artificial generativa que vai decidir. Os seres humanos que decidem. Então, a inteligência artificial generativa é uma ferramenta, algo que nós usamos, mas temos que sempre validar, verificar e ter atenção a estereótipos. Mas também quando eu estava discutindo com o reitor da Universidade das Nações Unidas, falamos dos dados sintéticos. Se os dados reais já têm um estereótipo, nós temos que introduzir dados sintéticos para reduzir o estereótipo, de modo que o resultado que vamos ter seja um resultado que não tem estereótipo. Mas neste momento, os resultados da inteligência artificial generativa têm um certo estereótipo que é preciso que todo mundo se acautele, de modo que, antes de consumir e promover os resultados que vêm desses modelos, se remova esses estereótipos. A África tem um déficit de dados dentro do sistema digital. Então, o estereótipo vai ser muito mais alto se usarmos a mesma tecnologia na África, porque há um déficit de dados digitais disponíveis para o consumo do modelo de IA generativo. 

ONU News: Muito obrigado. Desafios, oportunidades, questões éticas e sociais ligadas à inteligência artificial foram o tema em discussão com Bernardo Mariano, o chefe de Tecnologia e Informação das Nações Unidas. Foi um prazer tê-lo aqui.

(Com ONUNews)

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