Maioria dos 12 professores paulistas que chegou em Dourados em 1971, em confraternização dos 50 anos - - Fotos: acervo particular

José Henrique Marques

Para a grande maioria dos douradenses que acompanha a política local, a epíteto “República do Panambi” remete, jocosamente, a duas lideranças políticas que emergiram no distrito que se consolidou a partir da implantação da Colônia Agrícola Nacional de Dourados – CAND, pelo então presidente Getúlio Vargas, em 1944.

O interessante desta história é que o ex-funcionário da Sanesul, Primo Roberto Scaliante, que deixara a empresa de saneamento para ser chefe de Gabinete no primeiro mandato do ex-prefeito Braz Melo, em 1989, atirou no que viu e acertou no que não viu ao cunhar “República do Panambi” para frisar o suposto provincialismo de Valdenir e Idenor Machado – figuras em ascensão que vislumbravam, inclusive, ocupar o lugar de Braz na Prefeitura de Dourados.

O que Primo Scaliante não sabia é que, de fato, uma república havia se instalado no Panambi, em 1971, não de políticos, mas de educadores. Em meados de janeiro daquele ano, há 50 anos, incentivados por Idenor, 13 jovens professores e professoras iniciaram a migração de Ribeirão do Índios, então distrito de Santo Anastácio-SP, para o Panambi. Dada a precariedade da Vila naquela época se instalaram, todos, numa casa de madeira – uma república.

Tudo começou no final de 1970, quando o jovem Idenor Machado, com 20 anos, recém-formado em magistério, resolveu visitar familiares que residiam em um sítio, no Panambi, desde 1951: os avós paternos Henrique Souza Machado e Maria Rita Machado, e os tios Joaquim Paulino da Silva e Rosalina Machado. Estava à busca de novos horizontes onde poderia trabalhar e se estabelecer, enfim, fazer a vida, materializar projetos e realizar sonhos.

Idenor veio, viu, gostou e percebeu que seu futuro estava no município de Dourados, na época pujante com o início da mecanização das lavouras e adoção de outras tecnologias trazidas por um grande contingente de famílias de agricultores vindas do Sul, que se somaram aos pioneiros da CAND, migrantes de várias regiões do País.

O Panambi não tinha professores formados e Idenor fora incentivado pelos parentes e amigos destes, a trocar São Paulo pelo então Mato Grosso. 

Em dezembro daquele ano, Idenor retornou a Ribeirão dos Índios para passar as festas de final de ano junto aos familiares e amigos, e em janeiro de 1971, de mala e cuia, veio para o Panambi. Trouxe com ele outros dois professores: sua irmã, Izabel, então com 18 anos, e José Mazarim.

Assim, em vez de um, a Escola Rural Mista do Panambi, depois rebatizada como Escola Dom Aquino Correia, passou a contar com três professores para o alívio de colonos e de moradores zelosos pelos estudos dos filhos, entre os quais muitos se deslocavam diariamente à sede do município para estudar debaixo de chuva ou poeira.

Meses depois se juntaram a Idenor, Izabel e Zé Mazarim outros dez professores, todos formados em Magistério pelo Centro Educacional de Santo Anastácio (Cenesa): Teresa Carvalho, Júlio Defendi, Ivanda Molina, Ângelo Alves de Oliveira, Terezinha Aparecida Machado, João Alves de Oliveira, Ângelo Alves (Alemão), Claudinet Fernandes, Dalila Lasmar e Valdenir Machado. Estava, então, configurada a “República do Panambi”.

Para que se estabelecem, os professores contaram com providencial ajuda de dois personagens: o tio Joaquim Paulino da Silva, que fiou a conta de mantimentos “dos paulistas” num bolicho (como as mercearias eram chamadas), e do ex-vereador José Paulino da Silva, ligado a José Elias Moreira, no apoio político ao grupo.

Assim como a casa em que moravam (a dita república), a Escola do Panambi era de madeira e não tinha energia elétrica. Oferecia apenas da 1ª a 4ª série do ensino primário. O ensino da 5ª a 8ª era ministrado através de uma extensão do Colégio Oswaldo Cruz e era pago.

Pouco tempo depois, o delegado regional de Educação, Milton José de Paula, nomeou Idenor Machado como diretor da Escola com uma missão: substituir o Colégio Oswaldo Cruz pela Escola Presidente Vargas a fim de propiciar a gratuidade total do ensino na Escola do Panambi, o que aconteceu.

Passo seguinte, os professores da “República do Panambi” articularam um movimento reivindicatório junto ao prefeito João Totó Câmara e ao governador José Fragelli: a construção de um prédio de alvenaria para a escola do distrito. Também aconteceu.

Na inauguração, Idenor solicitou ao secretário de Estado de Educação, Loremberg Nunes Rocha, o segundo grau para o Panambi. Ouviu dele: “Vá a Cuiabá que irei atender essa reivindicação”, elevando de patamar a escola que passou a formar professores de toda a região.

Na medida que o tempo passou, com a estabilização do setor educacional no Panambi, com a escola formando professores, os educadores de Ribeirão dos Índios vieram trabalhar na função docente em Dourados. Idenor, por exemplo, dirigiu o Colégio Oswaldo Cruz e a Escola Estadual Armando da Silva Carmelo.

Em 1977, na divisão que originou o Mato Grosso do Sul, Idenor Machado começa a trabalhar na Agência Regional de Educação a convite do delegado Teotônio Alves de Almeida. À época, o órgão cobria cinco municípios: Dourados, Maracaju, Rio Brilhante, Caarapó e Naviraí – lembrando que Douradina e Angélica pertenciam a Dourados, Nova Alvorada do Sul a Rio Brilhante e Juti a Caarapó. Foi um dos responsáveis em trazer os arquivos da documentação relativa à pasta de Educação de Cuiabá-MT para Mato Grosso do Sul.

A partir daí Idenor Machado envereda-se na vida pública. Dentro da Agência, em abril de 1983, foi nomeado Agente Regional de Educação pelo governador Wilson Martins.

Com a saída de Leonardo Nunes da Cunha, em setembro de 1985, foi nomeado (por Wilson) secretário de Estado de Educação e ficou até o fim do mandato em 1987, com Ramez Tebet no Governo, já que Wilson Martins renunciara para disputar e se eleger senador de MS. No final daquele ano, assumiu a presidência do Conselho Estadual de Educação.

Depois da experiência bem-sucedida em nível de Governo do Estado, o criador da “República do Panambi” foi por 12 anos secretário municipal de Educação nas administrações dos ex-prefeitos Braz Melo (dois mandatos) e Humberto Teixeira.

Sempre seguindo diretrizes acordadas com Braz e Humberto, Idenor Machado acabou com as classes multisseriadas colocando ônibus para transportar alunos das propriedades rurais, e vice-versa, às sedes dos distritos e a Dourados.

Nos três mandatos, ele contribuiu com a construção de 10 CEU´s e ampliação de outros, na municipalização de quatros escolas, na construção do CAIC e da sede da Pestalozzi, além da criação de quatros escolas estaduais em Dourados.

Ele ainda como secretário de Educação do município implantou o Conselho Municipal de Educação, desvencilhando Dourados das decisões tomadas em Campo Grande. Em 1986, formou-se em Direito na Unigran.

Idenor, incentivado pela família, amigos, professores e diretores de escolas exerceu por 10 anos a vereança (duas eleições e uma suplência), tendo presidido a Câmara Municipal por seis anos.

Ao longo da trajetória de 50 anos de serviços prestados a Dourados, o trabalho de Idenor Machado foi muitas vezes reconhecido com a outorga do título de Cidadão Douradense e Moção de Congratulações apresentadas, respectivamente, pelos ex-vereadores Dorgival Ferreira e Luiz Machado

Idenor Machado e a ‘República’ de Ribeirão dos Índios no Distrito de Panambi
Entre os vereadores Bebeto e Dorgival Ferreira, Idenor recebe o título de Cidadão Douradense em 1993

Também teve o reconhecimento de Aloisio Sotero, então secretário-geral do Ministério da Educação, e de Marco Maciel, ex-ministro-chefe do Gabinete Civil da Presidência da República. Até uma poesia de autoria da professora Maria Alice de Miranda Aranda, intitulada “Homenagem ao Prof. Idenor Machado” foi publicada em março de 1997 no jornal O Progresso.

A coragem e a visão de futuro de Idenor há meio século fez que quase toda a família deixasse Ribeiro dos Índios e viesse para Dourados. Até os pais, Antonio Machado e Thereza Magro Machado, desembarcaram no Panambi em 1975.

De todos os irmãos educadores da família que vieram para Dourados (Idenor, Izabel, Maria Julia, Terezinha, Maria de Lourdes, Valdenir) apenas Zé Machado, embora com habilitação em pedagogia, não trabalhou no magistério. Chegou na terra de Marcelino Pires, em 1975, e foi trabalhar no cartório que Valdenir havia conseguido a outorga e que pertenceu a José Francisco da Cruz.

Dos 13 educadores que formaram “República”, Valdenir foi o último a chegar. Dava aulas em um período, trabalhava em outro no cartório, que depois viria a ser dele, e jogava no time do Palmeirinha do Panambi. A popularidade com o esporte fez dele vereador, antes de Idenor, e deputado estadual.

Passados 50 anos da trajetória dos 13 professores paulistas, todos já aposentados, o sucesso deve-se ao esforço e coragem de trocar a cidade natal pelo desafio de participar do desenvolvimento de Dourados, onde tiveram apoio de familiares e de muitos outros educadores.  

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