Assisti a coletiva da Polícia Civil gaúcha, sobre o caso da família Aguiar, não apenas com a curiosidade do escritor e ex-policial. Mas com o temor e o assombro – e as incertezas! – de uma geração que, do aprender datilografia para arranjar emprego, se viu, de repente e na velocidade de um tornado infinito, cercada de tecnologias cada vez mais inovadoras, surpreendentes e imprevisíveis. Questionáveis, por muitos, e louvadas por tantos. Quando os delegados narraram os detalhes descobertos, vi que este caso vai além de uma tragédia de sangue. Ele carrega consigo um alerta digital urgente. O suspeito, preso sob a sombra de um possível feminicídio e dois homicídios, não usou apenas a força bruta. Ele usou a Inteligência Artificial. A tecnologia está aí, onipresente e indiferente, como a faca de cozinha que tanto corta o bolo delicioso e provoca sorrisos quanto encerra uma vida. O código não tem ética. O objeto não tem alma. Quem aperta o “enter” é o humano.
Softwares de clonagem de voz surgiram para a acessibilidade, permitindo que mudos recuperem a fala ou que dublagens ganhem realismo em segundos. É o progresso em sua face teoricamente mais nobre. Porém, a mesma ferramenta que emociona uma avó ao ouvir o neto é o motor de golpes financeiros e simulações macabras. No caso Aguiar, a I.A. foi a máscara para o silêncio das vítimas, uma tentativa de forjar vida onde o criminoso talvez já houvesse semeado a morte. O lado B do que deveria ser bom é o cinismo traduzido em algoritmos.
Porém, fica, deste caso, uma lição também aos de má índole, que ao saber da notícia, já a transformaram em possibilidades dentro de suas almas ardilosas. O crime se moderniza, mas a vilania continua velha e previsível. Se a tecnologia facilita a perversidade, ela também é a armadilha que a captura. A perícia digital desfez o nó de vozes sintéticas e mensagens forjadas, provando que o rastro de silício é tão indelével quanto uma digital no cano de um revólver. Não existe crime perfeito na era dos dados, especialmente quando o agressor acredita ser mais inteligente que a máquina que utiliza. A tecnologia é o farol, mas ela não enxerga sozinha.
No fim das contas, a vitória não pertence ao processador mais rápido, mas à boa e velha inteligência natural. Louva-se a ferramenta, sim, mas é preciso celebrar os policiais que dobram madrugadas cruzando pistas, hipóteses, possibilidades, metadados e vestígios. O mérito é da perspicácia humana, daquela intuição e da persistência que nenhum software consegue simular. A justiça, neste caso, não foi feita por um robô. Foi garantida por homens e mulheres que transformaram códigos complexos em provas sólidas. A tecnologia entrega o dado, a competência humana entrega a verdade.
(Informações R7)




