Líder da bancada do PT na Assembleia Legislativa afirma que mandato acompanha os casos e recebe denúncias; MPF investiga episódios de intimidação contra comunidades indígenas no Estado
A deputada estadual reeleita, professora Gleice Jane (PT), líder da bancada do partido na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (Alems), manifestou preocupação com os recentes episódios de violência, ameaças e discriminação relatados por comunidades indígenas no Estado. A parlamentar informou que seu mandato está acompanhando os acontecimentos, recebendo denúncias e buscando esclarecimentos sobre os casos.
Nesta quinta-feira (29), um incêndio destruiu uma casa de reza da comunidade Guarani Kaiowá, na região de Jaguapiré, em Tacuru, município localizado no sul de Mato Grosso do Sul. O imóvel pertencia à rezadora tradicional Roberta, de 83 anos, que relatou suspeitas de intolerância religiosa.
Segundo informações, a indígena afirmou que a residência e os objetos utilizados em suas práticas religiosas foram destruídos pelas chamas. Ela também relatou episódios anteriores de violência e preconceito por manter as tradições espirituais de seu povo.
A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) foi acionada e enviou um representante ao local. A Polícia Civil investiga as circunstâncias do incêndio. Até o momento, não há confirmação de que o fogo tenha sido criminoso ou motivado por intolerância religiosa.
Para Gleice Jane, o episódio exige uma apuração rigorosa, especialmente diante das denúncias recentes de ameaças contra comunidades indígenas.
“Estamos acompanhando com muita preocupação o que está acontecendo em Mato Grosso do Sul. Uma casa de reza não é apenas uma construção. É um espaço sagrado, de preservação da espiritualidade, da memória e da cultura de um povo. Precisamos esclarecer as circunstâncias desse incêndio e garantir que todas as denúncias sejam investigadas”, afirmou a deputada.
MPF investiga denúncias de ameaças
O incêndio ocorre em meio a outras denúncias envolvendo comunidades indígenas no Estado. Na quarta-feira (28), o Ministério Público Federal (MPF) informou a abertura de procedimentos para investigar relatos de ameaças, intimidações e possíveis ataques contra indígenas após o segundo turno das eleições presidenciais.
As apurações foram iniciadas após denúncias encaminhadas pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) a órgãos federais.
Em Tacuru, o MPF estabeleceu prazo de 48 horas para que a prefeitura apresente esclarecimentos sobre áudios com supostas ameaças de envenenamento da água consumida por comunidades indígenas.
O órgão também recomendou que, caso sejam identificados indícios consistentes de participação de servidores municipais, sejam adotadas medidas administrativas, incluindo a abertura de processos disciplinares e o afastamento cautelar dos envolvidos.
Em Naviraí, por outro lado, diligências do MPF não confirmaram denúncias de homicídios contra indígenas por motivação política. Segundo o órgão, imagens de um crime relacionado a um conflito interpessoal circularam fora de contexto nas redes sociais.
Liderança indígena relata ameaças e discriminação
O secretário do Aty Guasu, historiador e ativista climático Jânio Kaiowa, também denunciou publicamente o clima de hostilidade enfrentado por indígenas em Mato Grosso do Sul.
Em manifestação nas redes sociais, a liderança afirmou que comunidades continuam recebendo mensagens de ódio e ameaças de morte.
“Nós recebemos muitas mensagens de ódio, recebemos muitas ameaças de morte também. A gente sabe que Mato Grosso do Sul tem histórico de violência contra o povo Guarani Kaiowá”, declarou.
Jânio também relatou preocupação com a circulação de listas que identificariam estabelecimentos comerciais conforme o posicionamento político de seus proprietários. Segundo ele, existe receio de retaliações e episódios de violência associados à polarização política.
Para Gleice Jane, as denúncias precisam ser tratadas com seriedade pelas instituições responsáveis.
“Não podemos naturalizar ameaças, discriminação ou qualquer forma de violência contra os povos indígenas. São comunidades que enfrentam conflitos históricos pela garantia de seus direitos e que precisam ter sua integridade física, seus territórios e suas manifestações culturais respeitados. Nosso mandato está recebendo denúncias, apurando as informações e acompanhando os encaminhamentos necessários”, afirmou.
Mobilização em defesa da vida indígena
Diante dos episódios recentes, está prevista para sábado (31) uma mobilização em defesa da vida indígena, a partir das 9h, na Praça Antônio João, em Dourados.
O ato ocorre em um momento de preocupação com a segurança das comunidades indígenas e com a preservação de seus direitos.
Gleice Jane destacou a importância de garantir proteção às comunidades e responsabilização em eventuais crimes identificados pelas investigações.
“Os povos indígenas têm o direito de viver sem medo, de preservar sua cultura, exercer sua espiritualidade e permanecer em seus territórios. O poder público precisa assegurar esses direitos. Seguiremos atentos às denúncias e cobrando providências para que nenhuma ameaça ou violência fique sem a devida apuração”, concluiu.
Texto: Mayara Freire



