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França vai cobrar mais atitude do Brasil em questão climática

Meio Ambiente – 19/12/2008

O presidente francês, Nicolas Sarkozy, deverá cobrar mais atitudes concretas do Brasil para conter o aquecimento global, durante a visita que fará ao país a partir da próxima segunda-feira.
Sarkozy e o colega brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, se encontrarão na segunda e na terça-feira, no Rio de Janeiro, e deverão finalizar acordos bilaterais nas áreas de Meio Ambiente, Defesa e Educação, que estão previstos no acordo de colaboração estratégica entre os dois países.
Numa visita com numerosos objetivos, outros temas, como a agricultura, transportes, energia e a nova presidência norte-americana, entrarão na pauta de discussões dos líderes, mas não devem resultar em acordos imediatos.
O conselheiro diplomático do Palácio do Eliseu, Jean-David Lévite, detalhou nesta manhã à imprensa, em Paris, a agenda oficial do presidente francês no Brasil.
No primeiro dia, a partir do meio-dia, Sarkozy se encontrará com Lula no âmbito da Cúpula União Européia-Brasil, com a presença do presidente da Comissão Européia, o português Durão Barroso, e dos ministros franceses das Relações Exteriores (Bernard Kouchner), Educação (Xavier Darcos) e da Defesa (Hervé Morin).
A França encerra no próximo dia 31 a residência rotativa da UE. A primeira-dama Carla Bruni-Sarkozy acompanhará o marido na agenda brasileira.
À noite, o casal Sarkozy deverá comparecer à cerimônia de abertura do Ano da França no Brasil, em 2009, e no dia seguinte, às 10h, o presidente se reunirá novamente com o chefe de Estado brasileiro para tratar exclusivamente das relações bilaterais, com a assinatura de ao menos três acordos entre as duas nações.
“Somos parceiros importantes um para o outro. O Brasil é uma grande democracia e uma grande economia de mercado”, afirmou Lévite. “As nossas relações sempre foram amigáveis e vêm de longa data. A proximidade entre os dois países é extraordinária e marca a intimidade das relações que existem entre eles, e é do nosso interesse ajudar o Brasil a avançar cada vez mais. Existe uma química impressionante quando Sarkozy e Lula estão um frente ao outro, há imediatamente uma vibração positiva na atmosfera.”
Entre 20 e 30 empresários deverão acompanhar a comitiva presidencial para contatos comerciais.
Lévite, no entanto, mudou o tom e foi mais enfático quando tratou de Meio Ambiente e da intenção francesa de cobrar por mais ações brasileiras no sentido de reduzir a poluição atmosférica.
“Um assunto difícil é o clima. A Europa deu um grande passo à frente e estamos orgulhosos do nosso Pacote Clima, em que propomos metas ambiciosas de redução de emissões de gases de efeito estufa. Mas entendemos que países como o Brasil podem e devem fazer mais”, explicou o conselheiro.
“O Brasil tem de aceitar a negociação e aceitar a fazer um esforço traduzido por números precisos. A Amazônia está desaparecendo e ela pertence a todos nós, ao contrário do que o Brasil defende. O Brasil vai precisar se mexer e se engajar mais.”
No que diz respeito ao Meio Ambiente, Brasil e França deverão assinar tratados de melhor preservação das florestas na fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa, de criação de uma rede de pesquisas integrada na Amazônia e de transferência de tecnologias e conhecimento para o combate da garimpagem ilegal.
No âmbito da Defesa, o Brasil deve finalizar a compra de cerca de cinqüenta helicópteros militares EC-725 Colgar franceses e de quatro submarinos Scorpène.
Além disso, a França prestará assistência aos brasileiros na construção de um próprio submarino a propulsão nuclear e de uma base de atraque de submarinos. As negociações sobre a venda dos aviões de caça Rafale devem continuar.
Sobre tecnologias, os países acertarão uma parceria de cooperação espacial, para usos diversos como na agricultura, no controle de desmatamentos, na prevenção de catástrofes naturais em telecomunicações, enquanto que no campo do Ensino, vão acertar uma parceria para o aprimoramento da rede brasileira de ensino técnico.
As negociações de Doha, que, para o Brasil, buscam definir as regras de exportação e importação especialmente de produtos agrícolas, também deverão ser discutidas.
“A questão agrícola é, certamente, muito sensível para países como o nosso e também para o Brasil. Imaginamos que o presidente Lula vá querer conversar longamente com o presidente Sarkozy sobre isso.”
A reforma do Conselho de Segurança da ONU ¿ sobre a qual a França concorda com a entrada do Brasil como membro-permanente ¿, a imigração, a segurança e as relações da América Latina com Cuba e Rússia são outros dos pontos previstos na vasta pauta de debates.
Sobre imigração, Lévite advertiu que o principal objetivo da comitiva francesa é prestar esclarecimentos sobre o princípio da Imigração Seletiva, adotado pela União Européia após sugestão da França.
“Essa reforma foi extremamente mal-vista pela América Latina, no entanto outras regiões de onde muito mais imigrantes chegam à Europa, como a África, compreenderam o procedimento com mais naturalidade. Acho que não demos a atenção necessária à América Latina e isso acabou causando muitos mal-entendidos, sobre os quais pretendemos nos explicar melhor.”
A Imigração Seletiva consiste em facilitar a vinda de intelectuais e profissionais qualificados para trabalharem na Europa por um tempo determinado, e impõe regras mais repressivas à imigração ilegal. A idéia dos franceses é buscar cooperação das autoridades brasileiras na aplicação das novas diretrizes européias.
A agenda oficial se encerra após o almoço da terça-feira, no entanto há rumores de que Sarkozy e a esposa poderão esticar a viagem até o dia 28, passando inclusive o Natal em solo brasileiro.
“Isso é um assunto privado sobre o qual eu não falarei uma palavra”, disse o conselheiro diplomático, aos risos.

Fonte: Folha de Dourados

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