No galpão da Ação da Cidadania, na Gamboa, região central do Rio, 600 cestas básicas se perdem num imenso espaço vazio diante da escassez de doações. A pouco mais de um quilômetro dali, dezenas de pessoas se aglomeram, em tempos de pandemia, em uma fila frente à Biblioteca Parque, na Avenida Presidente Vargas, também no Centro. Estão ali não pelos livros, mas por quentinhas distribuídas na hora do almoço pelo governo do estado.

Centenas de pessoas aguardam sua vez na distribuição de refeições pelo estado no Centro do Rio
Centenas de pessoas aguardam sua vez na distribuição de refeições pelo estado no Centro do Rio Foto: Guito Moreto / Extra
Doações minguaram: galpão da Ação da Cidadania, que concentra boa parte das doações, está praticamente vazio
Doações minguaram: galpão da Ação da Cidadania, que concentra boa parte das doações, está praticamente vazio Foto: Márcia Foletto / Extra

Há 28 anos à frente de campanhas contra a fome, a Ação da Cidadania diz que a ajuda com alimentos minguou. Se no ano passado foram distribuídas 80 mil cestas por mês, agora são só 8 mil a cada 30 dias.

Na capital paulista, o G10 Favelas, iniciativa de líderes das 10 maiores comunidades do país que auxilia as famílias mais impactadas pela pandemia, viu sua produção diária de 10 mil marmitas despencar para 700.

— As doações caíram. É o Brasil do home office e o Brasil da fome. (Como não saem de casa), as pessoas não estão enxergando a fome — lamenta o presidente, Gilson Rodrigues.

Enquanto os donativos minguam, a mesa do brasileiro segue cada vez mais vazia. Pela primeira vez em 17 anos, mais da metade da população não teve certeza se haveria comida em casa no dia seguinte, teve que diminuir qualidade e quantidade do consumo de alimentos e até passou fome. São 116,8 milhões de pessoas nessa situação de insegurança alimentar no Brasil, segundo pesquisa divulgada pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional.

Na informalidade, boa parte da população recorre a doações. Na foto, quentinhas distribuídas no Centro do Rio
Na informalidade, boa parte da população recorre a doações. Na foto, quentinhas distribuídas no Centro do Rio Foto: Guito Moreto / Extra

A pandemia deixou ainda 19 milhões com fome no ano passado, ou 9% dos brasileiros, a maior taxa desde 2004, há 17 anos, quando essa parcela chegou a 9,5%. E quase o dobro do que havia em 2018, quando o IBGE identificou 10,3 milhões de brasileiros nessa situação.

— A pesquisa revela um processo de intensa aceleração da fome, com um crescimento que passa a ser de 27,6% ao ano entre 2018 e 2020. Entre 2013 e 2018, o aumento era de 8% ao ano. Chegamos ao final de 2020 com 19 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar grave — destaca Francisco Menezes, analista de Políticas e Programas da ActionAid.

O retrato da fome está no rosto de homens, mulheres e crianças que, diariamente, aguardam a refeição do programa RJ Alimenta, do governo estadual. A ação atende, desde agosto, pessoas que sofreram os impactos da pandemia. Previsto para acabar em fevereiro, o projeto teve que ser estendido. Já foram distribuídas 1,2 milhões de refeições na Biblioteca Parque.

Presidente do Conselho da Ação da Cidadania, Daniel de Souza, que toca o legado do pai, o sociólogo Herbert de Souza, convoca a sociedade civil a fazer doações para a compra de alimentos. Ele diz que chama atenção o caso de pessoas que antes eram doadores e agora pedem uma cesta básica.

Mais mulheres e negros

A incidência da fome é maior nas casas onde a renda per capita é de meio a um salário mínimo, e nas que são chefiadas por mulheres e por negros. Rosana Salles, uma das pesquisadoras responsáveis pelo levantamento da Rede Penssan e professora de Nutrição da UFRJ, diz que, além do aumento da fome, o que chamou a atenção foi a “queda brusca na segurança alimentar”, quando as famílias não têm problemas para pôr comida na mesa, que caiu de 63,3% em 2018 para 44,8%. É o menor índice da série iniciada em 2004.

— O acesso insuficiente em quantidade e qualidade da alimentação para família cresceu muito, principalmente a insegurança leve (não há garantia de que a família será capaz de comprar comida). Esse é o primeiro prejuízo, que vem com a perda de emprego ou corte do salário.

Desemprego aumenta a fila

No Largo da Carioca, outra longa fila de pessoas em busca de uma quentinha, também todos os dias. Ali, a distribuição fica por conta do Serviço Franciscano e Solidariedade (Sefras). O perfil de quem tem fome é o mesmo: desempregados ou pessoas que viviam da informalidade, mas que ficaram sem trabalhar por conta das medidas restritivas. Como o auxílio-emergencial estava suspenso, as filas aumentaram.

Juliano Rosa Filho, de 37 anos, que perdeu o emprego de auxiliar de cozinha e limpeza há três meses, entregou o apartamento onde morava de aluguel em Sepetiba e agora vai todo dia no mesmo horário e local para não perder o café da manhã e o almoço do dia:

— A situação de pandemia tá levando muita gente ao desespero. Não adianta só dar comida, os governantes têm que dar emprego para a gente sair dessa situação. Vejo aqui não só morador em situação de rua que vem buscar refeição, mas gente que não tem opção.

As amigas Aline Rodrigues da Silva, de 30 anos, e Cristiana dos Santos, de 46, passaram a morar no hotel popular da prefeitura na Tijuca desde que não puderam mais custear as despesas de casa. Agora, buscam os almoços gratuitos no Centro.

— A gente vem andando por 40 minutos, come aqui mesmo e depois volta. Às vezes, o Campo de Santana tá aberto aí a gente senta em um dos banquinhos e come — relata.

Segundo Nicolas Pereira, auxiliar administrativo no projeto do Sefras, a demanda pelas refeições cresce.

— No final do ano passado distribuímos almoço e janta por seis meses. Mas com a piora da pandemia a captação diminuiu. Hoje podemos oferecer 300 refeições diárias, o que está muito aquém da quantidade de pessoas que nos procuram — lamentou.

Cada solicitante só pode pegar uma refeição, obrigando alguns a levarem toda a família. No período de maior atividade, eram entregues 800 refeições, e algumas pessoas conseguiam levar uma marmita para parentes. Agora, as sobras estão cada vez mais raras.

Como doar no Rio de Janeiro

Panela cheia: O movimento organizado pela Central Única das Favelas (Cufa), Gerando Falcões e Frente Nacional Antirracista arrecada recursos para a compra de 2 milhões de cestas básicas para instituições de todo o país. Doações no site www.panelacheiasalva.com.br

Tem gente com fome: A campanha nacional de financiamento coletivo arrecada fundos para ações emergenciais de enfrentamento à fome, à miséria e à violência na pandemia. É possível doar a partir de R$10, para ajudar 222.895 famílias em situação de vulnerabilidade. A iniciativa é organizada por Coalizão Negra por Direitos, Anistia Internacional, Oxfam Brasil, Redes da Maré, Ação Brasileira de Combate às Desigualdades, 342 Artes, Nossas — Rede de Ativismo, Instituto Ethos, Orgânico Solidário e Grupo Prerrô. Depósitos para Associação Franciscana DDFP / CNPJ: 11.140.583/0001-72 / Banco do Brasil /Ag 1202-5 / C.C. 73.963-4 ou PIX 11.140.583/0001-72.

Voz das Comunidades: Doações em conta na Caixa Econômica Federal / Agência 0198 / conta 3021-2 / operação: 003 / CNPJ 21.317.767/0001-19 / PIX 21.317.767/0001-19 / @vozdacomunidade no PICPAY / [email protected] no paypal. (Extra)

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