06/03/2017 15h10

‘No princípio era o amor à palavra’

Por: Folha de Dourados

(*) POR REBECCA LOISE

Assinarei esta coluna que dei o nome de arTura. Ar – quentura. Artigo – gastura. Artifício – textura. Artimanha – abertura. Artur Rei – candura. Arte – tontura. Arte – tortura. Arte – cultura.

A história da Coluna arTura tem seu princípio no precipício que meu amor à palavra me deixa: absolutamente catártica. O primeiro conto que escrevi em página de Word e imprimi numa A4 amarela foi aos onze, no ano 2000. Senti a paixão por um garoto de doze e aquele sentimento foi tão entorpecente que achei que fosse explodir. Então, pela dança dos dedos no teclado eu vi surgir a materialidade da palavra e eu pude caber novamente no meu corpo de menina. Graças à palavra, tenho corpo até hoje.

O fato empírico da palavra engravida as verdades mais uterinas e segue dando luz aos sentidos. Por que não amontoar tais sentidos e fazer-se lida? Não há escritora se não houver leitores. Não há palavra sem cultura. Não há cultura sem arte. Não há mim sem palavras, por isso estamos aqui: as palavras, eu por de trás delas, seus olhos.

Para ser ainda mais histórica, foi numa caderneta que ganhei na passagem de dois mil e quinze para dois mil e dezesseis que escrevi o neologismo arTura pela primeira vez. Eu estava numa viagem paradisíaca com uma de minhas melhores amigas na Praia de Pouso da Cajaíba, que fica na Enseada do Pouso, região preservada pela Reserva Ecológica de Juatinga. Para chegar ao paraíso, entrei de gaiata na lancha de Quino, que me esperava no porto de Paraty – RJ.

Noite do dia 27 de dezembro de 2015. Foi a cena acompanhada de mim mesma mais romântica que vivi até este meus vinte e sete, onde o perigo de navegar durante a noite mais alta era proporcional à beleza estética dos mistérios: um beijo molhado da escuridão da lua protagonista nos lábios barulhentos e dançantes das ondas do mar. Surreal e mitológico.

Guardo em mim um oceano sentimental e eu jamais pertenci tão bem aos instantes como na presença da imensidão daquele mar. Espero que até aqui eu tenha te convencido a visitar este lugar.

Com este ar viajante, revirando meus diários de bordo, espero que no encontro semanal com as palavras que eu vier a me servir possamos ter uma troca leve, poética, agradável, na qual me comprometo a tecer sentidos sobre o que habita o vazio em que estamos todos submetidos: o espaço vasto entre arte & cultura.

Imenso prazer estrear nesta coluna, sendo mulher, na semana que comemoramos o político Dia Internacional de Todas Elas, em 8 de Março. Aliás, este texto foi escrito ao som da diva Nancy Wilson. Os astros Jimmy Page e Robert Plant já caíram em lágrimas por esta dama do jazz. Faça este mergulho você também.

(*) Rebecca Loise é psicóloga e mestra em Psicologia, professora universitária e atua como psicanalista em consultório particular. Bailarina formada, escritora e poeta. Desde 2010 alimenta seu blog “De Sóis Noturnos” (www.rebeccaloise.blogspot.com). E-mail: [email protected]

Rebecca Loise

Comentários do Facebook