A peça publicitária que transforma Flávio Bolsonaro em um “Top Gun” tupiniquim não é criatividade, é a ressurreição da propaganda do heroísmo típica dos regimes fascistas
Anita Tetslaff (*) –
A peça publicitária que transforma Flávio Bolsonaro em um “Top Gun” do trópico brasileiro, combatendo o PCC, o Comando Vermelho e o PT, é a propaganda do heroísmo, típica dos regimes fascistas do século XX. Uma análise da estética e da narrativa revela um perigoso roteiro que troca o debate democrático pelo chamado à guerra.
A imagem é potente e deliberada em que Flávio Bolsonaro, fardado como um piloto de caça, trava uma batalha aérea contra três inimigos bem definidos: o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho (CV) e o Partido dos Trabalhadores (PT). Ao colocar uma legenda partidária ao lado de facções criminosas, a peça publicitária não apenas equipara adversários políticos a bandidos, mas também inscreve o senador na narrativa milenar do “salvador da pátria” em guerra contra o “eixo do mal”.
Quando um político troca a imagem do administrador público, aquele que negocia, erra e presta contas, pela de um guerreiro, ele não está apenas buscando apelo popular. Está, como afirma o pesquisador Diemerson Sacchetto, recrutando seguidores para um projeto que depende de heróis e de uma massa que obedece e aplaude, em detrimento de cidadãos que argumentam e fiscalizam.
A estética adotada pela campanha é uma estratégia com uma história longa e reconhecidamente desconfortável. No século XX, os regimes fascistas na Itália e na Alemanha construíram o que se convencionou chamar de “propaganda do heroísmo”. O objetivo não era mostrar o líder como um gestor, mas como uma figura sobre-humana, um semideus destinado a proteger a nação.
Na Itália de Benito Mussolini (1922-1943), o ditador assumiu o título de Il Duce e sua imagem foi sistematicamente moldada para parecer viril, incansável e destemido. A historiadora Simonetta Falasca-Zamponi, em seu livro Fascist Spectacle, detalha como o regime de Mussolini transformou a política em um espetáculo, utilizando símbolos, rituais e uma estética grandiosa para criar o culto à personalidade do líder e mitologizar o Estado. A violência e a guerra eram glorificadas, com o próprio Mussolini declarando que “a guerra é bela” por sua capacidade de “metalizar” o corpo humano, uma retórica que preparava a nação para o conflito e a submissão.
Este modelo foi copiado e aperfeiçoado por Adolf Hitler no Terceiro Reich (1933-1945), onde a propaganda nazista, sob o comando de Joseph Goebbels, centralizou a figura do Führer como o único salvador do povo alemão. Registros fotográficos da época, como os que documentam a visita de Mussolini à Alemanha em 1938, mostram a encenação meticulosa do poder e da união entre os dois ditadores, com cerimônias de “homenagem aos heróis” cuidadosamente coreografadas para a imprensa. A propaganda visual nesses regimes totalitários funcionava como uma ferramenta de formação da opinião pública em escala sem precedentes, usando a simplificação e o apelo emocional para construir uma comunidade política e legitimar o poder.
A peça publicitária de Flávio Bolsonaro, ao que tudo indica, replica três pilares centrais dessa estética fascista. A primeira é a Dicotomia Amigo-Inimigo, em que divide o mundo em dois campos opostos entre os “puros” e os “impuros”, os “patriotas” e os “traidores”. Não há espaço para o cidadão com opiniões divergentes; a nação está em guerra contra ameaças internas e externas. A segunda é a Estética da Violência marcada pela força física, pelo combate e a disposição para destruir adversários. Armas, uniformes e símbolos militares ocupam o centro do palco. A violência deixa de ser um problema a ser resolvido pelas instituições e se transforma em uma virtude. Em terceiro é o Culto ao Líder sendo que a ideia subjacente em que problemas complexos como segurança, economia e desigualdade não requerem instituições, ciência ou debate, mas sim um “homem forte” capaz de resolver tudo sozinho. Essa figura heroica é colocada acima da lei e das instituições, sendo a única capaz de salvar a nação.
É bem certo que não estamos na Itália de Mussolini ou na Alemanha de Hitler. A história não se repete de forma copiada. No entanto, certas gramáticas políticas sobrevivem, atravessam o tempo e mudam de roupa, trocando a marcha militar pela trilha sonora de um filme de ação. No Brasil, esse fenômeno não é novo e já foi dissecado por artistas e pesquisadores. O fotolivro Tropical Trauma Misery Tour, de Rafael Roncato, por exemplo, investiga como o bolsonarismo transformou a política em um espetáculo midiático, usando a desinformação e a estética da vítima como ferramentas de poder.
Quando um político troca o debate pela mitologia, a pátria pelo campo de batalha e o argumento pela explosão, ele não está informando; está recrutando seguidores. E, como alerta o pesquisador Diemerson Sacchetto, está nos convidar a segui-lo “diretamente para o abismo”. A democracia, por sua vez, depende de cidadãos que argumentam, discordam, fiscalizam e duvidam. Ela não sobrevive em um mundo de heróis e vilões, onde a força bruta substitui a força do debate. Já vimos esse roteiro antes, e sabemos como ele costuma terminar.
(*) Jornalista. Professora. Doutoranda e Mestra em Educação, na Área de Concentração em História e Políticas e Gestão da Educação, pela UFGD. Especialista em Administração de Marketing, pela Uniderp. Especialista em Metodologia do Ensino, pela Universidade Braz Cubas.




