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(*) Fernando Mendes Lamas –

A especialização da produção pode proporcionar condições para a obtenção de ganhos devido à escala, melhor aproveitamento das instalações de beneficiamento, armazenamento e transporte, reduzindo os custos. Em geral, nos sistemas especializados, a gestão é mais simples e o trabalho menos intenso, quando se compara com sistemas diversificados.

Pode também se considerar como vantagem da especialização de uma determinada atividade agrícola, a obtenção de conhecimentos mais aprofundados e específicos sobre a atividade em questão. Aliado a isso, a especialização permite que o produtor ou uma região se torne referência na produção de algum produto.

No entanto, a especialização tem como principal inconveniente a fragilidade proporcionada para o produtor ou para uma região, se ocorrer uma adversidade climática numa determinada fase crítica do ciclo de uma cultura. Além do mais, a especialização na agricultura, limita a adoção de uma prática fundamental quando se pensa em sustentabilidade, que é a rotação de culturas.

No caso de culturas perenes como café e fruticultura, em virtude dos custos de implantação e do tempo necessário para o início da produção econômica, assim como na olericultura e na floricultura, a especialização é até desejável em função da especificidade dessas atividades. Porém, mesmo para essas atividades o ideal é que seja cultivada mais do que uma espécie.

 A sustentabilidade da atividade agrícola é alicerçada na intensificação e integração. Assim, a diversificação é fundamental quando se pensa em sustentabilidade. A diversificação dos sistemas agrícolas, seja pelo aumento do número de espécies ou cultivares de uma determinada espécie, contribui para o manejo integrado de pragas e doenças, reduzindo a necessidade de intervenções para controle de pragas e doenças. A combinação de espécies pode melhorar também as propriedades físicas, químicas e biológicas do solo e, por conseguinte, a sua capacidade produtiva.

Alternativas que efetivamente permitam a diversificação é o grande desafio da agricultura moderna. Temos algumas possibilidades como o cultivo do girassol, do milho pipoca, do feijão-caupi, do amendoim, do gergelim, dentre outras. No entanto, a decisão sobre sair de modelos baseados, por exemplo, no cultivo da soja e do milho segunda safra, não é nada simples, pois existe toda uma infraestrutura de insumos, de armazéns e de comercialização que, de certa forma, garante este modelo de produção.

Ao migrar do milho segunda safra para o cultivo de girassol, várias perguntas precisam de respostas, tais como: qual a melhor época de semeadura, qual a variedade ou híbrido usar, onde comprar as sementes, para quem vou vender a produção e outras inúmeras perguntas precisam ser respondidas para sustentar uma decisão. Por outro lado, permanecer na zona de conforto, fazendo mais do mesmo, pode não ser a melhor alternativa.

No Brasil, temos alguns exemplos que são muito interessantes. O avanço do algodão no Mato Grosso, hoje o maior produtor brasileiro, deu-se devido ao aparecimento de uma doença na cultura da soja, denominada cancro da haste e que “forçou” a diversificação de culturas. Na época não havia cultivares de soja resistente a referida doença.

A implementação de uma política pública de incentivo ao cultivo do algodoeiro proporcionou ambiente favorável à expansão do seu cultivo no Estado. A expansão do cultivo do feijão-caupi, também no estado do Mato Grosso, deu-se em função da necessidade de diversificar. A expansão do cultivo da cana-de-açúcar e do eucalipto em Mato Grosso do Sul foi lastreada na existência de terras disponíveis e políticas públicas.

Criar ambiente favorável à diversificação é algo essencial, e uma das estratégias é a geração de conhecimentos que possa dar sustentação a alguma mudança. Oportuno destacar o quanto a política pública é importante para que ocorram mudanças de realidade.

Tão importante quanto a diversificação é a integração entre atividades. A Embrapa Agropecuária Oeste, juntamente com a Embrapa Algodão, a Embrapa Arroz e Feijão e a Embrapa Milho e Sorgo, em parceria com um grupo empresarial de Chapadão do Sul ( MS) desenvolve trabalho onde o objetivo principal é a integração entre a pecuária de corte e o cultivo do algodoeiro. No modelo que está sendo testado, em meio real, o algodoeiro é cultivado em área anteriormente ocupada com pastagens, em sistema plantio direto. A pastagem é estabelecida após a colheita da soja, em consórcio com o milho ou solteira, sendo utilizada para pastejo de bovinos ao longo de dezoito meses. Na sequência é cultivado o algodoeiro.

Tem-se então, numa mesma unidade de produção, o cultivo de soja, milho, algodão e a recria e engorda de bovinos. Produtos da pré-limpeza da soja e do milho, caroço de algodão, e outros subprodutos da agricultura tem participação significativa na composição da ração dos animais, quando esses forem para o processo de terminação em sistema de confinamento. Assim, tem-se a diversificação de atividades, a redução de riscos, a intensificação e, por conseguinte, a sustentabilidade da unidade de produção.

O ideal é a diversificação. No entanto, são necessários conhecimentos sobre as atividades, o que de certa forma proporciona alguma especialização. É fundamental ainda, a integração entre atividades tanto animal quanto vegetal.  A durabilidade da atividade é aumentada significativamente quando se diversifica e integra, tornando-a sustentável.

Por oportuno, cabe destacar como fundamental num processo de intensificação, diversificação e sistemas integrados, a necessidade de capacitação técnica e de gestão, assim como questões ligadas ao processo de logística das atividades. Em síntese, faz-se necessário um olhar sobre o todo.           

(*) É pesquisador da Embrapa Agropecuária Oeste – [email protected]

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