Ana Maria Bernardelli e Abrão Razuk (*) –
O Chão que Nos Reconhece: Confissão Íntima à Terra Paulista
Há uma ligação silenciosa — quase mineral — entre nós e a terra em que nascemos. Não se trata apenas de geografia ou de certidões: é um pacto anterior à palavra, firmado quando o corpo ainda aprendia a reconhecer o mundo pelo tato, pelo cheiro da chuva, pela cor do céu em determinadas horas do dia. A primeira terra não nos pertence; somos nós que passamos a pertencer a ela.
Podemos atravessar cidades, países, hemisférios. Podemos aprender outros idiomas, adotar outros hábitos, dormir sob tetos estrangeiros. Ainda assim, a terra primeva nunca se despede. Ela se desloca conosco de maneira inusitada: esconde-se na forma como pisamos o chão, na cadência da fala, no modo como o silêncio nos conforta ou nos inquieta. Às vezes, ela se revela num gesto mínimo — a saudade inexplicável de um vento específico, a memória involuntária de uma poeira que já não existe.
Há, porém, um saber ainda mais antigo, quase instintivo: os que nasceram da mesma terra se reconhecem. Não por discursos, nem por símbolos exibidos, mas por uma espécie de sintonia invisível. Os da terra primeira conhecem seus pares. Sabem quem é da “tribo” — e sabem, com igual clareza, quem não é, por mais que tente se apropriar de sotaques, narrativas ou raízes que não lhe pertencem. A terra não se deixa usurpar: ela marca seus filhos por dentro, em códigos que não se aprendem, apenas se herdam.
Diz-se que mudamos de lugar; raramente se diz que o lugar também muda dentro de nós. A terra natal se dobra, se miniaturiza, transforma-se em território portátil. Cabe inteira numa lembrança súbita, num sabor que nenhuma receita estrangeira consegue reproduzir, num mapa íntimo que só o corpo sabe ler. Há quem acredite que as raízes nos prendem; talvez seja o contrário: elas nos orientam, como bússolas subterrâneas.
Ideia estranha, mas possível: a terra onde nascemos continua a nos sonhar mesmo quando estamos longe. Enquanto seguimos vivendo em outras paisagens, ela nos guarda como quem conserva um eco. Por isso, ao retornar — se retornamos —, não pisamos apenas o solo antigo; somos reconhecidos por ele. O chão nos lê antes que o reconheçamos.
A essência da primeira terra nunca se aparta de nós porque ela não é passado: é camada. Está sob todas as outras experiências, sustentando-as. Podemos ser do mundo, múltiplos, viajantes, híbridos. Ainda assim, em algum ponto íntimo e indizível, continuamos sendo daquele primeiro chão.
E se esse chão é paulista, então há algo de concreto e de vertigem em nossa formação. Terra de trabalho e invenção, de rios domesticados e serras altivas, de café, aço, arte e contradição. São Paulo não é apenas lugar de origem: é força que nos atravessa, impulso que nos empurra para diante sem nos arrancar de nós mesmos. Louvada seja a terra paulista — múltipla, inquieta, fecunda — que nos ensinou a andar rápido, a pensar largo e, sobretudo, a reconhecer, no meio da multidão do mundo, quem carrega no peito o mesmo pó inaugural.
Aproveito esse substancioso enfoque da talentosa escritora Ana Maria Bernardelli por motivo de gratidão. Devo muito à minha formação jurídica à pujante e hospitaleira Sorocaba (SP) e à cultura geral ao Cursinho Castelões e ao Colégio Oswaldo Cruz, da grande cidade paulistana do ensino excepcional.
Beijo o ar que ali aspirei e sou-lhe grato.
Todavia, não posso olvidar essa abençoada Cidade Morena que me serviu de berço e que recebera meus pais árabes imigrantes, e criaram seus filhos com muito amor e hospitalidade brasileira.
CGMS a celebre, ilha cercada de árabes e japoneses; daí essa bela morena progressista e altaneira.
Como tenho pensamento ambicioso e arrojado da influência árabe, eu diria que, além da locomotiva paulista, o meu amor sobretudo é pelo Brasil.
Parabéns, querida Ana, pelo seu luminoso enfoque, e pego o saudoso trem da Noroeste e, na viagem do tempo, para dizer-lhe, ainda que seu talento pertence à ASL e ao Brasil.
Em tempo:
Minha confreira Ana Maria é a maior escritora de MS por mérito. Sonho em vê-la reconhecida e admitida, por imperativo de justiça, na Academia Brasileira de Letras, e seria a primeira de MS a ingressar e ter assento nessa tradicional ABL.
Caro Abrão, recebo suas palavras com sincera gratidão e respeito. Sei que nascem da generosidade e da amizade, e por isso as acolho com carinho. Permita-me, contudo, dizer com delicadeza que minha escrita não se orienta por expectativas institucionais nem por projeções futuras. Escrevo por paixão, por necessidade íntima, e é nesse lugar — silencioso e essencial — que escolho permanecer.
Seu apreço muito me honra, mas a obra segue seu próprio caminho, alheia a cargos ou assentos. Que fiquem, entre nós, o afeto, a admiração mútua e o respeito intelectual, que valem mais do que qualquer horizonte formal.

