João Roberto Giacomini — Advogado e Escritor
Há pessoas que guardam fotografias, cartas antigas, receitas de família e comprovantes de contas pagas quando ainda se escrevia cheque. Outras preferem colecionar ressentimentos. E não pensem que se trata de uma coleção desorganizada. Absolutamente. Há quem mantenha um arquivo impecável, com datas, circunstâncias e personagens, numa demonstração de memória que faria inveja ao mais competente tabelião. O curioso é que, nesse inventário, os benefícios recebidos costumam desaparecer misteriosamente, enquanto os supostos erros alheios adquirem a solenidade dos documentos históricos.
Foi numa de minhas viagens imaginárias a Nárnia que descobri uma espécie particularmente interessante de criatura: aquela que não modifica necessariamente os acontecimentos, mas altera a interpretação deles até que o passado se torne suficientemente confortável para acomodar sua consciência. Platão talvez reconhecesse naquele reino uma versão aperfeiçoada de sua célebre caverna. A diferença é que, em Nárnia, ninguém precisava permanecer acorrentado diante das sombras. Alguns habitantes preferiam fabricá-las, escolhendo cuidadosamente quais projetar na parede. A realidade, afinal, tem o inconveniente de não consultar nossos interesses antes de acontecer.
Conheci ali um cidadão dotado de uma capacidade quase metafísica: conseguia esquecer a própria participação em acontecimentos dos quais restavam vestígios perfeitamente materiais. Não se tratava, necessariamente, de uma deficiência da memória. Talvez fosse uma forma particular de ontologia, na qual as coisas deixavam de existir quando sua existência se tornava inconveniente. Os documentos, entretanto, demonstravam uma lamentável resistência à filosofia. Continuavam trazendo registros de um passado que seu protagonista aparentemente havia decidido aposentar.
John Locke, que relacionou a identidade pessoal à continuidade da consciência e da memória, talvez encontrasse naquele cidadão um problema digno de investigação. Se a memória participa da construção da identidade, o que acontece quando alguém resolve selecionar apenas as lembranças que favorecem sua versão dos fatos? Machado de Assis provavelmente dispensaria a investigação. Ofereceria uma cadeira ao personagem e lhe pediria que contasse tudo novamente, de preferência começando pela parte que pretendia esquecer.
Mas a verdadeira descoberta de Nárnia estava nas relações humanas.
Aristóteles, na Ética a Nicômaco, distinguiu amizades fundadas na utilidade, no prazer e na virtude. Nas primeiras, o outro é estimado pelo benefício que proporciona; nas últimas, por aquilo que é. Dois milênios depois, os habitantes de Nárnia pareciam empenhados em demonstrar que o filósofo conhecia profundamente a espécie humana.
Havia naquele reino uma curiosa modalidade de relação cuja verdadeira natureza somente se revelava quando cessava a conveniência. Enquanto alguém correspondia às expectativas alheias, recebia demonstrações de estima que facilmente se confundiam com amizade. Mas, quando deixava de representar alguma utilidade, não era necessariamente o afeto que desaparecia. Talvez desaparecesse apenas a necessidade de representá-lo. Algumas relações sobreviviam enquanto aquilo que se recebia justificava aquilo que se aparentava sentir. O drama, portanto, não estava propriamente no rompimento, mas na possibilidade de duas pessoas terem vivido a mesma relação sem jamais terem participado da mesma amizade.
O interesse, descobri, possui uma extraordinária capacidade de imitar o afeto.
E nem sempre estamos falando de dinheiro. Há quem sacrifique relações inteiras para preservar a própria imagem. Há quem prefira perder uma amizade a reconhecer uma contradição. Outros demonstram uma disposição quase heroica para defender a própria infalibilidade, ainda que precisem sacrificar a coerência no altar das aparências. Em Nárnia, descobri que ter razão era uma atividade muito mais importante do que estar certo.
Nietzsche examinou o ressentimento como uma força capaz de reorganizar os juízos morais. Naquele reino, encontrei personagens que pareciam transformar antigas contrariedades em certificados de superioridade. Não bastava discordar de alguém. Era necessário reconstruir retrospectivamente sua biografia, atribuindo a cada gesto passado um significado que somente o presente havia descoberto. Um esquecimento tornava-se desrespeito, uma divergência convertia-se em ofensa e uma antiga gentileza podia ser reinterpretada como obrigação jamais cumprida satisfatoriamente.
O mais admirável era a pontualidade da indignação: chegava sempre depois que a conveniência partia.
Schopenhauer, que não costumava distribuir elogios gratuitos à natureza humana, talvez reconhecesse nessa conduta uma manifestação da vontade empenhada em defender os próprios interesses. Kant, por sua vez, lembraria que tratar o outro exclusivamente como instrumento de nossos objetivos contraria a exigência moral de reconhecer a humanidade como um fim em si mesma. Em Nárnia, porém, a ética parecia funcionar em regime de expediente facultativo.
Havia também criaturas que reuniam, numa única consciência, as funções de acusador, testemunha, magistrado e beneficiário da sentença. Não admitiam recursos, não recebiam embargos e interpretavam qualquer defesa como confirmação adicional da culpa. O processo era rápido, econômico e extremamente eficiente, sobretudo porque a decisão precedia a investigação. Nem Kafka teria imaginado um tribunal tão produtivo.
Foi então que compreendi que o problema talvez não estivesse apenas na memória, mas na necessidade humana de preservar uma narrativa favorável sobre si mesma. Admitir um erro exige mais do que inteligência. Exige suportar a desagradável possibilidade de não sermos exatamente aquilo que imaginamos.
E há consciências que preferem reformar o universo a revisar uma única convicção.
Seria injusto, entretanto, concluir que toda amizade desfeita tenha sido falsa. As pessoas mudam, decepcionam-se e interpretam acontecimentos de maneiras diferentes. O que me inquieta é outra possibilidade: a de que uma relação aparentemente recíproca tenha sido, desde o princípio, compreendida de formas radicalmente distintas. Um acreditava oferecer amizade; o outro talvez reconhecesse apenas utilidade. Um atribuía valor à pessoa; o outro, possivelmente, à função que ela desempenhava.
A filosofia oferece conceitos para compreender essas diferenças, mas não elimina o desconforto da descoberta. Talvez a maior decepção não seja perceber que alguém deixou de nos estimar, mas suspeitar que confundimos a utilidade que tínhamos para essa pessoa com o afeto que imaginávamos despertar nela.
Ao deixar Nárnia, procurei o velho guarda-roupa que conduzia de volta ao mundo real. Antes de atravessá-lo, perguntei a um leão bastante respeitado naquele reino se existia alguma maneira infalível de distinguir uma amizade verdadeira de uma relação de interesse.
O leão pensou longamente. Depois respondeu que não sabia.
Achei a resposta surpreendentemente honesta para um animal que falava.
Voltei para casa com uma dúvida que Aristóteles talvez pudesse esclarecer melhor do que eu: será que perdi algumas amizades ao longo da vida ou simplesmente deixei de exercer funções para as quais nunca soube que havia sido contratado?
Durante muito tempo, fui amigo de nós dois.
Só não sei se o outro chegou a perceber.




