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Em livro, pesquisador douradense analisa a Venezuela, critica o atual regime e a esquerda brasileira

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Juliel Batista –

Em entrevista ao jornal Folha de Dourados, o professor e pesquisador Anatólio Medeiros Arce (1) comenta sobre a Venezuela, temática que vem estudando há 15 anos, e que resultou no livro intitulado “História concisa da Venezuela”, publicado recentemente.

À Folha, ele discorreu sobre suas análises do país e a dinâmica política e social vivenciada por aquele povo. Ainda na entrevista, o pesquisador faz críticas ao regime chavista e elenca o quanto que a história daquele país “é muito mais do que Hugo Chávez ou Nicolás Maduro”.

Além disso, o autor pontua um divisor de águas na política e no regime chavista, principalmente pós-2014, com a presença marcante das forças armadas nas eleições nacionais, isso com o fato de que o Poder Judiciário trabalha para o regime de Nicolás Maduro.

Nesse sentido, o pesquisador manifesta preocupação quanto ao apoio de partidos de esquerda ao regime: “É um erro os partidos de esquerda brasileiros se apoiarem na velha ‘solidariedade proletária’ para respaldar o regime de Maduro.”

Confira a entrevista:

Folha de Dourados – O livro do senhor é sobre a Venezuela. Discorra, por favor, abordagem feita na sua obra?

Anatólio Arce – Foi uma abordagem crítica. O livro “História concisa da Venezuela” faz um compilado geral da história deste país, do descobrimento ao século XXI. Terminei a análise em 2019 porque ainda não houve tempo e nem distanciamento histórico suficiente para se analisar com mais profundidade o impacto da pandemia de Covid-19 neste país. Trata-se do único livro sobre história da Venezuela, com uma abordagem tão completa e abrangente, escrito em língua portuguesa. Por meio dele, é possível perceber que este país é muito mais do que Hugo Chávez ou Nicolás Maduro.

Este ano é de eleições no país vizinho e alguns organismos internacionais veem com preocupação, a impossibilidade de candidatos de oposição poderem se candidatar. Qual é a sua opinião sobre essa temática?

A Venezuela é um país de eleições pouco confiáveis, sobretudo a partir de 2014, quando houve um recrudescimento do regime em direção a um viés cada vez mais autoritário. As eleições na Venezuela são controladas pelo regime, por meio das Forças Armadas. Em 2018, não houve a permissão para observadores internacionais ‘independentes’ analisarem o processo, que ocorreu em meio a uma grave crise econômica e humanitária, que persiste até hoje. Outra estratégia é inabilitar juridicamente candidatos da oposição competitivos, como ocorreu com a pré-candidata Maria Corina Machado, impedida de concorrer por decisão judicial. Portanto, não há como considerar uma eleição como ‘democrática’ se os candidatos da oposição são impedidos de participar, ou participam sob condições muito desiguais.

“A Venezuela é um país de eleições pouco confiáveis, sobretudo a partir de 2014, quando houve um recrudescimento do regime”

Umas das grandes críticas aos partidos de esquerda no Brasil, é sobre a Venezuela, que atualmente vive uma grave crise financeira, além de ser considerado por oposicionistas como sendo um país ditatorial. Concorda com esse pensamento difundido? Qual é a sua análise sobre?

Não se pode analisar apenas sob o ponto de vista direita versus esquerda. A velha díade direita-esquerda não serve para analisar o cenário político venezuelano e, diria mais, é bem limitada para explicar a conjuntura política na América Latina. O que há hoje é um regime autoritário, mas que se legitima por meio de eleições. No meu ponto de vista, é um erro os partidos de esquerda brasileiros se apoiarem na velha ‘solidariedade proletária’ para respaldar o regime de Maduro. Até porque estas agremiações brasileiras vivem em uma realidade democrática e se inserem no espaço político por meio de eleições competitivas. Porém, este não é o caso de Maduro e de seu grupo. Por outro lado, pensar que o chavismo se legitimou sempre pelo viés autoritário, também é um equívoco. Chávez foi eleito em 1999 sob ampla aprovação popular. Até março de 2013, quando morreu acometido por um câncer na região pélvica, se submeteu a eleições em diversas ocasiões, assim como várias medidas de seu governo foram aprovadas via referendo popular, a exemplo da reeleição sem limite de vezes aos ocupantes de cargos no poder executivo em todos nos níveis, aprovado em fevereiro de 2009.

“é um erro os partidos de esquerda brasileiros se apoiarem na velha ‘solidariedade proletária'”

Como dito, o país vizinho vive uma grave crise financeira. É uma questão histórica no país ou fruto dessa contemporaneidade?

É uma questão histórica, mas agravada por equívocos na política econômica de Hugo Chávez que se apoiou de forma excessiva nas rendas do petróleo. Desde 1920, a Venezuela não produz praticamente nada e não utilizou os royalties para criar um parque industrial, investir em tecnologia ou turismo. Sendo assim, em diversos momentos históricos a Venezuela esteve em uma posição vulnerável perante as companhias petrolíferas estrangeiras, sobretudo às norte-americanas. Com a piora nas relações diplomáticas entre ambos os países, iniciada após Hugo Chávez assumir o poder, a economia venezuelana ficou ainda mais vulnerável. Porém, quando Chávez ainda estava vivo, o preço do barril de petróleo encontrava-se a preços interessantes, ajudado pela invasão do Iraque em 2003. Entretanto, a bonança acabou e a partir de 2015 o preço do barril despencou. Esse fato colocou as finanças do país no caos total e isso se refletiu em um surto de empobrecimento da população e emigração forçada para os países vizinhos (o Brasil recebeu um grande contingente de refugiados venezuelanos), com impactos muito mais graves na Colômbia e no Equador.

Se o senhor puder traçar paralelos históricos entre a política e sociedade da Venezuela e o Brasil…

Brasil e Venezuela possuem um passado colonial ibérico, economia dependente, sociedades miscigenadas, e uma parte do território coberto pela floresta amazônica e suas riquezas. Mas, as semelhanças acabam aí. Suas elites políticas são diferentes e, sobretudo, o perfil de suas Forças Armadas sempre foi diferente. No Brasil, temos um oficialato recrutado principalmente na dita ‘classe-média militar’. Na Venezuela, por sua vez, os extratos mais pobres são os que adentram na carreira militar como uma via rápida de ascensão social, pois a classe média prefere os empregos no setor do petróleo. Nosso presidencialismo também é diferente, com um peso maior do poder legislativo. Na Venezuela não. Em 2016, nós vimos Maduro governar o país com a Assembleia Nacional totalmente rebelada, mas estava respaldado pelas Forças Armadas. Neste mesmo período, Dilma Rousseff foi destituída pelo Congresso brasileiro por uma ‘questão política’ muito pequena. Ou seja, nossas instituições são diferentes das deles, o que nos proporciona uma situação política um pouco mais estável. Na Venezuela, praticamente 80% dos homens que ocuparam a cadeira de presidente da República eram militares, algo que diz muito sobre a governança naquele país. Atualmente, embora Maduro não seja um militar, o regime é militarizado. Há oficiais da ativa e da reserva em cargos estratégicos, inclusive eletivos como governadores e prefeitos. O número 2 do regime, Diosdado Cabello, é um engenheiro militar e os militares controlam a circulação de dólares.

” No Brasil, temos um oficialato recrutado principalmente na dita ‘classe-média militar’”

Espaço livre ao professor e pesquisador.

Gostaria de agradecer o jornal Folha de Dourados pelo espaço concedido para eu divulgar meu livro e agradecer. Venho estudando este tema há mais de 15 anos. A Venezuela é um país incrível, com uma história interessante e os venezuelanos que estão vindo ao Brasil podem contribuir muito para o nosso país. Peço aos brasileiros que acolham e não os discriminem. Somos um país de imigrantes e devemos acolher todos os povos que queiram adotar a nossa pátria para prosperar, criar os filhos, respeitar as nossas leis e viver decentemente.

(1) Anatólio Medeiros Arce é bacharel em Ciências Sociais pela UFGD, licenciado em sociologia pela Unopar e em história pela Universidade Cruzeiro do Sul. Mestre e doutor em história pela UFGD. Professor efetivo de sociologia na Rede Estadual de Ensino de Mato Grosso do Sul

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