Jornalista Roberto Amaral

Por Roberto Amaral, na Carta Capital

‘Estamos pagando o preço de nossas organizações não haverem compreendido o desafio histórico que começou a delinear-se já nos idos de 2013’

A análise às pesquisas de intenção de votos sugere que nas eleições de domingo próximo um elevado número de prefeituras e câmaras municipais tende a ser ocupado por prefeitos e vereadores conservadores, quando não simplesmente reacionários.

Tal possibilidade é preocupante quando sabemos que essas eleições são, de todas, as mais capilares, pois mobilizam todos os 5.570 municípios brasileiros, da São Paulo de vários milhões de habitantes a Serra da Saudade-MG, com uma população de 776 pessoas, deixando de fora apenas o Distrito Federal.

Não se diga, porém, que o atraso em previsão seja uma consequência de causa e efeito do “auxílio emergencial”, mediante o qual o governo pandêmico teria anestesiado a consciência cívica de nossa população, majoritariamente pobre e desassistida, o que é outra forma, elitista e reacionária, de dizer que o “povão”, a grande massa carente, é coletivamente corrompível. Assim falou, por exemplo o “príncipe dos sociólogos brasileiros”, ao justificar, anos passados, o avanço do eleitorado lulista no nordeste. Faremos bem em não repeti-lo.

De igual sorte, não comungo da visão segundo a qual a “população ainda não conseguira avaliar corretamente [isto é, como nós avaliamos] o significado do bolsonarismo”.

Se a hipótese é identificar a relação causal do desapontamento eleitoral temido, identifico-a, em nossas chamadas “elites”, neste caso precisamente as “elites” partidárias do campo largo das oposições, incompetentes que se mostraram para compreender o significado do processo político, de raízes mais profundas do que aquelas sugeridas pelas aparências, e daí tirar consequências, a saber, linhas de procedimento, que outras não poderiam ser senão o esforço por um mínimo de avaliação que inevitavelmente levaria ao debate e ao compartilhamento de análises, teses e propostas, confluindo para a unidade no combate ao governo e na ação político-eleitoral.

Ao contrário, o que as oposições – em seu mais largo espectro – construíram até aqui foi a dispersão, mormente no campo compreendido como “progressista”, no qual se incluem os partidos e as organizações de centro-esquerda e de esquerda.

Seguidamente, e por razões consabidamente simplórias, rejeitámos as frentes de um modo geral, a frente ampla ou democrática e a frente de esquerda, para finalmente refugarmos mesmo as alianças puramente eleitorais, ainda no nosso campo. Daí a disputa autofágica em inumeráveis cidades e capitais estratégicas como São Paulo e Rio de Janeiro, nas quais, se o juízo não baixar até domingo, poderemos ficar fora do segundo turno, renunciando não só à disputa eleitoral, mas, principalmente, ao debate político.

Já estamos pagando o preço de nossas organizações não haverem compreendido o desafio histórico que começou a delinear-se já nos idos de 2013, e que se anunciou claramente nas eleições de 2018, representativo do avanço popular da extrema-direita (cujo potencial também não tivemos olhos para ver) e de sua conquista de postos estratégicos no comando do Estado, a começar pela presidência da república e o controle do congresso, ademais de vários governos estaduais e prefeituras de capitais e grandes cidades. Mas, principalmente, pela sua penetração junto a grupos que foram sempre o alvo das atenções da esquerda, os trabalhadores, os pobres de um modo geral, as populações das periferias de todas as cidades. O que não se deve, tão só ao avanço do neopentecostalismo de feição fundamentalista. Dessa dificuldade de enxergar e compreender o real, deriva a dificuldade de formular políticas consentâneas, mãe de todas os impasses de hoje. Na sua base reside a dificuldade de distinguir tática e estratégia, meio e fim, melhor caminho e objetivo final, de que resultou, em prejuízo daquilo que Gramsci grafava como “a grande política”, a prioridade de um eleitoralismo canhestro (deformação da correta opção pela via eleitoral), ademais de capenga, pois, afinal, passamos a perder eleições… Mas já havíamos perdido a disputa ideológica, coletivamente, desde 2002, quando a expectativa de conquista do governo nos levou a adotar recuos táticos que nos levaram a comprometer, até aqui sem remédio, o projeto estratégico.


O processo eleitoral deve ser visto, em nossas circunstâncias, como espaço excepcional para o proselitismo político. É o único momento em que os partidos de nosso campo e suas lideranças – afastados da mídia pelo monopólio ideológico da direita – podem falar diretamente à população. É, pois, canal de excelência para o discurso ideológico; no que diz respeito aos partidos de esquerda, a oportunidade para a educação política das massas e com as massas, em via de mão dupla, pedagogia de há muito abandonada.

Esse espaço é ainda mais privilegiado no segundo turno, quando o tempo de propaganda dos candidatos na televisão é igualitário, os grandes meios não podem evitar o debate ou fazê-lo apenas no interesse dos seus preferidos.

O que as direções não realizaram, está nas mãos do eleitorado de um modo geral, e de nossas militâncias de um modo todo especial assegurar: garantir, com seu voto, a presença do maior número de candidatos de nosso campo no segundo turno.

A consciência da necessidade do avanço social não nos permite deixar vazia uma só oportunidade de atuação.

Dirijo-me não apenas aos militantes dos partidos e organizações de esquerda e centro-esquerda, mas igualmente ao eleitorado mais amplo que ocupa o campo progressista e que igualmente tem compromissos com o processo democrático. Em comum temos a luta contra a extrema-direita e o bolsonarismo, sua representação abjeta. A todos peço que, independentemente de orientações partidárias ou preferências pessoais, todas respeitáveis, optem por aquela candidatura que no momento do voto de domingo ofereça melhores condições de estar presente no segundo turno. O melhor indicador dessa opção é, em São Paulo, a candidatura Boulos-Erundina, anunciadora não apenas de uma nova e promissora liderança popular de nosso campo – que delas começa a carecer – mas que nos faz voltar a acreditar na possibilidade de conciliação do projeto eleitoral (não o devemos abandonar) à coerência política e ideológica. Esta simbiose é a célula-mater de uma nova forma de luta que fala à emergência das massas.

Não permitamos que ela mingue quando começa a florescer.

Essa salutar desobediência pode nos levar ao segundo turno, além de São Paulo, em cidades cruciais como Rio de Janeiro e Recife, onde despontam as candidaturas de Martha Rocha (que pode afastar o bolsonarismo do segundo turno) e Marília Arraes, o que têm o condão de minimizar as tragédias anunciadas em Belo Horizonte e Salvador, e o desempenho desapontador nas demais capitais.

Esta opção pelo que se chama de “voto útil” não implica julgamento dos demais candidatos, respeita as apreciações que lhes são devidas pelas direções partidárias e pelo seu eleitorado de hoje. Trata-se de uma alternativa política imposta por óbvia circunstância eleitoral.

Estas eleições se travam em momento muito grave do país. O pleito de domingo e seu desdobramento no segundo turno apresentam-se como da maior importância para o processo político, pois, em função do desempenho coletivo das forças de esquerda e centro-esquerda, poderemos estar formando, finalmente, na sociedade, a grande base política para, a partir dela, mover o enfrentamento decisivo com o bolsonarismo e suas representações.

O conjunto da obra do presidente indesejável e da súcia de seus acólitos, civis e fardados, mostra, à evidência, que, ao contrário do que supunha Lula, a alternativa brasileira para livrar-se desse pesadelo não pode esperar pelas eleições de 2022. Posto que se coloca o questionamento inevitável: E até lá? Que fazer? Assistir à banda passar? Consentir com a desconstrução nacional? Que será feito, até lá, de nossa dignidade, de nossa honra, da soberania nacional e da economia em frangalhos (o irresponsável e incompetente chefe da pasta já anuncia uma hiperinflação)? A quais assaltos ainda terá de sofrer a democracia até gritarmos “basta!”?

A decomposição moral desse governo, que já nasceu sem honra, pode arrastar consigo a vida nacional, o dilaceramento social e o antagonismo que incita, repetindo a tática de seu modelo norte-americano, recentemente rejeitado pelo eleitorado.

Daí a necessidade de um bom desempenho – principalmente político – das forças populares nos pleitos de 15 e 29 de novembro próximos – preparatórios que assim serão da grande mobilização popular-nacional pelo impeachment do capitão paranóico, incurso em todos os crimes políticos (ademais de crimes penais, ambientais e civis) capitulados pela Constituição e pela lei 1.079/1950 (como, por exemplo, em seu “art. 5° – São crimes de responsabilidade contra a existência política da União: […] 3 – cometer ato de hostilidade contra nação estrangeira, expondo a República ao perigo da guerra, ou comprometendo-lhe a neutralidade”). E desta feita o presidente da Câmara dos Deputados não haverá de engavetá-los, como dezenas de outros, porque terá atrás de si o clamor nacional.

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As eleições nas capitais – Há uma réstia de esperança nas capitais, com as boas perspectivas de Porto Alegre, Vitória e Belém, nas quais, com os dados de hoje, Manuela D´Ávila (PCdoB), João Coser (PT) e Edmilson Rodrigues (PSOL) já têm o passaporte carimbado para o segundo turno. Há esperanças em Fortaleza, pois Sartro Nogueira (PDT) e Luzianne Lins (PT) reúnem condições de ir para o segundo turno, desalojando o bolsonarismo. Mas é só.

Indignidade – A censura judicial a pesquisa do DataFolha sobre a eleição paulistana, como toda e qualquer censura, é uma aberração, uma indignidade, além de absurdamente inconstitucional.

Adeus a Paulo Bonavides – Paulo Bonavides nos deixa a mais extensa bibliografia jurídico-política brasileira contemporânea, tão vasta e diversificada quanto profunda e inovadora. E nestas condições haverá de sobreviver ao desgaste do tempo, pela permanência de seus textos doutrinários e pelas lições que seus discípulos se encarregarão de oferecer às gerações futuras. Mas, tão relevante quanto a obra do jurisconsulto– são os quase 70 anos de magistério, formando levas de bacharéis e advogados, discípulos e continuadores.

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