Elairton Gehlen – escritor –          

A expectativa de vida do brasileiro é de 76,8 anos segundo último levantamento do IBGE, que não inclui o período da pandemia do novo coronavírus. Esta média, claro, inclui os que morrem muito jovens ainda e que praticamente não puderam viver a vida por suas próprias decisões e, também os muito velhos que já não decidem como viver, são os outros que literalmente tomam as decisões por eles. 

Uma Pessoa adulta quando entra para o mercado de trabalho recebe uma informação bem básica de que seu dia será dividido em três partes: 8 horas para o trabalho, 8 horas para o lazer e 8 horas para dormir; as horas trabalhadas serão remuneradas e o dinheiro será destinado para as despesas pessoais das outras dezesseis e se sobrar pode ser poupado ou investido. 

A regra é clara, o patrão compra um terço da vida do trabalhador e, de propriedade deste, transforma o tempo adquirido em força de trabalho e este em produção, vende o produto e apropria-se privativamente do lucro. Com dinheiro na mão, o capitalista faz algo extraordinariamente grande! Além de possuir e administrar sua própria vida, adquire e administra, como sua, um terço da vida de todos os seus empregados. Com essa observação, que é verdadeira!, o trabalhador, enquanto tal, vive apenas um terço dos anos de vida, dado que dorme outro terço e vende ao patrão o restante.  

Antes, este mesmo trabalhador certamente dedicou anos de vida preparando-se para o emprego. Esse tempo também pertence ao patrão, pois todo o aprendizado lhe é entregue em troca de um salário, mas o patrão nada lhe pagou por isso, recebe gratuitamente e ainda exige a qualificação profissional para admiti-lo no emprego! Cada vez mais se exige que crianças muito jovens sejam entregues a instituições educativas, roubando-lhes que há de mais precioso: sua infância. 

Não satisfeito em se apropriar da infância e da juventude sem remunerar absolutamente nada, e ainda adquirir monetariamente um terço da vida “útil” dos trabalhadores, os patrões exigem dos governos que retirem o direito à aposentadoria, elevando a idade e diminuindo a remuneração, até o limite em que o trabalhador já não tenha mais disposição física para viver com alguma qualidade. 

Então, quanto é mesmo o tempo em que se “vive” antes de morrer?