Elairton Gehlen – escritor –

Fiquei alguns dias sem o meu computador e, portanto, sem ter como escrever, desse jeito moderno, nas páginas do word, e isso justamente quando deu aquela nostalgia dos tempos em que as cartas eram escritas em folhas de blocos de cartas, isso mesmo, blocos específicos para se escrever cartas, manuais, lógico, com caneta bic e muitas emoções derramadas nas mal traçadas linhas que viajavam num envelope pelos correios, por vários dias até, finalmente, chegar ao destinatário que, depois de ler, respirar um belo sorriso e enxugar uma ou outra lágrima, logo se dispunha a escrever: “Aqui também estamos todos bem…”, para em seguida falar de tudo que estava mal. 

Bem, eu não acho que escrever possa aliviar a ansiedade das pessoas pelo constante do aumento dos preços dos combustíveis. Enquanto meu computador estava na oficina, eu fiquei ouvindo um cidadão que não tem computador e depois de ele saber que eu escrevia, logo quis saber se tudo que publiquei poderia ser útil para acender um fogão à lenha e eu disse que sim, quer dizer, foram três livros e se alguém fizer esse bom proveito então está bem, serviu para alguma coisa. Isso às vezes me deixa de coração partido, mas não importa, afinal se o fogão fizer, enfim, uma boa comida, então meu livro terá uma boa utilidade. Nada melhor que uma boa comida, é para isso que trabalhamos!! 

Quando escrevemos nos envolvemos com deuses estranhos que nos fazem sonhar com um mundo melhor e começamos a pensar que escrevendo seremos capazes de fazer esse mundo utópico se tornar uma realidade maravilhosa e, se as pessoas fossem uma poesia então os romances sempre seriam a vida das pessoas e, ainda que você estivesse em uma cadeira de rodas eu seria capaz de te amar mais do que se a Julia Roberts me mandasse uma carta pelo correio. Poetas são assim, ficam pensando que o milagre do amor pode ser maior do que a publicidade das revistas. Entre o Chacal e Walt Whitman, adivinha quem eu colocaria na página do jornal… 

As escritas não precisam de uma lógica muito lógica, a não ser aquelas chatices daquelas teses de pós-graduação que os graduandos se descabelam para organizar, cuidam da ortografia como se cuidasses de bebês recém nascidos e aplicam as regras das normas da ABNT como se fossem receitas médicas, tudo isso para enfim deixar arquivado no fundo da biblioteca universitária e, quem sabe algum futuro graduando algum dia se digne a pegar para ver como se faz uma tese de graduação. Escritas, estas a que me refiro, são livres, cheias de licenças poéticas, muitíssimo mais úteis que teses de pós-graduação, que servem para melhorar o humor de quem lê e produzir prazer a quem escreve. É isso que se escreve quando não se tem nada para escrever!!