Elairton Gehlen – escritor –

O carro de som passa na rua em frente de casa drapejando música natalina a flamular no vento quente e traz o inverno que se pendura nas árvores enfeitadas de gélidos cristais de algodão. Luzes piscam o colorido nos umbrais das portas sangrando a certeza da incerteza da salvação, nesta noite não haverá a morte do primogênito, todos estarão a adorar o deus da luxúria. Não há uma única informação de que o dia seja 25 de dezembro, mas sem ele, a que haveríamos de nos apegar para o milagre da multiplicação dos lucros?  

É quente esta tarde de verão dezembrino, o sol se põe, mas se esquece de retirar o calor que dorme a noite toda até que volte o sol no dia seguinte para acrescentar ainda mais quentura a esses dias de espera pela salvação das commodities numa chuva que, prometida pelos homens, não vem, nem mesmo triplicando os preços internacionais, se chovesse, a lavoura produziria e seria vendida para outros países, pelo menos teríamos dinheiro, enquanto isso, o Salvador descansa o sono dos justos. 

Jingle Bells flutuam na névoa poeirenta do tempo seco, brilhando notas pelo alto-falante musical que chama consumidores para aproveitar as ofertas imperdíveis do comércio. O amor é demonstrado em notas de dez, vinte, cinquenta, cem reais, mas se não tiver não se preocupe, aceitamos todos os cartões. Presentear é um gesto de amor, amor maior é presentear quem vai te presentear. Ainda que isso seja uma verdade mentirosa, é muito verdadeira a adoração que se faz ao verdadeiro Senhor do natal: Momo! 

O espírito natalino põe em liberdade delinquentes de bom comportamento que já estavam em liberdade mesmo antes do espírito natalino. Agora, o espírito lhes dá poder de persuasão e o dinheiro se aglomera em grandes cultos onde são ofertados aos ministros e dali carreados ao altar da hipocrisia para distribuição em partes diretamente proporcionais à capacidade de cada comerciante em ludibriar o consumidor com ofertas ilusórias de salvação hedonista. O leão é de ouro! 

Jingle Bells, Jingle Bells… ouro, incenso e mirra flutuam os Reis Magos no estábulo, a Glória foge apressada, o Egito cavalga a mula até o Rei, enquanto a morte domina o delinquente de bom comportamento assentado no trono. Jingle Bells, Jingle Bells, os comerciantes do Templo fora expulsos e as bancas derribadas! Jingle Bells, Jingle Bells, eu sei que Jesus talvez se alegre contigo, mas você, alegra-se com a vida de Jesus? 

Ele era um revolucionário!! 

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