Eduardo Martins, docente adjunto 4, curso de História, (UFMS-CPNA) –
“O rock não é comunista ele é muito machista, só por esse aspecto, ele já flerta com a direita” (Edgar Scandurra, guitarrista do Ira!).
Dito isto. Até ontem, exatamente, fui um ingênuo em acreditar que o Rock era música de esquerda. De repente, não tão de repente assim, eu já vinha tendo sinais há anos, mas que eu, por vaidade, missão de fé, por ideologia e tentativa de defender o indefensável eu não quis enxergar. Muitas bandas de Rock são machistas, muitas letras seguem essa linha, só por isso já se pode classificá-las de música de direita, música conservadora.
Não falo aqui sobre o posicionamento político individual de membros das bandas de rock que, devem até ser de esquerda. Muito embora, sei de bandas que “racharam”, por terem componentes bolsonazistas. Refiro-me, então, às possibilidades das músicas e letras serem apropriadas por protofascistas, por serem “neutras”. Daí a justificativa do título.
Estou analisando rapidamente o gênero musical e, seu público essencialmente cheio de testosterona, agressivo, bêbado, não faço nenhum juízo de valor moral, mas tão somente, político.
Nosso “pai do Rock”, Raul Seixas se declara anarquista e sua preocupação era a “sociedade alternativa” (alternativa ao capitalismo e ao socialismo), algo do tipo espiritual – Gitâ. O que leva a ser tocado e cantado por roqueiros de direita.
E, nossa “rainha do rock”, iluminada Rita Lee, muito menos teve qualquer compromisso com a política de esquerda, propriamente dita. Também, não precisou, fez coisas lindas e maravilhosas em prol do Rock brazuza. O que não a isentou de ser apropriada pela extrema direita, ou pelo menos por reaças.
E, mesmo o grande clássico, disco “Roots” do Sepultura, de 1996, obra prima da discografia brasileira, por mais que seja um grito social, não chega a ser de esquerda. Temos ainda, a música “Que país é esse” (1987) da Legião Urbana, em que tive a grata surpresa de ver um grupo de direita cantando em alto e bom som, não uma só, mas diversas vezes… (muito possivelmente imaginando a volta da ditadura militar, já que “o Congresso está uma bosta”, na visão deles).
Sobre o rock nacional da década de 1980, no Brasil, todos eles são unânimes em dizer que não havia uma consciência política à esquerda e, que viviam e curtiam a liberalidade do fim da ditadura militar e as possibilidades de dizer e fazer o que queriam, muito mais no plano individual de sexualidade.
A música “ideologia” do cazuza é tão romântica quanto ele, e chegou a ser citada pelo gal. Mourão, milico vice-presidente, representando a ala da ditadura militar. A música “Até quando esperar” (Plebe Rude) não tem nada de socialista segundo seu autor Philippe Seabra,
O panorama político, de 2016, (golpe contra a democracia) para cá, com a (re)tomada do poder político, legislativos, pela extrema direita de cunho militarista-nacionalista, tem revelado que, muitos roqueiros, em suas ostentosas motocicletas são de extrema direita; participando das motociatas protofascistas em defesa do golpe militar que destrua a democracia e coloque fim nos direitos sociais, políticos e humanos uma esmagadora maioria de yuppies, pequenos burgueses, em suas motos muito caras e gastando muita grana nesse evento (hotel, transporte, alimentação, excesso de bebida alcoólica, estouro dos pneus nas avenidas centrais – a cara da extrema direita cafona). Roqueiros de jaquetas, coturnos, cabeludos e tudo o mais e, pasmem, pedindo ditadura militar, enquanto ouve “Born to be wild”… Sem comentários.
Um querido amigo, músico de primeira qualidade, acabou de adjetivar para mim o rock “cafona, elitista, machista, decadente, emburguesado”, eu concordei. Disse ainda, “cheio de neonazi”, fui obrigado a, outra vez, aceitar. Haja vista, que os tais “barzinhos” de rock, são gourmetizados, tanto seu público pequeno burguês, quando os cardápios de comidas e bebidas muito caros.
Tem até bar reduto protofascista sob a bandeira do rock. Conheci um em Nova Andradina-MS (já fechou) e outro aqui em Dourados, inclusive os proprietários de extrema direita e com bandeira de Moto Clube neonazi. Algo que fez com que o roqueiro Tico Santa Cruz, (Detonautas) rompesse em 2021, com esse Moto Clube por divergências ideológicas políticas, segundo relato em seu perfil no instagram (12 de junho de 2021). Quando o Moto Clube oficialmente participou de uma motociata em favor do neofascismo e liderados pelo chefe da gang bolsonazi.
Ah, mas e Woodstock? Foi revolucionário, de esquerda. Negativo, nem uma coisa, muito menos a outra. A organização talvez tivesse pensado em alguma coisa politizada mais à esquerda, porém o público era essencialmente hippies, anarquistas, muita gente só queria se divertir e não estavam nem ai para a política. É o que revela os inúmeros documentários. Pediam o fim da Guerra do Vietnã, sim pediam, mas o fato de serem todos ali anti-guerra revela mais o seu caráter anarquista do que de socialistas, o espírito era do “paz e amor”. O lema “sexo, drogas e rock in roll” não foi de graça e definiu bem o desejo pouco revolucionário dessa turma roqueira da década de 1960.
Evidentemente que algumas bandas antediluvianas, como os Rolling Stones, tenha uma o outra música revolucionária como “Street fight man”, do icônico álbum e “revolucionário” “O Banquete dos Mendigos”, de agosto de 1968, depois regravada pelo Rage Against The Machine essa sim, banda socialista. E, a música “Revolution dos Beatles, do fervoroso ano de 1968, perguntar-me-ão. John Lennon nunca foi socialista, sempre se posicionou como um pacifista, a própria mensagem da música dessa “revolução” em mudar o mundo é, propriamente, mais uma mudança mental, do que do sistema capitalista.
Ah, mas temos o Roger Waters, socialista, abertamente, e o seu magnânimo “The Wall” (1979), obra prima. Dir-me-ão, todos os defensores da tese do rock de esquerda. É verdade inconteste, encontramos alguém.
O mestre Bob Dylan, a despeito das suas canções de protesto e a defesa incansável dos direitos civis, também nunca foi socialista, não obstante, estar, por um tempo acompanhado da Joan Baez, essa sim, socialista.
Faço justiça aos “Titãs”, pelo menos do início de carreira, até o disco “Titanomaquia” de 1993, sétimo álbum, já sem Arnaldo Antunes e o isolamento do vocalista e baixista Nando Reis. Até então, declaradamente de esquerda, como músicas como “Nomes aos bois” (1987) notadamente antifascista, do disco “Jesus não tem dentes no país dos banguelas”. E, atualizada pelo Nando Reis, ao inserir o nome Bolsonaro na lista de pessoas abomináveis.
Quanto ao Punk e ao Punk-rock, lá no seu começo, eles também nunca foram de esquerda. É evidente que sua natureza agressiva antissistema, ocupava uma posição política à esquerda, muito mais anarquista. Recentemente o Clemente do “Inocentes”, em um arroubo de extremo preconceito machista atacou o músico Criolo, chamando-o de “boiola”.
Dito isto, vou deixar de ser roqueiro? Não. Mas, confesso que perdi minhas ilusões em acreditar que um dos meus gêneros musicais favoritos é também cooptado por reacionários. Vou deixar de frequentar barzinho de rock? Não, mas com as antenas ligadas e sem ilusões de que estou majoritariamente entre meus pares. Sabendo que um outro ali é de esquerda; leia-se, humanista, a favor da democracia e dos direitos humanos.
Em tempo e, no apagar das luzes, o filho do Renato Russo acabou de processar o Partido Novo, e o seu líder (Efi)Zema, da extrema direita, pelo uso (calhorda) da música “Que país é esse”.
Dito isso: “It’s Only Rock ’n’ Roll (but I Like It)”, (The Rolling Stones ‧ 1974).