Eduardo Martins, é historiador, docente associado 2, UFMS, CPNA –
Trata-se do 18º livro escrito por Jaminho. Guadakan y Caaguasu, Ohn Y maj criou à sua imagem e semelhança o panteão cercado por Ycrad, Ujadneumin, descendentes direitos do que ele diz ser um casal Êj e Orcam, numa linhagem direta do passado ancestral que é o futuro da vida, por que ela é “Y”.
Nesse diapasão ou nessa tela Ohn Y maj nos remete sintomaticamente à pintura épica e nostálgica de Debret, intitulada “Carga de cavalaria Guaicuru”, de quando este célebre pintor e viajante esteve no Mato Grosso do Sul, junto com os povos indígenas do Pantanal, na região de Miranda e Aquidauana, conhecendo os indígenas Kadiwéu.
Hoje essa pintura compõe o monumento indígena mais famoso e portentoso da capital deste Estado, Campo Grande, homenageia o povo indígena Kadiwéu, e seus antepassados pejorativamente chamados de “Guaicuru”, povos que habitam o Gran Chaco desde há pelo menos 3 a 5 mil anos, segundo escavações arqueológicas no lugar. Período fértil de efetiva ocupação e simbiose com a Mãe Terra e suas manifestações de vida terrestre, do ar e sobretudo aquáticas, povos envolventes de tal modo com aquele tipo de vida ali apresentado, mas também modificando-o às suas necessidades de vida sociocultural, de modo antrópico.
Muito antes das invasões euro-cristãs suas espadas, cruzes e doenças. Eram os povos de Guadakan Y Êxiva Y Gran Chaco Y Mojos Y Chiquitanos Y Caaguasu, povos das águas (a letra Y significa água na língua Guarani), é possível cobrir geograficamente a extensão que hoje corresponde a “mesopotâmia”, terras e territórios que se estendem dos rios Paraguai ao rio Paraná. Pessoas indígenas como os “Paiaguá”, por água, e “Guaicuru”, por terra, durante mais de dois séculos combatiam e expulsavam os invasores euro-cristãos.
Agindo com uma noção rara e estratégica muito bem elaborada de guerra por água e por terra em defesa da sua morada, seu território e sua territorialidade, entendendo, por esse conceito a vida em simbiose com a natureza, envolvente todas as formas de vidas, moventes e não-moventes.
Assim, os Guaxarapó/Guaxi, indígenas canoeiros parentes dos Guató habitantes das águas. Também os Ofaié, indígenas canoeiros com vasto conhecimento daquele imenso território e que mais recentemente, após a Grande Guerra (Guerra Guasu) (1864-1870), vieram se encontrar nas barrancas do rio Paraná, num movimento diaspórico fugindo dos terrores da desterritorialização causada pela Guerra neocolonialista entre os euro-cristãos brasileiro e paraguaios. Guaxi/Ofaié, segundo consta no mapa de Nimuendaju, habitavam as margens dos rios Taboco e Negro na região do rio Mbotetei (Miranda).
Captados pela fina pena, do também viajante europeu francês, Francis Castelnau, (1845), em que vai retratar as duas pessoas indígenas, um Guaxi e um Guató, lado a lado, na mesma tela, depois uma imagem da “La Gaíva”, grande rio em que Castelnau retrata pessoas Guaxi e Guató em suas canoas transportes e moradias. Esse mesmo viajante foi responsável pela coleta de um grande vocabulário Guaxi, que nos legou o conhecimento dessa língua e um pouco mais desse povo, disperso na região da Vacaria após a Grande Guerra, antes da sua autodenominação por Opaié, Faiá, Araés, Ofaié-chavante, e atualmente Ofaié, apresentado por Nimuendaju.
Um brinde a história matogrossulíndia, pintada tão brilhantemente por Jaminho, em sua sensibilidade de homem erudito em captar e transcrever com maestria as coisas, as palavras do mundo para as palavras escritas, como dizia Paulo Freire. Jaminho, também pessoa fronteiriça, do interior do mato, da vida miúda da pequena cidade que carrega a essência do saber popular, causos, histórias, mitos e lendas que povoam o imaginário de escritores depois viram livros, mas que, sobretudo, carrega segredos guardados em potes que nos são revelados em doses pitorescas e homeopáticas nas suas prozas literárias. Como diz ele doutor honoris causo, epíteto que lhe cai bem, também.
Assim, em seu estilo quase que único de pintar o regional como sendo universal, como dizia uma certa Pessoa. Estilo agridoce com a seriedade e reponsabilidade exigente de quem sabe que faz história indígena, (etnologia) com posicionamento firme contracolonial e olhar da história vista de baixo e, com a delícia e toda a licença poética de um literato nato.
Um livro repleto de histórias muito bem narradas na sua tecitura contando os acontecimentos, transformando-os em fatos para a história de Mato Grosso do Sul, em história regional, contadas a partir, também, das cosmologias indígenas dos habitantes do Pantanal povos que por necessidade e imposição do colonialismo se veem obrigados a coabitar seus espaços com os estrangeiros (invasores) pessoas não indígenas.
Sendo reterritorializados, absorvidos, transmutados em populações “ribeirinhas”, “caipiras”, “caboclas”, “bugres”, leia-se, miscigenação entre euro-cristãos e indígenas que vão recebendo tais nomes, menos o de Brasileiro, tampouco a cidadania do “branco”; sendo esse rol de misturados, (re)conhecidos como “peões”. Pessoas que povoam as páginas, sensíveis de “Guadakan Y Caaguasu”, captados pela visão privilegiada de Jaminho, pessoa que também (con)viveu com e entre essas pessoas e sabe das suas histórias, seus causos, de cabo a rabo.
O livro ora resenhado é um convite à fina literatura sul-mato-grossense, ou como gostamos de chamar jocosamente, matogrossulíndia, a despeito; livro muito bem editado, muito bem apresentado e prefaciado. Desde a capa já vem dizer o que ele entrega, “um jovem indígena canoeiro”, navegando em pé na sua canoa, habilidade quase que exclusiva de navegar típica das pessoas indígenas do Pantanal (Guató e Guaxi).
(Jaminho: doutor honoris causo é você).



