As justificativas de Trump para o sequestro de Maduro e sua esposa e os bombardeios em Caracas são uma balela; entenda aqui
Por: Julinho Bittencourt, na Forum –
A justificativa americana para o sequestro de Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, e o consequente bombardeio a Caracas, capital da Venezuela, na madrugada deste sábado (03), é uma balela.
Segundo informações do Departamento de Estado dos EUA, o casal segue de navio para Nova Iorque. Pam Bondi, a secretária de Justiça dos EUA, afirmou que Maduro e Flores foram indiciados na Justiça de Nova York. Segundo ela, Maduro “foi acusado de conspiração para narcoterrorismo, conspiração para importação de cocaína, posse de metralhadoras e dispositivos explosivos, e conspiração para posse de metralhadoras e dispositivos explosivos contra os EUA”.
A razão de fato foi revelada até mesmo pelo presidente americano Donald Trump, em entrevista recente do início de dezembro do ano passado: “Eles nos tiraram os direitos de exploração de petróleo. Tínhamos muito petróleo lá. Como você sabe, eles expulsaram nossas empresas e nós queremos o petróleo de volta”, afirmou ele.
Maiores reservas do planeta
A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do planeta. Possui mais petróleo do que a Arábia Saudita, a Rússia, os Estados Unidos e qualquer outro país. Ainda assim, responde por apenas cerca de 1% do petróleo bruto consumido mundialmente. Essa aparente contradição revela uma combinação complexa de fatores geopolíticos, econômicos e, sobretudo, técnicos.
As recentes ameaças do presidente norte-americano Donald Trump ao governo venezuelano, além de ações de sua administração no mar do Caribe, voltaram a chamar atenção para a imensa riqueza energética do país — um interesse que acompanha a Venezuela há gerações.
O tamanho
Segundo a Oil & Gas Journal, uma das principais publicações do setor, a Venezuela detém cerca de 17% das reservas conhecidas de petróleo do planeta, o equivalente a mais de 300 bilhões de barris. Esse número representa a quantidade de petróleo que especialistas acreditam ser tecnicamente possível extrair do território venezuelano.
Para efeito de comparação, os Estados Unidos, atualmente o maior produtor mundial de petróleo, possuem aproximadamente 81 bilhões de barris de reservas comprovadas — menos de um terço do volume venezuelano.
Da potência petrolífera ao colapso produtivo
Em 1997, a Venezuela era responsável por quase 5% da produção mundial de petróleo. Desde então, uma série de fatores levou a um colapso produtivo:
- Má gestão estatal
- Falta crônica de investimentos
- Sanções econômicas dos Estados Unidos
- Dificuldades técnicas na extração do petróleo
As sanções impostas em 2019 à estatal Petróleos de Venezuela (PDVSA) interromperam o comércio com os EUA, então principal comprador do petróleo venezuelano. Embora os embarques tenham sido parcialmente retomados em 2023, os volumes continuam baixos. Atualmente, a China é o principal destino do petróleo venezuelano.
A qualidade do petróleo
Em termos simples, o petróleo da Venezuela é muito mais difícil e caro de refinar do que o da maioria dos grandes produtores.
Uma analogia ajuda a entender:
Imagine que o petróleo é um caldo que você quer transformar em sopa (gasolina e diesel). O petróleo de muitos países é ralo e fácil de coar. O da Venezuela, porém, é como um melaço grosso, cheio de areia e metal, que exige ferramentas especiais apenas para ser processado.
Comparação da dificuldade de refino
| País | Tipo de Petróleo | Como ele é? | Facilidade de Refino |
| Arábia Saudita / Kuwait | Leve e doce | Líquido, “limpo” | Muito fácil — quase pronto ao sair do solo |
| Brasil (pré-sal) | Leve a médio | Boa qualidade, pouco enxofre | Fácil — altamente valorizado |
| Estados Unidos (shale) | Muito leve | Quase uma gasolina natural | Muito fácil — ideal para gasolina |
| Venezuela (Orinoco) | Extra-pesado | Grosso como piche ou melado | Muito difícil — exige grandes “upgraders” |
Por que o petróleo venezuelano é tão problemático?
Três fatores principais tornam o refino do petróleo venezuelano um desafio logístico e tecnológico:
- Consistência de “piche”
O petróleo é tão espesso que não flui sozinho pelos dutos. Para transportá-lo, a Venezuela precisa importar petróleo mais leve ou solventes, apenas para “empurrar” o próprio óleo.
- Alto teor de enxofre
O petróleo venezuelano contém muito enxofre. Em refinarias comuns, isso causa corrosão severa. É necessário um processo químico adicional e caro para remover esse contaminante.
- Presença de metais pesados
Elementos como vanádio e níquel estão misturados ao petróleo. Durante o refino, esses metais entopem filtros e danificam os catalisadores, componentes essenciais para transformar o óleo em combustível.
Uma bênção e uma maldição
A Venezuela possui o maior estoque de petróleo do mundo, mas também um dos mais difíceis de explorar. Enquanto países como a Arábia Saudita gastam pouco para transformar petróleo em lucro, a Venezuela depende de:
- Tecnologia de ponta
- Refinarias caríssimas
- Grande consumo de energia
Por isso, quando o preço internacional do petróleo cai, a Venezuela sofre antes dos demais: o custo para “limpar” seu petróleo pode ultrapassar o valor de venda do barril.


