Reinaldo de Mattos Corrêa –
Em Dourados, cidade que pulsa no interior de Mato Grosso do Sul com vitalidade econômica e diversidade cultural, há uma ausência que não se mede apenas em concreto ou orçamento público, mas em algo mais difuso e, ao mesmo tempo, decisivo: a falta de um grande espaço de saber livre, acessível, central — uma biblioteca municipal à altura da população.
Não se trata apenas da falta de um edifício. Trata-se de uma lacuna no próprio tecido de produção e circulação do conhecimento. Ao longo da história, bibliotecas foram mais do que depósitos de livros; constituíram-se como dispositivos fundamentais de organização do saber, lugares onde o acesso à informação é simultaneamente permitido e estruturado. Em Dourados, a inexistência de uma biblioteca robusta, bem localizada, com acervo significativo e infraestrutura digital, revela não apenas um déficit cultural, mas uma escolha silenciosa sobre quais formas de conhecimento devem ou não circular livremente.
Uma biblioteca central, equipada com livros diversos, computadores com acesso à internet e Wi-Fi aberto, não é apenas um serviço público — é um espaço de democratização radical do saber. É ali que se dissolvem, ainda que parcialmente, fronteiras entre aqueles que podem acessar a informação e aqueles que permanecem à margem. Sem esse espaço, o que se produz é uma espécie de desigualdade silenciosa: o conhecimento continua existindo, mas o acesso torna-se fragmentado, disperso, condicionado.
A ausência desse equipamento em Dourados também evidencia um aspecto mais profundo das dinâmicas contemporâneas de poder. Hoje, o controle não se exerce apenas pela proibição, mas pela distribuição desigual de recursos e oportunidades. Não é necessário impedir o acesso ao saber; basta não criar condições para que ele se realize plenamente. Assim, a falta de uma biblioteca municipal de grande porte opera como um mecanismo sutil de limitação — não visível como censura, mas eficaz como exclusão.
Em uma cidade universitária, marcada pela presença de jovens, pesquisadores e uma população plural, a inexistência de um espaço público de leitura, estudo e conexão digital revela uma contradição: produz-se conhecimento, mas não se garante circulação ampla e irrestrita. A biblioteca, nesse sentido, não seria apenas um complemento, mas um ponto de articulação entre diferentes formas de saber — acadêmico, popular, técnico — permitindo encontros, confrontos e transformações.
Além disso, em tempos em que o acesso à internet se tornou condição básica para participação social, educacional e econômica, oferecer computadores e Wi-Fi gratuito não é luxo, mas necessidade. Negligenciar esse acesso significa limitar a capacidade de indivíduos de se inserirem plenamente na vida contemporânea.
Dourados precisa, com urgência, de uma grande biblioteca municipal — central, acessível, viva. Um espaço onde o livro não seja objeto distante, mas presença cotidiana; onde a internet não seja privilégio, mas ferramenta comum; onde o conhecimento não seja restrito, mas compartilhado.
Porque, no fim, a questão não é apenas cultural ou educacional. É política, no sentido mais profundo do termo: diz respeito à forma como uma cidade escolhe distribuir aquilo que tem de mais valioso — o saber — e, com ele, as possibilidades de pensar, questionar e transformar o mundo em que vive.
*Produtor Rural em Mato Grosso do Sul.




