Dourados é cenário de mais uma produção internacional
Documentário – 06/09/2008
Dourados foi mais uma vez o cenário escolhido por estrangeiros para retratar a situação das populações indígenas que habitam o Mato Grosso do Sul. Depois do filme “BirdWatchers”, que foi sucesso do diretor chileno radicado na Itália Marco Bechis, no Festival de Veneza na Itália, agora é a vez do uruguaio Alejandro Ferrali contar como vivem os jovens indígenas que cursam universidades no município, que possui nada menos que quatro grandes universidades.
O documentário que ainda não tem nome deve ficar pronto até o final de outubro e está sendo feito em parceria com a Ação de Jovens Indígenas – AJI. A parceria entre o diretor e a AJI já é antiga, vem a mais de três anos, com Alejandro ensinado aos jovens técnicas de captura e edição de vídeos. Resultado dessas oficinas são Graciela Pereira de Souza e Lucimar Cabreira Morales, agora assistentes do diretor, que traz no currículo a campanha vitoriosa do atual presidente uruguaio.
A idéia do diretor é mostrar as dificuldades e as vitórias dos jovens dentro das universidades, desde a aceitação dos grupos de estudo, até o preconceito que ainda existe contra os povos indígenas. A história será contada em duas versões, uma mais curta para festivais e outra mais longa, com todos os detalhes e histórias de vida.
Autoridades, pessoas comuns, professores, todos fazem parte do enredo. A temática indígena volta à tona no Brasil em um memento crítico que sobrepõe os ideais liberalistas da propriedade privada, representada pelos produtores rurais e da busca dos indígenas que querem ter suas terras tradicionais de volta. Somente em Dourados vivem mais de 12 mil indígenas em um território de pouco mais de 3,6 mil hectares.
Já é sucesso
Co-produzido pela Gullane Filmes e rodado inteiramente em Mato Grosso do Sul, “BirdWatchers” foi dirigido pelo chileno radicado na Itália Marco Bechis. A obra trata de maneira sóbria o drama atual dos índios brasileiros, dando conta da complexidade do assunto.
No filme, o cacique de uma aldeia guarani-kaiowá decide deixar a reserva demarcada pelo governo para ocupar a terra que pertencia a seu povo, hoje uma fazenda de soja. No contexto, as florestas estão cada vez menores, a caça e a pesca diminuíram, os jovens estão se suicidando, divididos entre a tradição de sua cultura e as influências dos brancos.
Durante a apresentação do filme na Itália, a indígena Eliane Juca da Silva, que participou das gravações desabafou sobre a realidade que enfrenta diariamente.
“Eu me sinto muito triste porque nossas lideranças morrem, morrem muitas crianças desnutridas, não tem mais rio. A gente quer oportunidade para nossos jovens, que são iguais a vocês. Somos humanos. A gente tem pensamento, cultura, raça e língua, a gente quer oportunidade para crescer na vida. A gente não tem mais espaço para rezar, a gente mora num lugar muito pequeno, os fazendeiros pensam que a gente é invasor, e a gente não é. A gente só quer um pedacinho de terra para plantar. O que acontece no filme não é mentira. É realidade. Isso que está acontecendo no Brasil. Quero que vocês acreditem que a gente está falando a verdade, a gente não está mentindo.”
O diretor do filme completou as palavras de Eliane e rebateu a observação de um jornalista, que disse que eles não são nem índios nem “civilizados”. “Não estou de acordo que eles não sejam índios nem brancos. Aparentemente, pode parecer, mas de fato, não. Eles querem voltar a suas terras, onde não há mais árvores, porque consideram suas terras ancestrais. A cultura permaneceu intacta. Estamos acostumados a ver índios com flechas e penas, mas eles se vestem assim porque nós vamos lá para fotografá-los. Eles são índios na alma e a alma deles é intacta”, disse Marco Bechis.
O cineasta disse que tem esperança de que as coisas melhorem. “A minha esperança é grande, pois estou convencido que eles têm as idéias bem mais claras do que nós sobre como devemos viver na Terra. Tenho esperança de que transmitam para nós essa esperança. Eles são os outros, e na Itália o outro dá medo. Não temos curiosidade em relação aos outros, como eles têm curiosidade em relação a nós. Se não houver essa troca, para nós brancos não haverá mais vida.”
Ator do filme, o cacique Ambrósio Vilhalva clamou por justiça. “O índio não tem direito a nada. Tem justiça para os grandes empresários, para ele tem juiz, deputado, senador. Para os índios, pobres e negros, não. Espero que o filme faça com que vocês ergam a cabeça e que olhem grande para o país.”
Fonte: Folha de Dourados



