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‘Dom Quixote não estava louco. Estava desajustado’, Por João Roberto Giacomini

Por João Roberto Giacomini – Advogado & Escritor

Dom Quixote foi um homem que leu demais.
E isso, convenhamos, sempre foi perigoso.

Criado por Miguel de Cervantes, Dom Quixote era um fidalgo espanhol que passou tanto tempo lendo histórias de cavaleiros que decidiu virar um. Vestiu uma armadura velha, montou um cavalo ainda mais velho e saiu pelo mundo procurando justiça, honra e aventuras — coisas que já estavam fora de moda.

É assim que a maioria aprende sobre ele:
o louco dos moinhos de vento.

Mas talvez essa seja a leitura mais preguiçosa da história.

Dom Quixote não confundia o mundo. Ele se recusava a aceitá-lo como estava. Onde todos viam moinhos, ele via gigantes. Onde viam conveniência, ele via covardia. Onde viam normalidade, ele via mediocridade confortável.

O mundo real nunca foi gentil com idealistas.
Chamam de loucura aquilo que dá trabalho explicar.

Dom Quixote acreditava em honra num tempo de esperteza. Em lealdade num tempo de acordos rápidos. Em palavra dada num tempo de contratos miúdos. Talvez não fosse louco — talvez estivesse apenas atrasado para a própria época.

Ou adiantado demais.

Sancho Pança, seu escudeiro, é o contraponto perfeito: prático, pé no chão, preocupado com comida e abrigo. Sancho representa o mundo como ele funciona. Dom Quixote representa o mundo como ele poderia ser — se alguém tivesse coragem de insistir.

E é aí que mora o incômodo.

Porque Dom Quixote erra. Muito. Apanha. Passa vergonha. Perde batalhas que só ele acreditava existir. Mas nunca perde uma coisa essencial: a disposição de tentar viver de acordo com aquilo em que acredita.

Ele não ficou famoso por vencer.
Ficou famoso por insistir.

Talvez Dom Quixote tenha se tornado um personagem eterno não por ser ridículo, mas porque nos obriga a escolher:
vamos rir dele… ou admitir que já desistimos cedo demais?

O mundo ama Sancho Pança porque ele resolve.
Mas precisa de Dom Quixote para lembrar por que começou.

Cervantes não escreveu sobre loucura.
Escreveu sobre o custo de sonhar num mundo cansado.

No fim, Dom Quixote perde tudo — menos a dignidade. E isso é curioso, porque hoje perdemos a dignidade com facilidade, mas chamamos isso de maturidade.

Talvez Dom Quixote não estivesse lutando contra moinhos.
Talvez estivesse lutando contra a desistência geral.

E talvez seja por isso que, séculos depois, ele ainda incomode.
Porque no fundo sabemos:
não foi ele que enlouqueceu.

Fomos nós que paramos de acreditar.

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