FOTO: IVAN STORTI/SANTOS FC

Caso Robinho: ‘Os espaços de fé têm um papel fundamental no combate a todo tipo de violência contra as mulheres’

“Amado/a, jamais imites o que é mau, mas sim o que é bom. Aquele/a que faz o bem é de Deus; aquele/a que pratica o mal não conheceu a Deus.”João 1:11

Por Franklin Félix – É psicólogo, educador, militante pelos direitos humanos e um dos idealizadores do movimento de espíritas pelos direitos humanos

Sem sombra de dúvidas, os leitores/as devem ter ouvido a expressão “política, futebol e religião não se discutem”.

Por conta de afirmativas como esta, reproduzidas e reforçadas na sociedade, assistimos diariamente ao crescimento de ideias conservadoras e odiosas. Algumas vezes essas afirmativas se utilizam da fé e do sagrado para referendar visões excludentes e discriminatórias, que nada se assemelham aos ensinamentos de amor, justiça, fraternidade e igualdade presentes na maioria das religiões.

Sempre gostei de religião e de política e defendo que, com sabedoria, ambas podem conviver em harmonia, ajudando no enfrentamento das mazelas humanas e sociais.

Já com relação a futebol, assim como a maioria dos LGBTQIA+ que são proibidos de jogar e frequentar espaços de disputa, eu me contentava em torcer pela seleção brasileira.

O futebol é uma das modalidades esportivas mais praticadas no Brasil, entre todas as camadas sociais, todas as idades e gêneros, e desde que esse esporte foi trazido para cá por intermédio de Charles Milller, em 1894, temos nos tornado uma referência mundial.

Tornar-se um jogador profissional famoso ainda é o sonho de milhares de crianças e adolescentes pobres brasileiros, muitas vezes influenciados pela mídia que glorifica esses profissionais, representando-os cercados por muito luxo, dinheiro e polêmicas.

O jogador acusado de estupro na última semana foi um desses meninos pobres. Nascido em uma pequena cidade do sertão cearense, foi criado pela mãe junto com mais cinco irmãos, após seu pai abandona-la

Como defende Paulo Freire, outro nordestino assim como o jogador, que se dedicou a transformação do mundo por meio da educação, “se a educação não é libertadora, o sonho de um oprimido é se tornar um opressor”.

Com tristeza, temos assistido nos últimos dias os desdobramentos desse caso de estupro que após ser acusado e condenado pela justiça italiana – em primeira instância – junto com um amigo brasileiro a nove anos de prisão por violência sexual de grupo (estupro coletivo) contra uma jovem de origem albanesa, foi contratado pelo Santos Futebol Clube.

No entanto, a pressão de grupos feministas e de defesa dos direitos humanos foi tanta que obrigou conselheiros e patrocinadores do clube decidirem pelo cancelamento da contratação.

Indignado com esse cancelamento do contrato e com a exposição do seu crime, ele resolveu destilar todo seu ódio (cristão) e destempero às feministas, proferindo ofensas machistas, misóginas, lesbofóbicas e transfóbicas, “algumas nem são mulheres de verdade”.

Vale destacar que o jogador, assim como qualquer outra pessoa que comete crimes, tem o direito a ampla defesa, ainda mais em um país racista como o nosso, em que homens negros são acusados de crimes sexuais, às vezes, injustamente. Além disso, parece que ele também não se deu conta que esse mesmo país foi forjado pelo estupro de milhares de mulheres negras escravizadas. Faltou empatia e sobrou arrogância.

Declaradamente evangélico, o jogador se recusou participar em 2010 de uma ação social promovida pelo clube para entregar ovos de Páscoa à pacientes da casa Lar Espírita Mensageiros da Luz, apontando motivos religiosos como responsável pela atitude e disse, na época, não estar arrependido.

Para a professora Magali Cunha, “o deus usado por Robinho não é o Deus de Sara, Agar, Tamar, Raabe, das filhas de Zelofeade, de Madalena. Não é o Deus feito carne em Jesus, sustentador destas e de tantas outras abusadas por homens, registradas ou não na memória judaico-cristã. É deus com minúscula, é idolo. É isto!”

Há um modus operandi – que já havíamos mencionado em artigos anteriores – de homens violadores, com prestigio e status social, boas relações e certeza da impunidade.

Esses indivíduos, em alguns casos, são portadores de um egocentrismo exacerbado, que leva a uma desconsideração em relação aos sentimentos e opiniões das outras pessoas, geralmente não tem apego aos valores morais (embora vivam deles).

No Brasil, a cada 11 minutos, uma mulher é estuprada, chegando a 180 casos por dia, segundo o 13ª Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em setembro do ano passado e que registrou recorde da violência sexual. A maioria das vítimas (53,8%) foram meninas de até 13 anos, quatro meninas até essa idade são estupradas por hora no país.

De cada dez estupros, oito ocorrem contra meninas e mulheres e dois contra meninos e homens. A maioria das mulheres violadas (50,9%) são negras

As religiões, os espaços de fé, têm um papel fundamental no combate a todo tipo de violência contra as mulheres e nós homens religiosos precisamos assumir essa tarefa como um princípio, reprimindo, desde piadas machistas nos grupos de whatsapp até importunação às mulheres nas ruas.

Como espíritas, reafirmamos a nossa fé segundo o Evangelho de Cristo e não compactuamos com as mesmas práticas dos que o violentaram, torturaram e crucificaram.

O que mais precisa acontecer para que o movimento espírita que se preocupa mais com o combate ao “comunismo” e a “ideologia de gênero” venha a público ajudar no combate a toda violação dos direitos das mulheres?

Em especial, aquelas cometidas nos espaços sagrados ou referendadas por discursos religiosos e que, baseada em um machismo estrutural, prefere desconfiar das vítimas, considerando-as loucas, obsidiadas (possuídas), do que encarar o problema, criando espaços de acolhimento, amorosidade, resgate e vivência íntegra da fé, cuidando para que mulheres não tenham mais que passar por isso.

Repudiando qualquer tipo de violência, principalmente aquela que se utiliza da fé, da fragilidade espiritual, da confiança e da posição social para oprimir, silenciar, violentar, humilhar, excluir e estigmatizar.

Reivindicamos Deus que andou com os e as oprimidas e que, em seu ministério, deu protagonismo e voz a mulheres que se quer eram contadas como seres humanos.

Sexo sem consentimento é crime. Não é não!

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