Reinaldo de Mattos Corrêa –
Por que o jornalismo importa mais do que nunca
Em 7 de abril de 2026, o Brasil celebra o Dia do Jornalista em um contexto de profundas transformações e desafios monumentais para a profissão. Mais do que uma data comemorativa, este momento representa uma oportunidade para refletir sobre o papel do profissional de comunicação na consolidação democrática e na construção de uma sociedade mais transparente, plural e informada.
O jornalismo brasileiro atravessa uma das fases mais complexas das últimas décadas. A combinação de fatores econômicos, tecnológicos, políticos e sociais criou um ambiente que ameaça não apenas a sobrevivência material da profissão, mas também a integridade e a qualidade da informação que chega ao cidadão. A violência crescente contra profissionais da comunicação, a precarização acelerada das condições de trabalho, a disseminação massiva de desinformação e a concentração dos meios de comunicação configuram um cenário que exige atenção imediata e ação coordenada dos gestores públicos, das instituições civis e da sociedade organizada.
Atualmente, estima-se que existam cerca de 180 mil profissionais formados em Comunicação Social no Brasil, muitos dos quais enfrentam dificuldades reais para permanecer na área. A queda na circulação de jornais impressos, a retração dos mercados publicitários tradicionais e a migração forçada para plataformas digitais com modelos de negócio ainda não consolidados geraram uma equação econômica desfavorável, refletida diretamente na qualidade do jornalismo entregue à sociedade.
Os números que desafiam a profissão
A saúde mental dos jornalistas tornou-se uma emergência nacional ainda sem a atenção adequada. Pesquisas conduzidas pela Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) e pela Associação Brasileira de Psicologia do Trabalho apontam que cerca de 70% dos profissionais enfrentam esgotamento, ansiedade crônica ou depressão. A pressão por resultados imediatos, prazos apertados, exposição constante a conteúdos traumáticos e instabilidade financeira contribuem para esse cenário preocupante. Poucos veículos oferecem programas estruturados de apoio psicológico, e o Sistema Único de Saúde ainda não possui estrutura específica para atender a categoria de forma adequada e especializada.
“O jornalismo não é uma máquina de produzir conteúdo descartável; é uma prática social de construção de sentido coletivo. Sem jornalistas qualificados, éticos e protegidos, a democracia perde o sistema imunológico natural contra a manipulação e a barbárie informativa.”
— Dr. Carlos Fernando Ferreira, professor de Ética Jornalística da Universidade de São Paulo (USP)
Dados do Comitê para Proteção dos Jornalistas e da Abraji indicam que o Brasil figura entre os países com maior número de assassinatos de jornalistas fora de zonas de conflito armado. Entre 2012 e 2025, pelo menos 47 profissionais foram mortos em circunstâncias diretamente relacionadas ao exercício da profissão, muitos deles investigando corrupção, crime organizado e violações de direitos humanos. Apenas cerca de 12% desses casos resultaram em condenações definitivas.
Os cinco pilares dos desafios contemporâneos
- Precariedade laboral e terceirização
A informalização crescente do trabalho jornalístico compromete a qualidade e independência da informação. Contratos intermitentes, pejotização generalizada e precarização do trabalho remoto sem regulamentação adequada criaram profissionais vulneráveis, sem acesso a direitos básicos como férias remuneradas, décimo terceiro salário, licença-maternidade e aposentadoria digna. A Lei 6.615/1978, que regulamenta a profissão, permanece insuficiente e frequentemente descumprida, sem fiscalização efetiva.
- Inteligência artificial e automação
Ferramentas de inteligência artificial já produzem textos informativos, resumem dados e geram reportagens esportivas ou econômicas com eficiência crescente. Isso representa uma ameaça concreta à empregabilidade e à valorização salarial. O jornalismo precisa reinventar-se para agregar valor onde a tecnologia ainda apresenta limitações: jornalismo investigativo aprofundado, análise crítica, construção de narrativas complexas e verificação rigorosa de fatos em contextos polarizados.
- Desinformação e guerra de narrativas
A propagação de fake news e a polarização intensa desafiam o conceito de verdade objetiva. Jornalistas sofrem campanhas de difamação, ameaças coordenadas e tentativas deliberadas de deslegitimar seu trabalho. A falta de transparência dos algoritmos das grandes plataformas digitais dificulta o combate à desinformação, deixando profissionais vulneráveis.
- Violência e impunidade sistêmica
O aumento de ataques físicos e digitais contra jornalistas exige políticas públicas consistentes. Em 2025, mais de 230 casos de agressões e intimidações foram registrados pela Abraji. A impunidade permanece elevada, com destaque para violência direcionada a mulheres jornalistas, incluindo ameaças de morte, assédio sexual e ataques organizados via redes sociais.
- Concentração dos meios de comunicação
Cinco grupos econômicos controlam mais de 80% da audiência da TV aberta e praticamente todo o mercado de revistas de grande circulação. Fusões e aquisições reduzem a pluralidade de vozes, principalmente no Norte e Nordeste, onde muitos municípios dependem de uma única fonte de informação, frequentemente vinculada a interesses político-partidários.
A responsabilidade dos Três Poderes na valorização do jornalismo
O artigo 5º, inciso XIV, da Constituição Federal garante o acesso à informação como direito fundamental, assegurando condições para que jornalistas exerçam sua função social com dignidade e segurança. Passados quase 40 anos da promulgação da Carta Magna, o Brasil carece de políticas públicas robustas que garantam efetivamente esse direito. Valorizar o jornalismo não é apenas uma questão corporativa: é questão de soberania democrática e direito coletivo à informação de qualidade.
Poder Executivo: políticas estruturantes e proteção integral
Implementar efetivamente a Carteira Nacional de Jornalista (Lei 6.615/1978), garantindo que apenas profissionais qualificados exerçam a profissão.
Criar Programa Nacional de Proteção a Jornalistas e Comunicadores, com atenção especial a mulheres, comunicadores de comunidades tradicionais e profissionais investigativos.
Universalizar o acesso à banda larga de qualidade, especialmente em regiões remotas e periféricas.
Fortalecer a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), garantindo financiamento adequado e independência editorial.
Incentivar cooperativas e veículos comunitários de comunicação, com linhas de crédito e capacitação técnica.
Regulamentar o uso de inteligência artificial no jornalismo, assegurando padrões éticos, qualidade informativa e direitos trabalhistas.
Poder Legislativo: marcos legais e garantias efetivas
Aprovar lei de proteção à liberdade de imprensa, tipificando crimes contra jornalistas e estabelecendo agravantes.
Reformar legislação trabalhista para combater precarização e garantir direitos essenciais à categoria.
Revisar e fortalecer a Lei de Acesso à Informação, garantindo transparência e proteção aos jornalistas.
Fiscalizar concentração de mídia, fortalecendo atuação do CADE.
Criar fundo de financiamento permanente para capacitação profissional, especialmente em pequenos veículos.
Regulamentar plataformas digitais, exigindo transparência e responsabilidade por desinformação.
Poder Judiciário: efetividade, celeridade e segurança jurídica
Priorizar investigação e julgamento de crimes contra jornalistas, criando varas ou núcleos especializados.
Responsabilizar plataformas digitais por conteúdos difamatórios ou ataques sistemáticos.
Proteger fontes jornalísticas, consolidando o sigilo como direito constitucional.
Combater processos estratégicos contra participação pública (SLAPP suits) que visem silenciar jornalistas.
Agilizar julgamentos de ações trabalhistas da comunicação, reduzindo vulnerabilidade econômica.
Promover capacitação contínua de magistrados sobre liberdade de imprensa e especificidades da profissão.
Experiências inspiradoras: aprendendo com o passado
Em 2018, o Programa de Proteção a Defensores de Direitos Humanos e Comunicadores, com apoio da ONU, ofereceu medidas de proteção e suporte psicológico, embora limitado por subfinanciamento.
Em 2020, a Lei 13.964/2019 (Pacote Anticrime) agravou penas para crimes contra jornalistas.
Em 2023, o STF, no julgamento da ADPF 672, definiu que medidas contra desinformação devem respeitar liberdade de expressão, estabelecendo balizas constitucionais para futuras regulamentações.
Em 2025, a França criou Fundo de Apoio ao Jornalismo Local, modelo que poderia inspirar políticas similares no Brasil.
Agenda para 2026 e além: propostas estruturadas
O jornalismo de qualidade tem custo real. Investir em profissionais valorizados, protegidos e capacitados é investir diretamente na sociedade informada e consciente, essencial para o exercício pleno da cidadania e consolidação do Estado Democrático de Direito.
Propõe-se a criação de um Plano Nacional de Valorização do Jornalismo, com metas anuais, indicadores mensuráveis e financiamento compartilhado entre União, estados, municípios e setor privado. Entre suas diretrizes: valorização salarial progressiva com piso regional, formação continuada obrigatória, proteção integral, incentivos fiscais a veículos locais e financiamento direto para jornalismo investigativo de interesse público.
Considerações finais: o jornalismo como pilar da democracia
Neste 7 de abril de 2026, celebrar o Dia do Jornalista exige mais que protocolos: exige ação concreta e permanente. Sem jornalistas livres, éticos e protegidos, não há democracia plena nem cidadania real. A história futura mostrará se este é um ponto de inflexão ou mais uma oportunidade perdida.
A eles dedicamos esta reflexão: sem jornalismo valorizado, não existe povo soberano, não existe cidadania plena, não existe democracia real. Parabéns a todos os profissionais da comunicação! Que 2026 seja o ano da virada.
*Produtor Rural em Mato Grosso do Sul.




