- Por: Jeff Benício, no Portal Terra –
Neste Dia das Mães, a coluna lança um olhar para quem vive a data com extrema tristeza: o órfão do amor materno.
Ainda que o sentimento possa ser cultivado após a morte da mãe, a ausência física gera um doloroso vazio. Faz qualquer adulto se sentir fragilizado como uma criança.
O padre Fábio de Melo serve de exemplo. Sua história tem um elemento dramático: não conseguiu se despedir presencialmente de dona Ana Maria. A última troca de olhares aconteceu por telas.
Ela estava hospitalizada para o tratamento da covid-19. Os protocolos impostos pela pandemia mantiveram mãe e filho afastados.
“Foi a despedida mais cruel que eu vivi”, disse o sacerdote em conversa no canal do psicólogo Isaías Bezerra. “A gente não pode se ver uma última vez.”
“A última vez que eu falei com ela foi uma chamada de vídeo. E eu tinha certeza, né, que era o último momento.”
E foi. Dona Ana Maria morreu aos 83 anos, longe do filho, em março de 2021.
No enterro, outro baque emocional: o caixão fechado por conta do risco de contaminação do coronavírus impediu Fábio de Melo de olhar a mãe na hora do adeus.
“Foi a maior dor do mundo olhar aquele caixão lacrado e saber que ali estava o corpo que foi meu corpo, a mulher que me ensinou a falar, que me ensinou a viver, sentir, ser quem eu sou e não poder dizer adeus. E não poder dizer ‘Mãe, foi muito bom ser seu filho’.”
No ensaio ‘Mourning and Melancholia’ (luto e melancolia), escrito em 1917, o psiquiatra Sigmund Freud escreve que a morte da mãe pode representar uma ruptura profunda porque ela costuma ocupar o lugar do primeiro objeto de amor, cuidado e reconhecimento do filho.
A perda materna não é apenas a ausência física de alguém importante, mas também a sensação de que parte da própria história e identidade foi arrancada. O filho pode experimentar desorientação e um enfraquecimento temporário do interesse pelo mundo externo.
Na teoria do psicanalista Jacques Lacan, o sujeito humano se constitui a partir da falta, e não da completude. Por isso, a morte da mãe pode obrigar o filho a confrontar sua fragilidade, sua solidão e até sua relação com a própria morte.
Para ele, diante da impossibilidade de recuperar aquilo que foi perdido, a pessoa precisa construir novas formas de existir, amar e desejar. Ainda que incompleta devido ao abismo emocional da ausência materna, a vida precisa seguir.



