O que esperar da saúde pública regional sem o Hospital da Vida?

09/09/2019 08h06 – Por: Folha de Dourados

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Por Victor Teixeira

O que esperar da saúde pública regional sem o Hospital da Vida? Essa hipótese de futuro imediato deve seu atual realismo ao vacilante regime de zelo municipal para com as condições sob as quais a instituição pode se prestar a seu propósito. Esperanças de que dita evolução para o fracasso seja colocada em marcha a ré reluzem de mobilizações de parte do Legislativo de Dourados, com possível reforço estadual e federal, e da Justiça. Uma vez que essa crise de alcance extramunicipal é mero componente protuberante de um conjunto de imprudências no controle da saúde pública e do aparato educacional da cidade por seu Poder Executivo, sob essa chama de boa vontade, dependendo do quão ela possa durar, há mais o que ser posto simultaneamente ou logo que se finde a trama do momento.

Mais de 30 municípios de Mato Grosso do Sul são agraciados com a reserva de espaço a seus respectivos contingentes demográficos, aos quais por vezes cidadãos paraguaios se misturam, nesse centro médico onde o possível é feito para afastar o bem mais precioso de seus pacientes, citado na nomenclatura da instituição, da iminência de um fim possibilitado por enfermidades e lesões físicas de origem criminosa ou acidental. Porém, tempos árduos emergem na gestão regional da saúde com a deterioração do suprimento de mão-de-obra e recursos materiais para o estabelecimento, ainda não detectável em sua potencial dimensão máxima por conta de medidas paliativas tomadas diante do monitoramento do caso por vereadores douradenses e entidades judiciais.

Desde junho a saúde institucional do HV está em um clímax de necessidade de atenção pública em consonância com a observável dedicação do município em financeiramente viabilizar e recompensar os esforços dos trabalhadores que o mesmo diretamente mantém e da empresa privada à qual dita instância de poder conferiu direito a parte da missão. Em julho 8 médicos pediram demissão por franca vontade alicerçada em sua descontínua remuneração e investimentos aquém da demanda de insumos, espessando o caldo de 15 afastamentos voluntários iniciados em novembro. Não fosse o veredicto judicial junino que impediu a firma Intensicare de fechar 20 leitos de UTI sob sua gerência em resposta a congênere apreço da Fundação de Serviços de Saúde de Dourados (Funsaud), mantenedora do ponto de socorro, pelos repasses de verbas aos quais a companhia goiana condiciona o potencial de manter-se em seus deveres, estaria à nossa vista um caos maior. Maior que o básico de consternação cultivável sobre as suspeitas de que a morte de um homem vítima de acidente de trânsito em 21 de julho se deva à falta de médicos no HV e o flagrante da inconclusa espera de renais crônicos por atendimento durante mais uma visita feita por vereadores douradenses acompanhados de representantes do Ministério Público Estadual, da Defensoria Pública da União e do ramo estadual da Ordem dos Advogados do Brasil.

O ocaso do regionalmente importante recinto médico não é tudo nos desdobramentos da administração pública da cidade, de modo que vale a pena seu proveito como cartão de visita para apurações e cobranças de passagem a limpo dos procedimentos de controle dos serviços públicos destinados apenas àquela urbe. As intempéries na remuneração dos médicos e enfermeiros, o déficit em sua disponibilidade e abortadas oportunidades de exames para pacientes têm sua parte profunda correspondente à projeção autóctone da crise. Não obstante, além de exemplificar o descontentamento do funcionalismo da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) 24 horas, o deputado estadual Marçal Filho (PSDB) trouxe ao conhecimento da Assembleia Legislativa a colaboração de semelhante justificativa para prematuras dispensas de alunos ocorridas em escolas, que constituem uma “operação tartaruga” desencadeada por docentes. Ao passo que, como parte de uma realidade possível Brasil e mundo afora, o não comparecimento às salas de aula e a negligência no preparo do trabalho embasaram o anúncio em fevereiro de providências disciplinares contra 50 professores por autoridades do distrito de Kibuku, em Uganda e torna a iniciativa merecedora de benignos desejos relativos a seu desenrolar, a provável presença, nessas atitudes de educadores douradenses, de objetivos preparatórios para uma nova greve continua válida para dissuadir os mantenedores da educação pública de sua ausência perante a supervisão das condições em que a categoria atua.

Com seu relato de como vão as coisas o legislador estadual emparelhou a sugestão de pôr em marcha uma força-tarefa com representantes dos poderes municipais, estaduais e federais rumo a uma saída para o tormento. Privada de um seguro quociente de aceitabilidade entre a membresia eletiva da Câmara Municipal, a proposta de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) focada na saúde, apresentada por Daniela Hall (PSD), não triunfará, restando aos vereadores comprometidos de verdade em modificar o funcionamento não apenas dessa assistência em prol do que é justo a todo o povo amparo na proposta de que componentes de todos os estratos tomem partido na peleja. Acessíveis também para o Executivo, Legislativo e Judiciário estadual e central, seja por consciente cooperação da prefeitura e das secretarias municipais ou sob a repercussão de exigências dentro do que é legalmente respaldado, os registros das despesas contraídas pelas autoridades municipais disponibilizarão às homólogas do estado e da pátria uma nítida vista do quanto de suas remessas atende às carências dos cidadãos. Se abrirá assim uma janela orientadora à lida dos mandatários estaduais e federais com esse caso face ao paralelo momento de esforços de Brasília para se disponibilizar para socorrer estados financeiramente impulsionando no Congresso a reforma da previdência e regras para o acesso a empréstimos com intuito de saldar dívidas (Plano Mansueto), e perante a presença de Mato Grosso do Sul nessa fila de espera.

Penalizando também a vitalidade de um hospital cujas benesses teóricas atraem para ele um público superior ao conteúdo demográfico da cidade onde fica, a subutilização pelo respectivo governo municipal dos meios pelos quais é encarregado de fazer seu papel no resguardo do bem comum deixa exposto o quão longe se dispersam seus frutos. Em termos de notoriedade para a opinião pública os reflexos desses tempos trabalhosos para a específica entidade médica puseram-se à frente de inoperâncias não restritas à saúde na gestão de outras assistências voltadas ao público municipal, o que não torna menos repreensível sua manifestação para ser englobada como alvo do que vier de pretensas respostas corretivas dos vereadores e dos diversos membros dos superiores poderes regionais e nacionais.

Victor Teixeira

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