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‘Democracia no Balcão’, por João Roberto Giacomini

Por João Roberto Giacomini – Advogado & Escritor

O bolicho de Seu Jesuíno ficava na esquina mais antiga da cidade.
Era um lugar pequeno, de porta de madeira que rangia como se estivesse irritada. Dentro, o cheiro de café misturado com embutidos, fumo de rolo e conversa de fim de tarde.

Na parede, um calendário marcava um mês que já tinha passado há anos.

Mas ninguém ali parecia se importar com o tempo. Nada acontecia que realmente mudasse a realidade.

Seu Jesuíno limpava o balcão com um pano já cansado de tantas histórias quando um carro preto parou na rua de terra batida.

Não era carro de quem vinha comprar fiado ou tomar um golinho para limpar a garganta.

Do carro desceu um homem de terno, colarinho branco, sorriso ensaiado e olhar treinado. Atrás dele, um rapaz segurando uma pasta.

— Boa tarde, Seu Jesuíno! — disse o homem, abrindo os braços como quem reencontra um velho amigo.

Seu Jesuíno levantou os olhos devagar.

— Boa tarde… senador.

O título ficou no ar como poeira iluminada pelo sol.

O senador sentou-se no banco simples próximo ao balcão.

— Vim rever os amigos. Saber como anda o povo. Afinal, estamos prestes a fortalecer a democracia — vem aí mais uma eleição. O partido me convocou para a luta novamente. Não podemos perder espaço para eles.

Seu Jesuíno colocou uma xícara na frente dele.

— O povo anda… andando.

— E a cidade?

— Sobrevivendo.

O senador sorriu.

— Estamos trabalhando muito em Brasília para melhorar a vida de todos.

Seu Jesuíno soprou o café.

— Imagino.

Do lado de fora, um cachorro latiu para um caminhão que passou levantando poeira.

O senador abriu a pasta e ofereceu a seu Jesuíno um exemplar do Código de Defesa do Consumidor, impresso pelo Senado Federal. Dentro da pasta, ao lado do livro, amontoavam-se centenas de santinhos eleitorais.

— Estamos trazendo projetos importantes. Infraestrutura, desenvolvimento, modernização administrativa…

— Vou deixar um vale de quarenta litros de combustível. Assim o senhor me ajuda a espalhar que continuo firme na luta.

Seu Jesuíno levantou a mão.

— Posso fazer uma pergunta, senador?

— Claro.

— O senhor já precisou tirar uma licença na prefeitura?

O senador piscou, confuso.

— Bem… diretamente, não.

— Já tentou abrir um pequeno negócio?

— Não exatamente.

— Já ficou seis meses esperando um papel que precisava sair em quinze dias?

Silêncio.

O assessor mexeu no celular.

Seu Jesuíno continuou, calmamente:

— Já tentou provar para o governo que o senhor existe?

O senador endireitou a gravata.

— A burocracia existe para organizar o país.

— Organizar?

Ele apontou para a rua.

— O povo aqui passa mais tempo tentando vencer papelada do que trabalhando.

O senador tentou recuperar o controle.

— Estamos simplificando processos. Criando programas. Simplificando Impostos.

— Programas? — Impostos…disse Seu Jesuíno. — O povo não precisa de programa. Precisa que parem de atrapalhar. Precisa de menos impostos.

O assessor cochichou algo no ouvido do senador.

O senador mudou de tom.

— Seu Jesuíno, o senhor sabe que o Estado existe para garantir direitos.

Seu Jesuíno se inclinou sobre o balcão.

Falou baixo.

— Engraçado… porque aqui na cidade parece que o lema é outro.

Do lado de fora, o caminhão já tinha desaparecido. A poeira ainda estava no ar.

E no silêncio do bolicho, Seu Jesuíno mexeu o café devagar e disse:

— Aqui a gente aprende cedo, senador…
democracia não é quando aparecem pedindo voto.

É quando o povo consegue viver sem pedir ou receber favores para existir!

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