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Débora Falabella: Júlia ganha status de protagonista

Entrevista – 17/11/2007

Débora Falabella: Júlia ganha status de protagonista

Débora Falabella, é bem menos extrovertida e agitada do que Júlia, sua personagem em Duas Caras. Mas na hora de demonstrar sua indignação com as críticas que já ouviu sobre a relação de sua personagem com Evilásio, de Lázaro Ramos, a atriz muda completamente.
Quando leu a sinopse, Débora não acreditou que o romance de uma menina branca com um negro ainda pudesse gerar polêmica no horário nobre. Mas se enganou. “Achei que as diferenças sociais pudessem dar pano para a manga, mas muita gente nem menciona o fato dele morar em uma favela. Ouço várias críticas porque ele é negro”, observa.
Mesmo com a constatação de que o preconceito racial é muitas vezes amenizado apenas na TV, a atriz está concentrando nessas reações sua maior fonte de inspiração para as cenas. “Se isso incomoda, o melhor é mostrar mesmo e tentar mudar essa imagem. Adoro discutir os valores da sociedade através das minhas personagens”, comemora.
Em Duas Caras você interpreta um menina rica que se apaixonada por um homem negro e favelado.
O que as pessoas comentam sobre essa história nas ruas?Quando comecei a gravar a novela, tinha uma outra idéia de como o público poderia se manifestar sobre esse relacionamento. Já interpretei em Senhora do Destino a Maria Eduarda, que se envolvia com um homem da Baixada Fluminense e vi que existe um preconceito social forte. Mas agora fiquei um pouco desapontada. Eu achei que essa questão racial não se destacaria.
Você já ouviu comentários preconceituosos pelo Evilásio ser negro? Sim, e o que mais me espanta é que muitos saíram de pessoas conhecidas e próximas à minha família. Pessoas que, se não fosse por eu interpretar uma personagem assim, não se manifestariam dessa forma comigo. É triste porque isso significa que os negros ainda sofrem e que essa história de que o preconceito acabou só está na ficção. Mas, ao mesmo tempo, isso motiva a gente, porque é muito gratificante saber que a história incomoda uma parte das pessoas. Fico muito satisfeita por poder, de alguma forma, ajudar a sociedade a repensar certos conceitos. É um outro jeito de fazer novela, diferente de tudo que já fiz na TV.
Você já fez outros personagens envolvidos em temáticas sociais. Por que esse é especial?Se não puder passar uma mensagem legal no meu trabalho, prefiro não fazer novela e me dedicar a outros projetos. Não procuro esses papéis. E isso é engraçado porque mesmo em Sinhá Moça, que era uma trama de época, eu fazia uma mulher que trabalhava isso na TV. A verdade é que, apesar de não buscar esses personagens, tive a sorte de seguir essa linha em muitos trabalhos. Em O Clone, com a questão das drogas, em Senhora do Destino com essa diferença social, a escravidão em Sinhá Moça… É bom porque exige um outro trabalho de pesquisa, de composição. E o que você está fazendo é sempre o mais especial.
Onde você buscou as referências para essa criação?A personagem tem vários lados para serem trabalhados. Esse jeito curioso e ativo de produtora eu encontrei em várias amigas minhas que trabalham também como produtoras de cinema. Muitas inclusive já se enxergam na Júlia. Para mexer com esse romance entre ela e o Evilásio, passei a observar mais as coisas ao meu redor. Você acaba encontrando relações que, por mais que sejam diferentes em vários detalhes, têm muito a acrescentar dentro do nosso contexto. Nunca paro de prestar atenção, porque estou gravando muito. Quero construir uma mocinha mais contemporânea e descolada. E acho que a tendência é que esse casal apareça muito daqui para frente. A Júlia está ganhando destaque de protagonista, apesar de não ser.
Você não reconhece a Júlia como protagonista, mas chamou ela de mocinha. Como descreve a função dela na trama?Não sei. Se a gente parar para pensar no conceito de mocinha, acho que a Maria Paula, personagem da Marjorie Estiano, tem mais ar de mocinha. Cuida do filho, foi roubada pelo cara que amava, vai tentar se vingar… Mas até agora, o romance de Duas Caras está na Júlia e no Evilásio. E mocinha sem romance é estranho. Acho que isso mostra a verdadeira intenção da novela, que é humanizar ao máximo os personagens. As novelas contemporâneas têm muito essa característica, de construir vários personagens centrais e desconstruir essa denominação de protagonista. Acho ótimo, porque me deixa mais segura.
Em que sentido?É que como a novela não está tão focada em um casal de protagonistas, a gente pode se destacar, ver a história dos personagens bem desenvolvidas, mas não carregar o peso de conduzir a trama toda. Isso dá uma aliviada na pressão de fazer novela, até porque hoje em dia tudo está muito confuso. As pessoas começam a discutir audiência já no dia do primeiro capítulo. Acho que esse jeito novo de se fazer novela dá espaço para mais profissionais, os coadjuvantes acabam se dando bem. Nem sempre os papéis marcados por essa denominação de protagonistas são os que têm mais peso no nosso currículo.
E qual é o papel mais importante da sua carreira?Até agora, O Clone foi a novela que mais me trouxe visibilidade e retorno de público. Sinhá Moça foi muito gostosa de fazer, mas era no horário das seis. Papel-título nessa faixa não é a mesma coisa que uma personagem polêmica no horário nobre. É impressionante a diferença. Quando você está na novela das oito da Globo, parece que se trata de uma outra pessoa. É bom, porque você percebe que, independente do número de audiência, as pessoas estão assistindo e comentando. Mas esse mesmo assédio me faz repensar muito a carreira na tevê. Não sei se quero isso para sempre. Prende você ao trabalho e à reclusão, já que não pode ficar se expondo. Sou muito nova, mas já fiz coisas bem legais na televisão. Acho que já posso dar uma parada e partir para outras atividades.
Que tipo de atividades?Adoro figurino. Tenho vontade de estudar mais e, quem sabe, me aventurar nessa área. Tenho um grupo de teatro com dois amigos, o Grupo 3, e pretendo dar um gás nele também. Teatro é a base da minha carreira. Me esforço muito para não ter que abandonar os palcos e a tevê. até porque se eu tiver de escolher entre um ou outro, fico com os espetáculos. O ator precisa se renovar, respirar um pouco outros ares. E no teatro sou a dona do meu trabalho, posso variar o quanto quiser. A televisão prende um pouco alguns atores a determinados perfis.
A Júlia de Duas Caras lembra muito a Maria Eduarda, sua personagem em Senhora do Destino, também do Aguinaldo Silva. Isso preocupou você antes de começar a gravar?As duas têm semelhanças sim, mas não chegam a marcar demais os dois papéis. Quando li a sinopse cheguei a pensar dessa forma, mas se analisarmos a personalidade da Júlia, ela se parece muito mais com a própria Sinhá. Pelos ideais revolucionários e essa aproximação com o que foge à tradição da família. Tem gente que reclama, mas eu acho bacana poder diferenciar personagens com tantos traços em comum. Tenho essa preocupação de criar um padrão de comportamento diferente para cada papel. São mocinhas com características distintas e, cada uma, com o seu charme.
Início juvenil Débora Falabella estuda teatro desde os 14 anos, mas só aos 20 conseguiu uma oportunidade para estrear na tevê. Indicada a um produtor de elenco da Globo, a atriz fez testes para o banco de talentos da emissora e, pouco tempo depois, foi chamada para concorrer a uma vaga na temporada de 1999 de Malhação. Acabou se dando bem. Mas a experiência, segundo a própria Débora, não foi das melhores. “Não me adaptei ao folhetim”, resume, sem dar mais detalhes.
Depois disso, foi escalada para uma participação no seriado Mulher e, poucas semanas depois, arrumava as malas para se mudar para a Argentina. A atriz foi convidada para integrar o elenco da última temporada da novela Chiquititas, exibida pelo SBT. “Foi uma das melhores experiências da minha vida. Morei fora e aprendi a fazer TV sem a pressão das críticas. Ninguém olha muito para as produções infantis”, justifica.
De volta à Globo, Débora fez Um Anjo Caiu do Céu e foi logo escalada para o que se tornaria o seu papel preferido em novelas. “A Mel de O Clone mudou minha vida. Na época, me chamavam de maconheira e Melconha nas ruas”, lembra. Integrou o elenco de Agora É que São Elas e Senhora do Destino e das minisséries Um Só Coração e JK antes de ganhar sua primeira protagonista, em Sinhá Moça. “O bacana de protagonizar uma novela das 18h é que o elenco é sempre menor e a mocinha acaba contracenando com todo mundo”, recorda.
Todos os campos Débora não esconde que, apesar do currículo já extenso na TV, prefere atuar em peças e filmes. E tem orgulho da história que está construindo no cinema. Na lista de longas que contaram com a presença da atriz estão títulos como Lisbela e o Prisioneiro, Cazuza ¿ O Tempo Não Pára, A Dona da História e O Primo Basílio, entre outros. “Sei que tenho um contrato e gosto de trabalhar em novelas. Mas, se eu tiver que desistir dos outros projetos, largo a televisão”, afirma, com segurança.
Além de gravar Duas Caras, Débora está trabalhando em cima de dois espetáculos que devem tumultuar sua agenda no próximo ano. Continente Negro tem estréia prevista para janeiro no Rio de Janeiro. E, em São Paulo, onde mora, a atriz deve subir aos palcos com a reestréia de A Serpente em temporada popular. “Tenho tantos projetos paralelos que se eu fizesse só a novela, seria como se estivesse de férias”, brinca.
Trajetória televisiva Malhação (Globo, 1998) – Antônia.Chiquititas Brasil (SBT, 2000) – Estrela.Um Anjo Caiu do Céu (Globo, 2001) – Cuca.O Clone (Globo, 2001) – Mel Ferraz.Agora É Que São Elas (Globo, 2003) – Léo.Um Só Coração (Globo, 2004) – Raquel Rosemberg.Senhora do Destino (Globo, 2004) – Maria Eduarda.JK (Globo, 2006) – Sarah (jovem).Sinhá Moça (Globo, 2006) – Sinhá Moça.Duas Caras (Globo, 2007) – Júlia.  

Fonte: TV Press

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