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Da ficção à realidade. Dos sonhos a prostituição

Garotas – 20/08/2007

A frustração com um relacionamento amoroso é a principal razão apontada por garotas de programa como a razão de elas terem optado pela prostituição como forma de trabalho. Algumas dizem ter enfrentado essa frustração depois de casadas. Outras afirmam que entraram na profissão por virem seus sonhos frustrados antes mesmo de subir ao altar.
Muitas personagens dessas histórias de amores desfeitos e sonhos destruídos usam nomes fictícios para oferecerem seus serviços nos classificados de jornais e sites da internet. A folha ouviu algumas dessas histórias de profissionais do sexo que atuam em Dourados.
Além da semelhança nas histórias de relacionamentos fracassados, todas têm pelo menos mais uma coisa em comum: são jovens e com um padrão de beleza acima da média.
Quase todas as garotas vieram de outros estados ou de outras cidades de Mato Grosso do Sul. Poucas se arriscam a trabalhar na mesma cidade da família. É o caso das paranaenses M.C.S, a “Kelly”, 25 anos, prostituta, segundo ela há pouco mais de dois anos; e L.S.B, que faz questão de ser chamada de “China”, 21 anos e garota de programa desde os 17.
Kelly conta que foi casada por quatro anos e do matrimônio, diz, “de bom mesmo só casal de filhos”, que hoje estão sendo criados pelos pais. “Tive muitos sonhos com meu ex-marido no início de nossa união, depois foram só pancadas e mais pancadas”, relembra, acrescentando que “cansada das humilhações”, largou o marido e retornou para a casa dos pais levando na mala as roupas dos filhos e dela. “Deixei tudo para trás, inclusive os perfumes que tinha”, disse.
“Não pensava que seria tão fácil entrar na prostituição”, diz Kelly. Segundo ela, bastou um “empurrãozinho” de uma amiga de infância, que morava em Foz do Iguaçu. “Encontrei com ela em minha cidade e depois fomos para Foz do Iguaçu para fazermos compras; lá ela disse que trabalhava numa boate e que faturava em média de 500 a 800 reais por semana. Inicialmente levei um choque com a notícia, mas, em seguida, acabei aceitando o convite dela para conhecer a casa onde ela trabalhava; logo que entrei fui abordada um dos clientes que me ofereceu 150 reais pelo programa; aceitei e não parei mais”, resume a paranaense.
Kelly diz, também, que seus pais não sabem que ela é prostituta. Para os pais, ela trabalha para uma empresa de representação comercial de Curitiba e que a profissão exige muitas viagens e dias e dias fora de casa.
A segunda paranaense, “China”, que contou que só teve uma paixão na vida, aos 14 anos, que foi o seu primeiro namorado, o suficiente para fazê-la “entrar na vida”.  Ela conta perdeu a virgindade com o namorado. “Na época era uma boba apaixonada por ele que tinha 18 anos; com o pretexto de ir para o tiro de guerra (Exército) na capital, ele nunca mais voltou para mim”, disse, com olhar no infinito.
China disse que depois desta frustração, tentou arrumar um novo amor, mas, segundo ela, todos os homens que se aproximavam dela queriam “apenas se divertir com sexo”, foi quando descobriu que poderia ganhar dinheiro e desde então parou somente uns meses, quando ficou grávida de um “cliente” em uma “zona” na cidade de Maringá.
“No início até pensei em fazer aborto por orientação das colegas da boate, mas decide manter a gravidez e hoje tenho um lindo filho de dois anos, que mora com um irmão no Paraná; vejo ele a cada dois ou três meses”, conta, ressaltando que casamento continua fora dos seus planos.
J.M.M, “Carol”, é sul-mato-grossense, tem 28 anos, apesar de aparentar 18. Ela contou à Folha que faz programas há cerca de oito anos, e que “entrou no ramo” poucos meses depois de acabar seu casamento, do qual veio uma filha, hoje, com dez anos.
Assim como muitas das colegas ela conta que entrou na prostituição por influência de uma amiga por necessidade. “Na minha cidade não tinha trabalho; e quando fui buscar um na cidade de minha amiga, acabei me prostituindo, porque a casa dela era constantemente freqüentada por homens, a maioria deles conquistados em bares, lanchonetes e em bailes nos finais de semana”, Sobre o seu casamento é taxativa: “não quero falar sobre isso…! Sofri muito nas mãos daquele cara”, disse. Já sobre a vida que leva fala com naturalidade: “na noite, bebo o que quero; fumo cigarros dos bons; danço e faço estripe; transo; tenho orgasmos às vezes e ainda defendo o meu dinheiro”, finaliza.
N.F.L, a “Bebel”, de 22 anos, também veio do Paraná e trabalha fazendo programas há cerca de cinco anos. Segundo ela,  a virgindade foi perdida durante um “bailinho” no bairro da cidade onde residia, “depois de dançar e beber vinho a noite toda; na cantada que ele me deu ao pé de ouvido, não pensei duas vezes e fui para a casa dele e lá tudo aconteceu. Foi doido, mais foi bom”.
Bebel é outra que não pensa, pelo menos por enquanto, em casamento; pois, segundo ela, “todos os homens são vulneráveis e sem-vergonhas; embora alguns deles sejam amorosos, há também aqueles que são violentos”.
 “A maioria dos homens que buscam a minha cama falam mal dos relacionamentos deles com suas esposas ou namoradas. Isso me deixa p…da vida, no entanto, tenho que vender carinho e dar atenção em seus lamentos”, diz a profissional do sexo.
Bebel diz, sem pestanejar, que adora a vida que escolheu. “Dia desses fui para a minha cidade e encontrei com algumas amigas de infância que já estão casadas. Todas elas, assim como os homens, reclamam de seus maridos, então repórter, não tem essa de amor ou casal perfeito, não”, resume.
 
Por: Waldemar Gonçalves – Russo
 

Fonte: Folha de Dourados

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