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Choro pelo Irã, choro pela humanidade: A crapulagem dos que normalizam a barbárie

Inêz Oludé, artista plástica e poeta –

Li hoje uma manchete que me gelou a alma. Não pela novidade, mas pela confirmação de que o jornalismo brasileiro atingiu um novo patamar de miséria moral. “Ninguém vai chorar pelo Irã”, estampou o Estadão, como quem sentencia quem merece ou não ser pranteado neste mundo. Como quem define, de cima de um púlpito podre, quais vidas importam e quais podem ser reduzidas a escombros sem que uma lágrima seja derramada.

Trata-se, leitoras e leitores, de uma declaração de psicopatia travestida de análise geopolítica. Porque só um psicopata, desses que habitam os manuais de psiquiatria, é incapaz de sentir compaixão diante da dor alheia e ainda a transforma em manchete de jornal.

Mas eu vou chorar, sim.Faço parte dos “alguéns” Vou chorar pelo Irã como chorei por cada país agredido pela sanha imperialista que, desde 1946, transforma o mundo num imenso cemitério. Chorei por Hiroshima e Nagasaki, varridas do mapa por bombas atômicas que incineraram civís como se fossem formigas. Chorei por Dresden, reduzida a cinzas numa noite de fogo que matou milhares de refugiados e crianças. Chorei pelo Vietnã, pelo Iraque, pela Líbia, pela Síria, pelo Afeganistão. Chorei pela Palestina, esquartejada dia após dia diante dos olhos cúmplices do Ocidente.

E agora, choro pelo Irã.

Choro por um país de história milenar, cuja arquitetura deslumbrante já foi poesia feita em pedra e azulejo. Choro por um povo que tem o direito de viver em paz, como qualquer outro povo neste planeta. Choro pelas 85 crianças e professoras assassinadas covardemente dentro de uma escola, vítimas da insanidade mental de homens que transformam a geopolítica num ringue de barbárie. Choro pelos civis que viram números, estatísticas, “danos colaterais” na frieza dos relatórios de guerra.

Choro, sobretudo, pela humanidade que perdeu o rumo outra vez e regrediu aos anos 40, quando o mundo assistiu ao horror e, em muitos casos, aplaudiu.

O que me estarrece, no entanto, não é apenas a violência dos que empunham as armas. É a violência dos que empunham as canetas e teclados para justificar o injustificável. É ver jornalistas brasileiros, desumanizados, coisificados pela ideologia, festejarem a destruição de países que ousam não se curvar aos ditames de Washington. É vê-los babando o ovo de políticos americanos, como se os EUA fossem uma entidade divina e não um império em decadência moral.

Falo de um país que hoje é liderado por um sujeito condenado em 34 processos judiciais, um homem cuja principal especialidade, além de fraudes e falências, é frequentar os corredores sombrios das listas de Epstein, aquele mesmo, o amigo de poderosos que “suicidaram” antes de contar o que sabia. E falo de um primeiro-ministro israelense cuja especialidade é explodir corpos de crianças em praças públicas, chamar aquilo de “defesa” e ainda ser recebido com tapetes vermelhos por governantes que se dizem civilizados.

E esses jornalistas, esses “necrojornalistas” de plantão, têm a pachorra de dizer que ninguém vai chorar pelo Irã?

Pois saibam: o choro que dedicamos às vítimas do Irã é o mesmo que dedicamos às vítimas de Gaza, da Ucrânia, da Síria, do Iêmen. É o mesmo que dedicamos às crianças mortas por balas perdidas nas favelas brasileiras, enquanto a pauta da segurança pública vira ringue eleitoral. É o luto por uma humanidade que insiste em se autodestruir enquanto meia dúzia de abutres lucra com a desgraça.

Vocês, jornalistas, que normalizam o genocídio, que relativizam o fascismo, que tratam a morte de inocentes como peça de xadrez geopolítico, por vocês, confesso, não chorarei. Não perderei uma lágrima com quem trocou a ética pela militância da morte, a verdade pelo alinhamento automático aos interesses do império.

Mas pelo Irã, sim. Pelas crianças iranianas, pelas professoras, pelos civis que só querem viver. Pelos mortos de todos os lados que não escolheram ser alvos. Pela memória de Hiroshima, Nagasaki, Dresden e de todos os lugares onde a humanidade se perdeu de si mesma.

Chorarei até que o choro se transforme em memória. E até que a memória nos obrigue, um dia, a parar de repetir os mesmos erros.

Porque enquanto houver um só jornalista disposto a dizer que “ninguém vai chorar” por um povo bombardeado, haverá motivo para lágrimas. E para muita raiva.

Este artigo é dedicado a todas as vítimas da insanidade , de ontem, de hoje e de sempre.

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