Caos na saúde: Interior de MS viaja mais para se internar do que há dez anos

Três polos concentram 57,5% das internações do estado, o maior valor da série; região de Naviraí, citada no plano de Azambuja em 2014, continua sem alta complexidade, a 155 km do serviço mais próximo; promessa de 2014 para conesul segue no zero
O plano de governo com que Reinaldo Azambuja (então no PSDB, hoje no PL) venceu a eleição de 2014 dava nome ao problema que prometia resolver: “ambulanciaterapia”, o “excesso de tratamento fora de domicílio registrado no Estado”. A promessa era “disponibilizar atendimento público de qualidade mais perto das pessoas, onde elas vivem, com efetivo viés de regionalização da oferta de serviços”.
Doze anos depois, o paciente do interior de Mato Grosso do Sul viaja mais, não menos. É o que mostram os dados do SIH, o sistema de internações do SUS, confrontados com os quatro planos de saúde do ciclo, Azambuja 2014 e 2018 e Eduardo Riedel (PP) 2022 e 2026.
Levantamento da reportagem isolou 22 promessas, diagnósticos e balanços verificáveis nos quatro planos de saúde do período, Azambuja 2014 e 2018, Riedel 2022 e 2026, e os confrontou com as bases federais CNES, SIH, SIA, Siops e Siconfi. Esta segunda reportagem trata da rede prometida ao interior. A primeira tratou do financiamento; a terceira, do mandato de Riedel.
“Ambulanciaterapia”
Um indicador direto é a fatia das internações do estado feitas em Campo Grande, Dourados e Três Lagoas, os três polos. Se a regionalização funciona, a fatia cai.
Ela não caiu. Os três polos respondiam por 54,6% das internações em 2015, recuaram a 53,7% em 2019, subiram a 56,5% em 2022, na pandemia, e chegaram a 57,5% em 2025, o maior valor da série.
A capital oscilou pouco: 39,7% em 2015 e 40,5% em 2025, com queda de 1,1 ponto no mandato de Riedel, de 41,6% para 40,5%. Quem cresceu foram Dourados (de 9,8% para 11,3%) e Três Lagoas (de 5,1% para 5,7%), em parte, o desenho da regionalização funcionando. O que o dado não mostra é o interior deixando de viajar: a fatia das internações fora dos três polos é menor hoje do que em 2015.
O plano de reeleição de Azambuja, em 2018, deu o problema por resolvido:
| “Agora cada uma das regiões do Estado consegue realizar os atendimentos médicos e hospitalares reduzindo a dependência com as cidades de maior porte, como Dourados e Campo Grande.” Plano de governo de Reinaldo Azambuja, 2018 |
Quando a frase foi escrita, o dado disponível não a contrariava: entre 2015 e 2019 a dependência dos polos havia recuado. Os anos seguintes a desmentiram.
Uma região em três
O trecho mais concreto do plano de 2014 cita três territórios: “Investir para regionalizar a Saúde, implantando e melhorando unidades hospitalares de alta e média complexidade no extremo-sul, centro-norte, região oeste”.
| Território prometido em 2014 | Região de saúde | Alta complexidade: 2015 → jul/2026 | Resultado |
| Extremo-sul | Naviraí | 0 → 0 | Não cumprida |
| Centro-norte | Coxim | 0 → 3 | Cumprida |
| Região oeste | Corumbá | 3 → 4 | Cumprida de forma residual |
Fonte: CNES/Datasus. A correspondência entre os termos do plano e as regiões de saúde é interpretação da reportagem, com base na geografia dos territórios citados.
A região que ficou de fora é a mais distante do estado. Naviraí reúne sete municípios e 129.142 habitantes, a uma distância média de 155,5 km, em linha reta, do serviço de alta complexidade mais próximo dentro de Mato Grosso do Sul, a maior do estado.
Tamanho não explica a omissão. Coxim, a menor região do estado, com 77.963 habitantes, saiu de zero para três habilitações, duas em 2017 e uma em 2021, no governo Azambuja. Em média complexidade, o extremo-sul avançou: Naviraí passou de 4 para 9 habilitações. O que não chegou foi o serviço que obriga o paciente a viajar.
Três mandatos, três ritmos
| Mandato | Média complexidade | Alta complexidade | Municípios com alta complexidade |
| Azambuja I (dez/2015 → dez/2018) | 214 → 237 (+23) | 94 → 115 (+21) | 7 → 8 |
| Azambuja II (dez/2018 → dez/2022) | 237 → 244 (+7) | 115 → 140 (+25) | 8 → 11 |
| Riedel (dez/2022 → jul/2026) | 244 → 360 (+116) | 140 → 155 (+15) | 11 → 11 |
Habilitações do CNES. A janela do primeiro mandato de Azambuja tem três anos porque a série pública começa em dezembro de 2015. Fonte: CNES/Datasus.
O segundo mandato de Azambuja foi o mais lento em média complexidade: sete habilitações em quatro anos, menos de um terço do que o primeiro somou em três. Parte da explicação é a pandemia. Em 2020 e 2021, o cadastro nacional foi reorientado para leitos de Covid, a média complexidade do estado recuou de 247 para 241 habilitações, e cinco municípios do interior, Naviraí, Jardim, Amambai, Maracaju e Aparecida do Taboado, ganharam e depois perderam uma habilitação de UTI.
O mandato de Riedel é, em número absoluto, o mais rápido. Mas 56 das 116 novas habilitações de média complexidade vêm de dois programas federais: o Mais Acesso a Especialistas (42, registradas no CNES de Mato Grosso do Sul a partir de dezembro de 2025) e o Programa Nacional de Redução de Filas de Cirurgias Eletivas (14).
Descontados os dois, restam 60 em três anos e meio, ainda o maior crescimento do ciclo. Os mandatos anteriores também receberam linhas federais, que o levantamento não isolou.
Na alta complexidade fora dos três polos, o indicador mais próximo do que os quatro planos chamam de regionalização, Azambuja saiu de 7 para 21 habilitações. Riedel manteve 21. O que aconteceu com a promessa específica de 2022 é o assunto da terceira parte.
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