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Cana-de-açúcar produz menos efeito estufa que o gado

Meio Ambiente – 21/10/2009

Um estudo do Cena (Centro de Energia Nuclear na Agricultura), instituição ligada à respeitada USP (Universidade de São Paulo) aponta que o cultivo da cana-de-açúcar gera menos gases poluentes que provocam o efeito estufa que a criação da gado. De repente, a cana, tida como vilã da agressão ao meio ambiente, pode virar “mocinha” e a criação de gato, sempre tida como atividade menos agressiva ao meio ambiente, pode virar a “vilã”. Pelos estudos da equipe da USP, por exemplo, plantar cana-de-açúcar em áreas de pastagens degradadas é uma boa forma de reter mais carbono no solo. “Mas isso tem de ser muito bem feito. Não adianta nada trocar o pasto por cana e, ao mesmo tempo, empurrar o gado para a floresta e provocar mais desmatamento”, diz. Mas, para isto é preciso utilizar técnicas modernas de colheita, sem queimadas. De acordo com o estudo, que será publicado na edição de novembro da revista científica “Scientia Agrícola”, a agropecuária vira vilã das emissões de gases no Brasil. O peso do setor agropecuário nas emissões de gases de efeito estufa do Brasil é muito mais relevante do que os dados oficiais mostram. Entre 1994 – ano do último inventário oficial de emissões brasileiras – e 2005, o peso da agricultura e da pecuária aumentou 26,6%. No mesmo período, a importância relativa do desmatamento, sempre considerado o grande vilão nacional quando o assunto é piora do efeito estufa, cresceu apenas 11%. “O Brasil está mudando seu perfil de emissões. Neste contexto, a pecuária começa a se tornar uma grande vilã”, afirma Marcelo Galdos, do Cena. Os dados do estudo do Sena foram apresentados na sexta-feira em São Paulo. O grupo do Cena atualizou os dados setoriais apresentados em 1994. O governo federal está atualizando esse inventário, tendo como ano-base 2000, mas a publicação do material ficou só para o ano que vem. Em termos relativos, o setor de “processos industriais” foi o que mais cresceu. Entre 1994 e 2005, a taxa é de 73,6%. “Mas cuidado com os números”, diz Galdos. “Mesmo com o crescimento, em termos absolutos, o peso industrial ainda é baixo.” PUM VIOLENTO Nas estimativas feitas pelo grupo da USP, a fermentação que ocorre no estômago dos bois é uma das maiores responsáveis pela emissão dos gases do efeito estufa do setor. O gado emite metano, gás-estufa 21 vezes mais potente que o dióxido de carbono (CO2) na capacidade de reter na atmosfera o calor irradiado pelo planeta. Mas o manejo errado dos solos, sempre muito revolvidos, tem impacto quase tão grande quanto o dos bois. “No caso da pecuária, muitas vezes se fala na questão do confinamento [dos animais], mas nem é muito isso”, avalia Galdos. Segundo o pesquisador, o caminho para o setor diminuir suas emissões está muito mais no campo técnico. IGNORADA A importância do peso da agropecuária nas emissões brasileiras é ignorada até pelo Ministério do Meio Ambiente. Na apresentação feita ao presidente Lula na terça-feira passada, para tentar alinhavar uma proposta para a reunião do clima em Copenhague (Dinamarca) em dezembro, a importância da agropecuária é considerada praticamente estável no período que vai de 1994 a 2020. Nenhuma medida foi proposta para diminuir de forma efetiva as emissões da pecuária e da agricultura. Os alvos foram o desmatamento e o setor energético. Pelo estudo da USP, esse último, no mesmo período, cresceu apenas 4,3%.
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Fonte: Folha Online

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