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‘Caminho sem volta’, por Alberto Dines

Crise no Congresso – 25/07/2009

CONGRESSO EM CRISECaminho sem volta
Por Alberto Dines
 O presidente Lula pediu que a sociedade brasileira não confunda os crimes – uma coisa é nepotismo, outra é lobby, uma coisa é corrupção, outra é assassinato.
O conteúdo das gravações das conversas de Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, é dinamite pura. À primeira vista, parece inocente, mais um dos milhares de casos de nepotismo. Porém uma avaliação mais detalhada das transcrições evidencia prevaricação e quebra de decoro. A parte mais explosiva das conversas não está no pedido de emprego para o namorado da neta, a bomba está na conversa de Sarney pai com Sarney filho congratulando-se pela concessão de mais uma repetidora de TV para o conglomerado de mídia da família, um dos maiores do Nordeste.
Um congressista não pode acumular interesses – ou serve ao Estado ou serve aos seus negócios. Um legislador que supervisiona concessões não pode ser simultaneamente concessionário de um serviço público.
A alegre conversa captada pela Polícia Federal comprovou uma situação ilícita e inconstitucional. O chefe do Legislativo está usando o seu imenso poder para beneficiar-se política e materialmente.
A imprensa não priorizou até ontem este grave delito porque José Sarney quando envergava a faixa presidencial inventou a trapaça de trocar apoios por concessões de rádio e TV aos congressistas. Calcula-se que metade dos parlamentares esteja na mesma situação delituosa.
Acabar com a farra das concessões de radiodifusão poderia sanear definitivamente a estrutura da nossa mídia eletrônica – mas o governo teria coragem de enfrentar o ressentimento de metade das duas casas legislativas? Claro que não.
Os conglomerados de mídia seriam capazes de fazer uma cruzada que poderia quebrar o seu poder? Claro que não.
A gravação das conversas telefônicas dentro do clã Sarney teve amparo legal, ilegal foi o vazamento de informações protegidas pelo segredo de justiça. No entanto, ninguém discute esta questão. É uma formalidade e a sociedade brasileira tem absoluto desprezo pelas formalidades.
O processo de alijar Sarney da presidência do Senado é irreversível, mas o vale-tudo pode levar a uma perigosa ruptura. Constantemente provocada e desafiada, a mídia agora já não tem condições para pisar no freio.

Fonte: Observatório da Imprensa

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