“Antes tarde, do que nunca” – diz o vulgo. Caetano já foi um militante pertinaz e contributivo da chamada esquerda odara-cirandeira-namastê – uma das muitas vertentes da esquerda identitária e “desbundada” (expressão corrente dos anos 1980).
Mas agora, aos 83 anos, lúcido e vibrante, o gênio musical baiano parece fazer autocrítica acerca do antigo incentivo à ideologia de gênero que tanta divisão trouxe para a esquerda marxista.
Vejam abaixo, um trecho da entrevista – de segunda-feira passada – de Caetano ao jornal El País de Madri.
“Quando escrevi ‘Verdade Tropical’ [sua autobiografia, publicada em 1997], disse que a esquerda precisava dar mais atenção às questões raciais, sexuais e comportamentais. Mas hoje, me parecem excessivas a racialização, a sexualização e a ênfase em questões de gênero. Isso gera muita confusão”, afirmou o gênio baiano.
A “confusão” referida por Caetano é deliberada, fabricada pelas Universidades e think thanks (tudo financiado por plutocratas poderosos) para combater e desmontar a consciência dos explorados e humilhados do sistemão produtor de mercadorias.
O capitalismo neoliberal, para garantir sua sobrevivência, precisa administrar e neutralizar as forças que o desafiam. O que sua máquina de produção de hegemonia faz é se apropriar da linguagem vibrante da resistência, destilar seu veneno crítico e devolvê-la em frascos higienizados, etiquetados como “diversidade”, “inclusão” e “empoderamento”.
Que bom que Caetano prestou a atenção nesta armadilha e agora a denuncia com grande lucidez. Aos 83, Caetano prova que é um garoto de alma revoltada, como o fora na juventude.
Dá-lhe, baiano velho de guerra!



