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Bosco Martins: ‘A crise Venezuelana e os riscos eleitorais para Lula’

Bosco Martins – escritor e jornalista –

O ataque dos Estados Unidos à capital da Venezuela, com o objetivo de capturar Nicolás Maduro, não foi surpresa para observadores da geopolítica regional. O episódio, porém, introduz um novo e delicado elemento de incerteza na sucessão presidencial brasileira de 2026.

Até aqui, a defesa da soberania nacional funcionou como ativo político para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A reação ao tarifaço imposto por Donald Trump recuperou um sentimento nacionalista que remete à histórica campanha “O Petróleo é Nosso”. Agora, no entanto, o contexto mudou. A crise venezuelana coloca o governo brasileiro diante de uma sinuca de bico: a soberania continua sendo princípio, mas seu manejo pode gerar custos eleitorais.

Nos bastidores do Palácio do Planalto, aliados reconhecem que a relação histórica de Lula e do PT com o chavismo tende a ser explorada pela oposição em 2026. Embora avaliem como coerente a condenação brasileira à ação militar norte-americana, admitem que os abusos do regime de Maduro levam parte da opinião pública a ver com simpatia a iniciativa de Trump.

Mais do que um debate entre direita e esquerda, a Venezuela vive há anos sob um regime de caráter autoritário. Maduro governa há mais de uma década, sem transparência eleitoral e com repressão sistemática aos opositores. O resultado foi o êxodo de cerca de 8 milhões de venezuelanos. A reação de parte da população de Caracas indica menos entusiasmo com a guerra e mais o desejo por uma transição democrática pacífica.

Diante do cenário, a Secretaria de Comunicação da Presidência foi acionada para desenhar uma estratégia de resposta aos ataques da oposição, que acusa o PT de conivência com o regime venezuelano desde os tempos de Hugo Chávez. A avaliação interna, contudo, é clara: o discurso da soberania, que funcionou no embate comercial com os EUA, não terá o mesmo efeito agora.

A crise soma-se a outros desafios do governo Lula: dificuldades de governabilidade no Congresso, o debate sobre segurança pública, a ofensiva contra o Supremo Tribunal Federal e uma cobertura midiática frequentemente desorientada em relação ao interesse nacional.

Dados do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) ajudam a dimensionar o problema. Em 2024, cerca de 90% dos brasileiros declararam ter visão negativa de Nicolás Maduro, e um terço avaliou que o Brasil mantinha proximidade excessiva com a Venezuela. Embora o governo brasileiro não reconheça a reeleição de Maduro, retomou relações diplomáticas e evitou assinar documento do Mercosul que poderia ser interpretado como apoio a uma ação militar dos EUA.

O sinal de alerta está ligado no núcleo político do governo e na estratégia eleitoral de 2026. A linha dominante é uma atuação firme do ponto de vista institucional, sem defesa política de Maduro. No plano geopolítico, Lula deve manter o diálogo com China e Rússia para conter a influência dos EUA na região, mas sem comprometer a relação pragmática construída recentemente com Washington.

Em um país polarizado, a crise venezuelana amplia a imprevisibilidade do processo eleitoral brasileiro. Em política, nada é estático — e 2026 promete ser um ano de tensão permanente.

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