19/09/2019 07h42 – Por: Folha de Dourados

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Por Victor Teixeira

Segue pendendo a discussão sobre se um dos filhos de Jair Bolsonaro pode ser nomeado embaixador do Brasil nos Estados Unidos sem provas de estar em forma para tão nobre e desafiadora função. Agora a devastação causada por mãos humanas à Amazônia também torna-se intensa o bastante para fazer soerguer inclusive diante do campo de visão da comunidade internacional a congruência prática entre o que prometeu para captar o voto popular majoritário e o que está, após conseguí-lo, fazendo em favor do acesso de cada brasileiro às riquezas aqui produzidas e às benesses forasteiros de que complementarmente dependemos.

A formação no Instituto Rio Branco é carregada como grande trunfo previamente adquirido por todos os que assumiram a embaixada do Brasil nos Estados Unidos desde que os militares restituíram aos civis o poder democraticamente elegível. No lugar de tão arraigada prova de prontidão, Eduardo Bolsonaro, deputado federal presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara, surge como opção principalmente por ser filho do incumbente chefe de Estado, com um possível adicional respaldo em um pretérito intercâmbio em solo americano onde fritara hambúrgueres. A maioria dos ministros do STF vêm há onze anos livrando de punições por nepotismo enredos regionais envolvendo nomeações para cargos políticos (como é classificada a liderança de ministérios federais, secretarias municipais e estaduais e no que não se tem claramente decidido incluir as chefias diplomáticas) de parentes de mandatários eletivos.

Mas um parecer de técnicos da Consultoria Legislativa do Senado, ramo do Congresso onde pretendentes a embaixador são sabatinados antes de sua nomeação ser decidida, enquadrou o oferecimento desse tipo de atribuição a Eduardo como irregular em tal sentido. Como uma parcela do agora nascido descontentamento entre partes desta seção do Legislativo e da Câmara dos Deputados com o veto presidencial a uma grande extensão, ameaçadora ao combate ao crime, da nova lei de abuso de autoridade, há também no plenário da repartição quem se disponha a negar votos beneficentes a dita troca de comando diplomático debilitante à isonomia esperada para os posicionamentos do Brasil como ator geopolítico. Caso se materialize, uma derrota nessa questão para Bolsonaro e Trump, conivente com a proposta, dispensará novas contestações públicas do modo como conduzem suas nações.

Para o líder brasileiro a perda dessa batalha representará uma onda a menos de repúdio internacional a sua gestão e consequente risco à fiabilidade de seus planos para coibir na política e na economia crônicos déficits de produtividade e obediência à lei. Suas primeiras reações à realidade da conservação da Amazõnia atraem turbulências satisfatoriamente intensas para que tudo seja feito buscando-se impedir que se repitam.

Distinguindo seu trabalho do que é feito por organizações independentes apenas nas metodologias utilizadas e obviamente na exatidão dos dados, o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) também captou um novo pico de desmatamentos. A nova temporada de remoção da cobertura vegetal nativa criara um cenário suficientemente atrativo aos maus julgamentos de grandes lideranças políticas e meios de comunicação internacionais, logo reforçado pelo fogo. Renegando a veracidade de registros estatísticos com procedência internacionalmente referendada e também apontando precipitadamente culpados pelo fogaréu subsequente e difamando um dos governos forasteiros envolvidos no financiamento do cuidado com as matas, Bolsonaro não contribui para a nitidez dos horizontes através dos quais seja possível observar que a responsabilidade pelo vandalismo ambiental não abrange só o novo regime.

Não fomos postos diante de um inédito abandono dos compromissos com a integridade do bioma, ao contrário do que diplomática e jornalisticamente é dito às massas situadas fora daqui. Só se encontra o real panorama de como está e ficará a disponibilidade da Amazônia para as necessidades humanas de matérias-primas vivas e inanimadas para seus bens de consumo e condições climáticas amigáveis à exploração delas mediante a análise do cenário atual e do que tem acontecido há décadas em relação a essas práticas predatórias humanas, à recomposição da biodiversidade assim perdida, ao enquadramento jurídico dos algozes da floresta e ao oferecimento às populações locais de capacitações que lhes permitam exercer a agricultura, a pecuária ou a mineração produzindo mais e degradando menos o ambiente verde. Mas a atratividade para os holofotes foi conquistada por um posicionamento presidencial que impulsionara para fora do dito órgão oficial seu então diretor incluindo objetivos números do cotidiano ecológico aferidos pelo departamento no leque de eventuais crônicos usos oportunistas da máquina pública, explicara as queimadas explorando sem autoridade tanto a inicial teoria de que foram geradas por ONGs com intenção de sabotar o emergente governo quanto a possibilidade de serem um feito de senhores do agronegócio e acusara a Noruega, que financiava o Fundo Amazônia juntamente com a Alemanha, de falso moralismo ao usar um vídeo de infrações ambientais acontecidas na Dinamarca.

As mencionadas manobras e falas, de impacto mais imediato sobre a opinião pública, se materializam justo enquanto um acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia está prestes a deslanchar após 20 anos de negociações. Logo agora que têm um maior potencial lesivo à abertura do Brasil para o mercado mundial. Chamando Bolsonaro de mentiroso, atacando-o mediante imagens de incêndios pretéritos na Amazônia e tendo suas intenções subestimadas por lideranças políticas da Irlanda que viram nelas o único estímulo para a postura crítica do primeiro-ministro (taoiseach, em irlandês) Leo Varadkar relativa à política ambientalista de Bolsobaro, o presidente francês Emmanuel Macron mostrou sua propensão a cooptar outros governantes e o setor agropecuário regionais em atos para impedir que seja ratificada no Parlamento Europeu a permissão para a concorrência de produtos primários sul-americanos com a produção interna.

Com seu nunca antes demonstrado interesse em liquidar vícios da política e da economia que impedem o país de alçar voos mais amplos o atual líder nacional atraiu maioria eleitoral suficiente para lhe permitir ascender ao cargo. Lhe convêm tanto quanto a seus antecessores deparar-se com freios a atitudes capazes de desviá-lo das esperanças de evolução no modo como o Estado e o mercado obtêm e tratam os recursos humanos e naturais. Fora de nossas fronteiras também há olhos centrados na possibilidade de Bolsobaro representar mais do mesmo, não se podendo descartar que com intuito de se aproveitarem dela em benefício próprio.

Victor Teixeira

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