Beto Lima

Por Edson Moraes –

Assim como não há barreira capaz de impedir o avanço do tempo, a criação artística é também o impulso irrefreável que bebe na fonte inesgotável e libertária de possibilidades.

Esta poderia ter sido uma comparação poética ajustada para explicar Beto Lima e sua prodigiosa inventividade. Contudo, a melhor definição para um artista plástico desse quilate só poderia ser pinçada por outro artista plástico com lugar de honra nesta mesma dimensão: Humberto Espíndola. É ele quem desenha com suas palavras, na tela do tempo, esta alegórica tradução de Beto Lima: “Ele conseguiu fugir da data, suas obras serão contemporâneas em qualquer tempo”.

É sobre a obra deste excepcional criador que a Quyquyho Produções realizou o documentário “Beto Lima – Um Artista e seu Tempo”, um projeto de audiovisual financiado pelos recursos da Lei Aldir Blanc (LAB) e com o apoio da Secretaria de Cultura e Turismo de Campo Grande (Sectur), Fundo Municipal de Investimentos Culturais (FMIC), Prefeitura e Governo Federal.

Com produção executiva de Dalila Saldanha e a curadoria de Humberto Espíndola, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA), o projeto tem sua data de lançamento agendada para o próximo domingo, 04. Embora tenha morrido prematuramente, em 25 de janeiro de 2003, dois meses antes de completar 40 anos, Beto Lima produziu uma grande e festejada variedade de obras.

GESTOS DA ALMA – Nos seus quadros, pessoas, animais, objetos e elementos variados da natureza ganhavam personalidades ora próprias, ora incorporadas na percepção de quem as via e as sentia como eram e são: brutas, portanto puras, e confiáveis, porque eram gestos da alma que se vestia com as mãos do artista. Não ao acaso, Humberto Espíndola o interpretou com essas palavras, como se o estivesse acompanhando em seu processo de criação:

“Tinta automotiva, tinta látex, gesso, areia, massas, toda matéria passível de se tornar textura em sua plástica gritante. Produziu muito, por necessidade financeira e espiritual, conseguiu conectar esse paradoxo, sem contradizer-se. Foi, portanto, um dos pioneiros da wearable art [arte vestível, que se pode vestir]em nosso meio”.

MARCAS VIGOROSAS – Nascido em Campo Mourão (PR) em 20 de março de 1963, Beto Lima fez de Campo Grande sua casa desde meados dos anos 1970. Autodidata, trafegava entre as várias escolas, sem nunca renunciar à técnica pessoal, impondo naturalmente suas vigorosas marcas, especialmente nos florais, gatos e bicicletas, estas fruto da influência de suas viagens para expor em outros países. Não deixou de pintar e de vender alegria e esperança nem mesmo quando passou a viver a dura realidade de um soropositivo da Aids. Definhava lentamente, mas pintava, criava, semeava alentadora teimosia.

Fez várias mostras, estimuladas principalmente por Humberto Espíndola, um dos maiores amigos e o grande incentivador de sua trajetória. Em 2009 aconteceu uma das últimas exposições de Beto Lima em Campo Grande, no Museu de Arte Contemporânea (Marco). No folder de convite e apresentação daquela mostra, a professora e crítica de arte Maria Adélia Menegazzo enfatizava: “Na aparente simplicidade da pintura, o artista estabelece um diálogo entre o que está presente e o ausente, um enigma, um pacto. Para permanecer”.

UM COMETA – Para Humberto Espíndola, a passagem de Beto Lima pela vida terrena foi rápida demais, contudo não o impediu de deixar suas digitais no acervo da história de Mato Grosso do Sul. “Nos anos de 1990, ele foi um grande cometa, uma estrela que transitou pela arte em nossa cidade. Ninguém superou, em minha análise, nesses dez anos que precederam o final do século, a plástica original e personalística de Beto Lima”, avalia Espíndola.

Em seguida, o artista sulmatogrossense completa: “Ele brilhou muito com seus gatos, seus castiçais, seus temas exóticos, seus rostos, seu colorido absurdo, sua capacidade de pintar, de pincelar, de passar a espátula, numa gestualidade forte, violenta, instigando o espectador a se identificar com sua personalidade conquistadora, de quem quer um lugar ao sol, um espaço em nossa história da arte.

Além da produtora executiva Dalila Saldanha e curador Humberto Espíndola, atuaram na realização do documentário “Beto Lima – Um Artista e seu Tempo” Geraldo Espíndola (produção de campo), Altair Santos (fotografia),  Maurício Costa Jr e Altair Santos (cameraman e moviemaker). A trilha sonora tem Edvard Grieg (Peer Gynt, suíte nº.1) e o jornalista Edson Moraes é o assessor de imprensa.

Para assistir ao documentário, acessar no domingo (04/04) o enderereço https://betolimaartista.wixsite.com/betolima

Beto Lima - Documentário resgata artista e obra que marcaram época em MS
Beto Lima teve os gatos entre suas principais inspirações
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