Autoridades vivem sob constantes ameaças de morte
Eles levaram para o banco dos réus os principais responsáveis pelo crime organizado no Brasil e na Bolívia.
Na mira do crime – 31/08/2007
Eles levaram para o banco dos réus os principais responsáveis pelo crime organizado no Brasil e na Bolívia. Desafiaram as leis do narcotráfico e foram condenados à morte. Vivem cercados de policiais, riscaram o lazer do cardápio diário e nunca conseguem um sono tranqüilo. Mas olham no sucesso do ataque ao tráfico a recompensa pelas privações na vida pessoal. O juiz Odilon Oliveira sabe até o valor oferecido a pistoleiros de Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, e do Paraguai pela sua morte: US$ 300 mil (R$ 600 mil). O preço por condenar 114 traficantes da região a quase mil anos de cadeia e tornar indisponível os bens dos envolvidos com o tráfico.
Ao chegar ao fórum no final da década de 90, o juiz soube que cinco homens mandavam na fronteira e os condenou. Eles ainda não estão na cadeia (são foragidos), mas o magistrado se orgulha de saber que já perderam o direito de andar livremente pelas ruas. Odilon Oliveira também perdeu a liberdade (para onde vai, é seguido por seis agentes federais, em carros blindados para tiros de fuzil) e foi obrigado a dormir em quartéis do Exército. A sala de trabalho foi adaptada para servir de quarto. E nunca tira o colete àprova de balas. Nem para ir ao banheiro.
Mas como costuma repetir, a diferença entre a sua falta de liberdade e a dos traficantes é que ele tem a chave da prisão. Uma das vitórias é o fim do domínio da família Morel no narcotráfico da região e o fim do império de Fuad Jamil George, conhecido como o ‘rei da fronteira’.
Seus colegas bolivianos não alteraram tanto a rotina, mas nunca se deslocam sem a escolta ou deixam de seguir à risca as ordens dos agentes. ‘Todo ser humano tem medo, mas nós somos formados para seguir a lei’, diz o promotor Rodrigo Molina, de Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia. Ele e os colegas Joadel Bravo, Hugo Iquise e Romai Cavero foram o quarteto responsável por levar à Justiça os narcotraficantes que anualmente mandam 120 toneladas de pó Bolívia afora. Um grupo (da Fiscalía de Substancias Controladas) fortalecido após a morte da promotora Mônica Von Borries, em fevereiro de 2004, num atentado que explodiu o seu carro.
Mônica Borries foi quem levou à condenação o italiano Marco Marino Diodato, o rei dos jogos e do narcotráfico na Bolívia. O crime, ao invés de inibir, provocou os promotores a combater o crime organizado. Novas ameaças de atentado surgiram. Romai Cavero, há um ano, recebeu uma ligação em casa, por volta de uma hora da manhã, com o interlocutor avisando que ele iria explodir. O promotor saiu de casa às pressas junto com sua família. A polícia foi acionada, mas nenhuma bomba foi encontrada na residência.
Desde o aviso, Romai Cavero passou a ter cuidados redobrados. Mas não baixou a guarda. Ao ser indagado se não tem medo de ser assassinado ao prender um narcotraficante, é enfático: ‘Quando um médico opera, opera para curar’.
As barreiras na fronteira
O avanço das plantações de coca na Bolívia (detectado pelas imagens de satélite e fotos aéreas feitas pela ONU) levou a polícia a montar barreiras nas fronteiras do Brasil. Além da Polícia Federal, dois núcleos foram criados no Mato Grosso (o Grupo Especial de Fronteiras) e no Mato Grosso do Sul (Departamento de Operações em Fronteira).
Os agentes, selecionados dentro da PM , recebem salários dobrados. O gasto compensou: são os responsáveis pela maior parte das apreensões de cocaína.
Do lado boliviano, surgiu ‘Os Leopardos’, grupo de agentes escolhidos no Exército, o terror dos narcotraficantes. Eles monitoram as estradas e este ano já apreenderam 30 toneladas de pasta-base. Mas ainda é pouco para vigiar os 1.350 quilômetros de fronteiras. ‘Precisamos de mais gente e equipamentos’, cobra o delegado Getúlio Bezerra, diretor do Núcleo de Combate ao Crime Organizado da Polícia Federal.
É para enfrentar um tráfico cada dia mais sofisticado (usa aviões modernos, balsas e barcos) e que emprega tecnologia nas plantações (como irrigação). As imagens da ONU mostram que, em três anos, os campos de coca dobraram de extensão na Bolívia.
Fonte: O Dia



