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‘Até a próxima amizade’, por João Roberto Giacomini

Há pessoas que não encerram amizades. Revisam versões antigas do afeto.

A convivência termina e, de repente, a pessoa descobre que sofreu durante meses. Às vezes anos. Descobre retrospectivamente. Como quem encontra infiltração atrás do armário depois da mudança. O curioso é que, enquanto a relação funcionava, enquanto havia café na varanda, mensagens no fim da noite, pedidos de ajuda, confidências, favores, risadas, ninguém parecia particularmente traumatizado.

A tragédia só costuma ser descoberta depois que as cadeiras mudam de lugar.

É um fenômeno curioso da alma humana.

Existem pessoas que suportam silenciosamente o mundo inteiro enquanto ainda ocupam um lugar confortável dentro dele. Aguentam atrasos, manias, defeitos, opiniões atravessadas, cachorros inconvenientes, mensagens fora de hora, reuniões longas e até pequenos desastres administrativos.

Tudo suportável. Tudo administrável. Tudo “de boa”.

Mas basta a geografia do poder mudar um pouco — ah, aí começa a arqueologia emocional.

A pessoa então abre gavetas invisíveis e começa a retirar documentos antigos do ressentimento. Surge um inventário completo de sofrimentos históricos cuidadosamente preservados em câmara fria. “Naquele dia…” “Naquela ocasião…” “Naquela conversa…” E o mais impressionante: os fatos nunca aparecem sozinhos. Vêm sempre acompanhados daquela expressão solene de quem atravessou a Segunda Guerra Mundial carregando uma geladeira nas costas.

“Eu tive muita paciência.”

Essa frase costuma ser o hino nacional dessas relações.

A paciência, nesse caso, não é virtude. É investimento. A pessoa acredita ter aplicado tolerância em alguém esperando dividendos emocionais futuros.

Enquanto o outro continua orbitando ao redor da influência dela, ótimo. Enquanto pede opinião, divide decisões, reconhece importância, consulta, agradece, recua, prestigia e mantém a velha arquitetura da relação, tudo permanece aparentemente saudável.

O problema começa quando o satélite gira sozinho. Quando descobre que também sabe conduzir a própria órbita. Aí acontece uma coisa extraordinária: a memória muda de personalidade.

O que antes era amizade vira conveniência. O que era intimidade vira invasão.

O que era parceria vira manipulação. O que era ajuda vira interesse oculto.

E episódios que pareciam absolutamente irrelevantes, incapazes de produzir qualquer consequência real, começam a ressuscitar carregados de significados que jamais tiveram enquanto ainda viviam protegidos pela normalidade imperfeita da amizade.

E talvez o mais fascinante seja a sinceridade com que acreditam nisso.

Porque não parece teatro. Parece revisão histórica.

Elas realmente reorganizam emocionalmente o passado até que cada lembrança encontre uma posição confortável dentro da narrativa atual. É quase um trabalho de decoração interior da memória. Trocam os móveis de lugar, pintam antigas conversas com novas tintas morais e, ao final, conseguem habitar uma versão completamente diferente da relação.

Há amizades que acabam.

E há amizades que descobrem, muitos meses depois, que jamais foram amizades.

Estas últimas são as mais perigosas.

Porque não terminam. Protocolam encerramento.

E fazem isso com aquela serenidade burocrática de quem entrega um aviso formal ao mundo: “você não é mais bem-vindo”.

Como se algumas pessoas aprendessem a derramar tristezas cuidadosamente organizadas apenas depois que já não precisam mais permanecer.

No fundo, talvez exista apenas uma verdade silenciosa nisso tudo: ninguém suporta durante tanto tempo aquilo que nunca quis viver.

Pessoas sinceras costumam discordar cedo. Conversam cedo. Explodem cedo. Relações honestas fazem barulho antes do ressentimento criar mofo.

Quem passa anos sorrindo enquanto coleciona processos internos talvez nunca tenha amado exatamente pessoas.

Talvez tenha amado funções. Talvez seja preciso aprender, cedo ou tarde, a distinguir amizades de relações construídas apenas para ocupar funções provisórias dentro da vida de alguém.

Porque a maneira como certos vínculos terminam quase sempre ilumina aquilo que silenciosamente já existia desde o começo!

Até a próxima amizade.

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