Nos últimos anos, a busca por soluções rápidas tem invadido todas as áreas da saúde — e, infelizmente, a odontologia não ficou de fora. Entre as propostas mais preocupantes, está o uso de toxina botulínica (o chamado “botox”) em crianças com bruxismo.
À primeira vista, a lógica pode parecer simples: reduzir a força muscular para diminuir o apertamento dentário. No entanto, quando se trata de crianças, essa abordagem ignora um princípio fundamental da biologia: o crescimento depende da função.
O músculo masseter, principal responsável pela mastigação, não atua apenas na força de mordida. Ele desempenha um papel essencial no desenvolvimento craniofacial. A atividade muscular adequada estimula o crescimento ósseo, orienta a formação da mandíbula e contribui para a harmonia facial.
Interferir nesse processo com a aplicação de toxina botulínica — que promove enfraquecimento muscular — pode, portanto, ter consequências que vão muito além do controle do bruxismo.
Entre os possíveis riscos estão:
- Redução do estímulo funcional necessário ao crescimento ósseo;
- Alteração do desenvolvimento facial;
- Atrofia muscular;
- Assimetrias;
- Comprometimento da função mastigatória
Além disso, há um ponto que precisa ser afirmado com absoluta clareza: a toxina botulínica não é tratamento para bruxismo — nem em adultos, nem em crianças. Até o momento, não existem evidências científicas robustas que sustentem seu uso como estratégia terapêutica para o bruxismo em adultos. E, no caso das crianças, além da ausência de evidência, somam-se riscos reais relacionados ao crescimento e ao desenvolvimento craniofacial.
Portanto, em nenhum desses contextos, o botox deve ser considerado uma opção de tratamento. Trata-se de uma prática sem respaldo consistente na literatura, especialmente quando consideramos os efeitos a médio e longo prazo.
Outro aspecto frequentemente negligenciado é que o bruxismo infantil, na maioria das vezes, não é uma doença isolada — mas sim um comportamento multifatorial. Pode estar relacionado a fases do desenvolvimento, qualidade do sono, respiração oral, ansiedade, hábitos e até ao uso excessivo de telas.
Tratar o sintoma não é suficiente
Ou seja: tratar apenas o sintoma, sem compreender a causa, é reduzir um problema complexo a uma solução simplista.
O manejo adequado do bruxismo em crianças exige uma abordagem cuidadosa e individualizada, que pode incluir orientação comportamental, investigação médica, acompanhamento do desenvolvimento craniofacial e, quando necessário, dispositivos protetores.
Mais do que buscar soluções rápidas, é preciso respeitar o tempo biológico da infância.
(Informações R7)




