Artistas protestam contra retirada da estátua do ervateiro
Cultura – 12/05/2009
A Prefeitura de Dourados retirou na noite de quinta-feira, 7, o monumento do “Peão dos Ervais”, conhecida como “estátua do ervateiro” que estava desde 2004 no canteiro central na esquina das avenidas Marcelino Pires e Presidente Vargas no centro da cidade e causou muita polêmica.
A classe artística de Dourados demonstrou indignação com a situação e marcou para amanhã, 13, a partir das 09h30 um ato público no local onde estava a estátua para protestar contra a decisão da Prefeitura em retirar o monumento. Nem mesmo o Conselho Municipal de Cultura foi consultado sobre o assunto.
No dia seguinte à derrubada da estátua, uma pessoa não identificada fez um protesto solitário contra a Prefeitura colocando uma faixa preta no pescoço de uma seriema de cimento que ficara ao lado do Ervateiro e deixou um vaso de crisântemo com a inscrição: “Aqui jaz uma obra pública! Qual será a próxima?” numa alusão a que os artistas locais estão chamando de “morte” daquele patrimônio público.
Por causa dos protestos o secretário de comunicação da Prefeitura, Eleandro Passaia, disse à imprensa que a mudança faz parte de um projeto de ornamentação e revitalização de canteiros do centro de Dourados e que a estátua será recolocada no Parque Antenor Martins. Segundo Passaia está previsto o plantio de mudas de erva-mate ao redor da estátua no novo local.
A estátua foi produzia pelo artista plástico Mestre Cilso que fez uma homenagem ao Peão dos Ervais que no período de 1883 a 1947 foi o personagem principal na extração da erva-mate na região sul de Mato Grosso do Sul. Mestre Cilso lamentou a decisão da Prefeitura e disse que a estátua é a expressão da sua visão do trabalhador dos ervais que chegava a carregar nas costas mais de 250 quilos de erva.
O ex-prefeito Laerte Tetila disse à imprensa também lamentou a atitude do prefeito Ari Artuzi e disse que a escolha do cruzamento da Presidente Vargas com a Marcelino Pires foi unânime em sua administração. O historiador Elecir Ribeiro Arce disse que “é uma pena que a justa homenagem à cultura da erva-mate e aos nossos pioneiros durou tão pouco tempo”.
Ele acrescenta que “a notícia de que a atual administração, representada pelos senhores Ari Artuzi e Carlinhos Cantor, retirou o monumento do ervateiro do coração da cidade, soou como um desprezo à memória do povo de Dourados”.
Arce disse que “a história de Dourados e do sul do Estado está ligada diretamente com a cultura da erva-mate. Durante mais de sessenta anos a erva-mate produzida na região e exportada para a Argentina, contribuiu sobremaneira com os cofres públicos de Mato Grosso, foi por muito tempo a base da economia do Estado e impulsionou o surgimento de muitos aglomerados urbanos, inclusive o de Dourados”.
O historiador, que é professor na Escola Estadual Reis Veloso, explica que no ano de 1966 a Argentina deixou de comprar nossa erva-mate, a produção entrou em decadência econômica, mas a tradição da bebida continua firme e forte entre nós. “Faz parte da nossa cultura, está presente no tradicional tereré e chimarrão tão apreciado pelo povo da região”, disse ele.
Naquela época, segundo Ribeiro Arce, a produção ervateira era monopolizada pela Companhia Matte Laranjeira que explorava de forma desumana a mão-de-obra dos ervateiros, constituída principalmente de paraguaios e indígenas da etnia guarani.
“O trabalho era duro desde o corte da planta até o cancheamento -espécie de socagem do produto com facões de madeira. Porém o serviço mais pesado para o ervateiro era o transporte no raído -uma espécie de saco lotado de galhos que o ervateiro arrastava com uma corda”, comenta.
Fonte: Nicanor Coelho/Midiamax



