A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou ontem, segunda-feira (20) um novo medicamento para o tratamento de um dos tipos mais comuns e agressivos de linfoma não Hodgkin.
O Columvi (glofitamabe) passa a ser autorizado no Brasil para pacientes adultos com linfoma difuso de grandes células B que tiveram recaída da doença ou não responderam aos tratamentos anteriores e não são elegíveis ao transplante autólogo de células-tronco.
O medicamento deverá ser usado em combinação com os quimioterápicos gencitabina e oxaliplatina.
A aprovação amplia as opções terapêuticas para um grupo de pacientes que costuma ter prognóstico mais desfavorável após a falha da primeira linha de tratamento. Nesses casos, as alternativas disponíveis são mais limitadas e as chances de resposta aos esquemas convencionais diminuem.
Conheça os sintomas do linfoma não-Hodgkin
O glofitamabe pertence a uma classe mais recente de medicamentos chamada anticorpos monoclonais biespecíficos. Diferentemente dos anticorpos tradicionais, que reconhecem apenas um alvo, ele se liga simultaneamente a duas proteínas: a CD20, presente nas células B que deram origem ao tumor, e a CD3, encontrada nas células T, responsáveis pela resposta imunológica.
Essa dupla ligação funciona como uma ponte entre as células de defesa e as células cancerígenas. Ao aproximar os dois tipos celulares, o medicamento ativa os linfócitos T para que eles reconheçam e destruam o tumor.
“Esse medicamento funciona como uma ponte entre a célula de defesa e a célula do linfoma. Ele aproxima o linfócito T da célula B doente e ativa a resposta imunológica para que o próprio organismo ataque o tumor”, explica Stephen Stefani, oncologista do Grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation.
Segundo a Anvisa, o registro representa a chegada ao país de uma nova estratégia terapêutica baseada na imunoterapia e amplia o arsenal disponível para pacientes com doença agressiva e poucas opções de tratamento.
Para Stefani, o principal avanço é oferecer uma alternativa para pacientes cuja doença voltou ou deixou de responder às terapias convencionais.
“Esses são pacientes que já falharam a pelo menos duas linhas de tratamento. O estudo mostrou aumento da sobrevida global, maior controle da doença e uma taxa mais alta de resposta completa. É mais uma arma no arsenal terapêutico para um grupo que costuma ter poucas alternativas”, afirma.
O oncologista ressalta, porém, que o tratamento exige acompanhamento especializado porque pode provocar uma resposta inflamatória intensa do sistema imunológico, conhecida como síndrome de liberação de citocinas, efeito adverso também observado em outras imunoterapias. Ele lembra ainda que não existem estudos comparando diretamente o medicamento com as terapias CAR-T, outra estratégia usada em pacientes com linfoma avançado.
“A chegada dessa terapia é uma boa notícia, mas o desafio continua sendo garantir o acesso. São medicamentos de alto custo, e a incorporação ao sistema público depende de avaliações de custo-efetividade”, diz.
A autorização publicada no Diário Oficial da União permite a comercialização do medicamento no Brasil, mas não significa que ele passe a ser oferecido imediatamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Para isso, a tecnologia ainda precisaria ser avaliada pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec). Na saúde suplementar, a cobertura pelos planos depende das regras da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).
A Roche, produtora do medicamento explica que o novo fármaco traz uma perspectiva aos pacientes que não estão elegíveis para o transplante e que sofrem com a doença.
“É uma inovação para pacientes inelegíveis ao transplante que, mesmo com pior prognóstico, agora têm uma opção de tratamento com potencial curativo. Por ter duração fixa, ele permite resgatar a perspectiva de uma vida normal, livre de terapia”, finaliza Michelle Fabiani, Diretora Médica da Roche Farma Brasil.
Entenda o que é o linfoma não Hodgkin
O linfoma não Hodgkin (LNH) é um grupo de mais de 80 tipos de câncer que têm origem nos linfócitos, células de defesa que fazem parte do sistema imunológico. Essas células circulam pelo sistema linfático — formado por linfonodos (gânglios), baço, medula óssea e vasos linfáticos — e ajudam o organismo a combater infecções.
Quando sofrem alterações genéticas, os linfócitos passam a se multiplicar de forma descontrolada, dando origem ao tumor.
Como o tecido linfático está distribuído por praticamente todo o corpo, a doença pode surgir em diferentes órgãos. O linfoma não Hodgkin pode atingir pessoas de qualquer idade, mas é mais frequente em adultos e idosos.
Linfoma difuso de grandes células B, o subtipo mais comum
O linfoma difuso de grandes células B (LDGCB) é o subtipo mais frequente de linfoma não Hodgkin agressivo. Ele se desenvolve a partir dos linfócitos B e costuma evoluir rapidamente, exigindo diagnóstico e tratamento precoces.
Embora muitos pacientes sejam curados com a primeira linha de tratamento, parte deles apresenta recaída ou não responde à terapia inicial. Nessas situações, novas opções terapêuticas podem ampliar as chances de controle da doença.
Quais são os sintomas?
O principal sinal é o aumento dos linfonodos, percebido como caroços, geralmente indolores, no pescoço, nas axilas ou na virilha.
Outros sintomas incluem:
- febre persistente;
- suor noturno intenso;
- perda de peso sem causa aparente;
- fadiga;
- coceira na pele;
- tosse ou falta de ar, quando há comprometimento da região do tórax.
Esses sintomas podem estar associados a outras doenças, mas devem ser investigados se persistirem.
Como é feito o tratamento?
O tratamento depende do subtipo do linfoma, da extensão da doença e das condições clínicas do paciente.
Entre as opções estão quimioterapia, imunoterapia, radioterapia, transplante de medula óssea (transplante de células-tronco hematopoéticas) e terapias mais recentes, como anticorpos monoclonais, anticorpos biespecíficos e células CAR-T, indicadas para situações específicas.
Segundo a Associação Brasileira de Câncer do Sangue (Abrale), muitos pacientes conseguem alcançar a cura, especialmente quando o diagnóstico é feito precocemente e a doença responde ao tratamento.
Diferença entre linfoma de Hodgkin e linfoma não Hodgkin?
Apesar de ambos afetarem o sistema linfático, eles são doenças diferentes.
A principal distinção está nas características das células cancerígenas, identificadas por meio de uma biópsia. No linfoma de Hodgkin, estão presentes as chamadas células de Reed-Sternberg, ausentes nos linfomas não Hodgkin.
Os dois grupos também diferem na forma como evoluem, se espalham pelo organismo e respondem ao tratamento.
Em geral, o linfoma de Hodgkin apresenta altas taxas de cura com a terapia inicial, enquanto os linfomas não Hodgkin reúnem dezenas de subtipos com comportamentos e prognósticos bastante variados.
(Informações g1)



