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‘André é autoritário, despótico e centralizador’

'André é autoritário, despótico e centralizador', para o ex-governador, o PT tem que parar de falar em alianças com Puccinelli

Zeca do PT – 08/04/2009

“Não entende o PT quem está fora do PT”. Com essa frase o ex-governador de Mato Grosso do Sul, José Orcírio Miranda dos Santos, o Zeca do PT, explica as divergências entre ele e o senador Delcídio do Amaral em torno da presidência do diretório regional do partido, que será eleito pelo voto direto dos petistas em novembro deste ano. “O partido foi fundado por 27 grupos de esquerda, e cada grupo ainda tinha suas divisões internas, isso forjou a nossa democracia interna, e uma riqueza de debates que nenhum outro partido tem”, diz Zeca, acrescentando que “somos duas pessoas diferentes e é normal termos interpretações da conjuntura diferente, agora quero crer que nosso compromisso com o Estado supere essas divergências”.
            Nesta entrevista exclusiva à Folha de Dourados, Zeca critica o governador André Puccinelli por não priorizar os programas sociais e a manutenção das estradas vicinais que escoam a safra agrícola e por promover o terrorismo fiscal. Nesse cenário, segundo o ex-governador é “possível construir um bloco de oposição ao atual governo, um governo  que já está velho com dois anos, um governo que até o momento só se preocupou em desconstruir o que fizemos em oito anos”.
            Sobre se posicionamento em relação às eleições municipais de Dourados, em 2008, o ex-governador disse que sempre expressou sua simpatia pelo ex-vice-governador Egon Krackekhe, que deveria ter espaço na administração do ex-prefeito Laerte Tetila, “assim como teve o ex-deputado federal João Grandão quando acabou seu mandato”. 
            “Precisávamos de uma candidatura forte, que mesmo perdendo, ficaria um saldo político de oposição, mas infelizmente a direção do partido em Dourados decidiu seguir outro caminho apresentando um candidato, no nosso entendimento, que não cumpriria esse papel”, disse Zeca, que ao perceber que sua articulação não era bem-vinda preferiu se ausentar de Dourados.
            Leia os principais trechos da entrevista.
 
 
Folha de Dourados – Com exceção de seu grupo e da Articulação de Esquerda, as demais forças internas do PT já manifestaram apoio ao projeto político do senador Delcídio do Amaral que pretende reconduzir o deputado estadual Amarildo Cruz à presidência regional do partido. Sendo assim, qual é o posicionamento e estratégia do senhor? 
    Zeca do PT – Queremos esclarecer que não se trata de discutir nomes, se trata de sinalizar primeiro para o PT e, depois, para a sociedade sul-mato-grossense que é possível um outro projeto de governo. É possível construir um bloco de oposição ao atual governo, um governo  que já está velho com dois anos, um governo que até o momento só se preocupou em desconstruir o que fizemos em oito anos. A atual  e  futura direção do PT tem que entender que o partido tem que ser o centro desse bloco de oposição, parar de falar em alianças com o André Puccinelli, queremos discutir isso dentro do partido, nossa posição é levar essa discussão para as instâncias internas e exaurir essa discussão e se formos derrotados, pérolas aos vencedores.
 
   Folha de Dourados – Afinal, quais as razões das divergências entre o senhor e Delcídio, já que os dois não pretendem disputar o mesmo cargo? 
    Zeca do PT – Não entende o PT quem está fora do PT. O partido foi fundado por 27 grupos de esquerda, e cada grupo ainda tinha suas divisões internas, isso forjou a nossa democracia interna, e uma riqueza de debates que nenhum outro partido tem, é claro que às vezes essa discussão interna ultrapassa os limites e acaba indo parar na imprensa, o que é um erro nosso. Somos duas pessoas diferentes e é normal termos interpretações da conjuntura diferente, agora quero crer que nosso compromisso com o Estado supere essas divergências. 
 
     Folha de Dourados – Mas, nos bastidores o senador Delcídio tem dito que desconfia que seu objetivo seja disputar o Senado Federal e por isso teme em ceder à presidência do diretório regional… 
      Zeca do PT – Olha do ponto de vista dos espaços políticos, quero colocar meu nome à disposição do partido, para capitanearmos um projeto de recolocar o PT no governo de novo, esse projeto passa pelo senador Delcídio, passa por partidos que foram nossos aliados quando governamos e também passa pelos setores da sociedade descontentes com o atual governo, estamos buscando entabular conversas com todo mundo, como fala o saudoso Tom Jobim, “é impossível ser feliz sozinho”. 
 
      Folha de Dourados – Em recente visita a Dourados, a senador Kátia Abreu (DEM) disse o seguinte ao vice-governador Murilo Zauith: “No carnaval, em Brasília, o presidente Lula disse a Zeca, com todas as letras, de que precisa do apoio do governador André Puccinelli à candidatura da ministra Dilma Rousseff à presidência da República, impondo uma coligação PMDB-PT”. Isso é verdade? Qual foi o teor da conversa entre o senhor e Lula? 
    Zeca do PT – Olha a candidatura da Ministra Dilma já se consolidou e é natural que o presidente Lula se mova no sentido de garantir essa consolidação. O que conversamos é que quem vai definir se o PT vai ter candidato aqui é o PT, e para isso queremos formar esse bloco de oposição, se a ministra tiver dois palanques aqui, ótimo. 
 
     Folha de Dourados – A propósito, faça, por favor, uma avaliação do governo de André Puccinelli. 
      Zeca do PT – Olha, vou desenvolver o seguinte raciocínio, para mim o poder público tem que existir para quem precisa dele, seja para os mais pobres na sua necessidade, seja para os comerciantes que precisam trabalhar tranqüilos sem fiscais na sua porta, para os funcionários públicos que precisar ter segurança e tranquilidade, industriais e produtores rurais que precisam de incentivos fiscais e escoamento dessa produção. Se o poder público não estiver ali, na hora que o contribuinte precisar dele, não precisa estar mais, nesse sentido veja as estradas vicinais, veja o terrorismo fiscal, veja os programas sociais onde foram parar, esse é um aspecto do ponto de vista da administração, do ponto de vista da política, é um governo autoritário, despótico e centralizador.
 
      Folha de Dourados – Caso seja mesmo candidato ao governo do Estado, o senhor crê que terá apoio de antigos partidos aliados, como o PR e o PDT? 
     Zeca do PT – Estamos trabalhando para formamos um grande bloco. Temos conversado com vários dirigentes partidários, não só do PR e do PDT e adianto que as conversações têm me deixado bastante otimista. Quem foi nosso parceiro  sabe a diferença de tratamento dado aos partidos, aos aliados entre um e outro governo.
 
     Folha de Dourados – As denúncias sobre supostas irregularidades nos gastos com publicidade em seu governo serão usadas, com certeza, pelos adversários num eventual embate eleitoral. Isso o preocupa?  
    Zeca do PT – Nem um pouco, primeiro porque estamos respondendo uma a uma essas acusações, segundo porque o debate que queremos estabelecer é um grande debate sobre a quem deve servir o poder público. 
 
     Folha de Dourados – É público e notório que o senhor apadrinhou Delcídio, que migrou do PSDB para o PT, mesmo contrariando as correntes mais à esquerda. Também foi o grande articulador e apoiador da candidatura vitoriosa dele ao Senado. Se sente traído? 
     Zeca do PT – Não é esse o termo, mas confesso que senti momentos de decepção, não acredito em  traição na política, quando se toma uma opção avalia-se os riscos, os prós e os contra, a relação custo-benefício, e tem que se estar preparado para os dois. 
 
     Folha de Dourados – O que falta politicamente a Dourados que nunca elegeu senador e governador, apesar de ser o segundo maior colégio eleitoral do Estado? 
     Zeca do PT – Acredito que eleição é processo de articulação, de somatória de forças e projeto de Poder. Campos elegeu Garotinho, Campinas elegeu Quércia, então dizer que interior não tem que apresentar candidato ao Governo, a história diz que não é verdade, basta se articular e somar forças. 
 
     Folha de Dourados – Entre os petistas de Dourados, na impressa e nos ditos “formadores de opinião” existem suspeitas de que o senhor e os deputados federais Antonio Carlos Biffi e Vander Loubet apoiaram silenciosamente a candidatura de Ari Artuzi (PDT) em detrimento ao candidato do PT, Wilson Biasotto? Isso procede? Biasotto era o melhor candidato do partido?  
     Zeca do PT – Falo por mim, sempre expressei minha simpatia pelo ex-vice-governador Egon, que teve 46,29%, dos votos para senado em Dourados, ex-secretário de Estado, vinha de uma campanha forte, militante e seria relativamente fácil fazer uma campanha de massa com ele. Entendia, à época que, assim como João Grandão teve espaço na Prefeitura depois que terminou seu mandato, o Egon também deveria ter tido. Problemas a serem superados? Tinha um monte, mas quando se quer se faz. Entendíamos também, que o centro desse bloco de oposição poderia sair de Dourados, para isso precisávamos de uma candidatura forte, que mesmo perdendo, ficaria um saldo
político de oposição, mas infelizmente a direção do partido em Dourados decidiu seguir outro caminho apresentando um candidato, no nosso entendimento, que não cumpriria esse papel. O Artuzi se viabilizou na ausência política do PT, ele fez oposição ao Governo André que tentou a todo custo a sua cassação. O PT não percebeu o recado vindo da rua. Notei que nossa articulação não era bem-vinda, já existia uma previa definição em torno da candidatura Biasotto. Preferi me ausentar e participar onde nos queriam, como Corumbá, Amambai, Bela Vista, Nova Andradina, Maracaju e outras cidades onde entenderam nossa posição e projeto. 
 
    Folha de Dourados – A imprensa da capital chegou a noticiar que se o senhor não chegar à presidência do PT em MS abandonará a política?  É verdade?  
     Zeca do PT – Não quero ser candidato por ser candidato, quero representar um projeto político, e quero discutir isso primeiro dentro do meu partido, acho que o PT tem a responsabilidade de não se furtar assumir seu papel, tenho conversado com vários dirigentes partidários e tenho encontrado uma enorme receptividade. Agora primeiro devo fazer a lição de casa, convencer o meu partido, se conseguir pretendo, com outros, capitanear esse projeto, se não conseguir, não sou candidato. Quanto a sair da política jamais, posso não participar da vida pública por um tempo, mas a política esta na minha pele. (José Henrique Marques)

Fonte: Folha de Dourados

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