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‘Alma em Atividade’, por João Roberto Giacomini

Por João Roberto Giacomini – advogado & escritor

“Felicidade é uma atividade da alma em conformidade com a virtude.” Aristóteles.

A frase atravessa o tempo com uma serenidade que não tranquiliza; ao contrário, carrega um tipo de incômodo silencioso, como se não pedisse atenção, mas a exigisse — e soubesse que, em algum momento, alguém acabaria parando diante dela não por curiosidade, mas por necessidade.

Da janela da cozinha, o dia hesita. O sol não chega inteiro; esbarra nas hastes tortas das plantas, que se mantêm de pé por um motivo que não se explica facilmente. Não há ali qualquer exuberância — apenas permanência, uma espécie de insistência discreta que parece não depender de convicção, mas de continuidade. E é difícil não reconhecer, nesse esforço quase imperceptível, algo que também nos atravessa.

“Alma em atividade” não soa como promessa, mas como exigência. Não se trata de feitos extraordinários, nem de grandes gestos que se ofereçam ao olhar alheio, mas de movimentos mínimos, quase invisíveis, que sustentamos quando ninguém observa — aquilo que não produz aplauso, mas também não admite abandono. Há, nesse tipo de permanência, um desgaste que raramente se nomeia, porque não chega a ser heroico, mas tampouco é passivo.

Ontem, no café, um homem permaneceu sentado por tempo demais diante de um pedaço de pão. Não havia pressa, nem companhia, mas havia um intervalo estranho entre o gesto e a ação, como se algo dentro dele pedisse decisão e ele ainda não estivesse disposto — ou não fosse capaz — de responder. Não era fome o que se via, nem distração; havia ali um desacordo silencioso, desses que não se resolvem com palavras, mas também não desaparecem com o tempo.

Talvez seja nesse ponto impreciso que a virtude se insinue — não na ordem perfeita dos atos, mas na consciência do desalinho, acompanhada de uma recusa discreta em simplesmente ceder a ele. A felicidade, então, deixa de parecer um lugar possível e passa a se revelar como movimento — não contínuo, nem estável, mas insistente. Um esforço que cansa, falha e recomeça sem anúncio, sustentado menos por certeza do que por uma espécie de resistência em interromper.

O dia avança sem alarde, e as sombras se alongam pela cozinha, desenhando contornos que logo deixam de existir. Nada permanece com a mesma forma por muito tempo — nem a luz, nem o pensamento, nem as convicções que, há pouco, pareciam suficientes. Ainda assim, a frase permanece, não como resposta, mas como presença.

E talvez seja esse o seu lugar mais honesto: não resolver, mas acompanhar; não esclarecer, mas permanecer ao lado da dúvida, como quem reconhece que certas perguntas não pedem solução, apenas continuidade. Se há felicidade nisso, ela não se mostra com facilidade — mas também não se ausenta por completo.

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