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Agroecologia é tecnologia de ponta copiada da natureza

Região – 15/10/2007

Quando se fala em tecnologia de ponta logo se pensa em maquinas ou substancias que conseguem de alguma forma subjugar a natureza para de alguma forma extrair dela algum produto em maior quantidade e em um tempo menor. Mas usar tecnologia de ponta pode significar também aprender com a natureza e copiar seus métodos, que alias, ela demorou alguns milhares de anos para desenvolver e aperfeiçoar. É o caso da pesquisa sobre Agroecologia que a Embrapa de Dourados está desenvolvendo, que “busca uma produção integrada, sem uso de adubos químicos ou agrotóxicos, trabalhando o equilíbrio ecológico dentro do sistema de produção”, como define o pesquisador da empresae Dr. em Agronomia, Milton Padovan, que há quase três anos vem estudando formas de desenvolver essa técnica com eficiência e viabilidade econômica.
 
Já imaginou uma propriedade 100% auto-suficiente? Onde tudo que se produz é utilizado ou reutilizado para produzir mais? Esse é um dos principais conceitos que norteiam a agroecologia. “O objetivo é trazer o mínimo possível de insumo de fora da propriedade, oferecendo autonomia ao produtor, tendo na natureza o grande referencial para se trabalhar o sistema produtivo”, explica Padovan.
 
Na contra-mão da monocultura a agroecologia defende a variedade máxima do sistema produtivo (a propriedade em questão). Para ser ter uma idéia do que se trata essa variaedade, a horta do Sitio Agroecologico, parte da pesquisa, além de mais de trinta tipos de hortaliças, tem arvores frutíferas, plantas medicinais, plantas repelentes, plantas melhoradoras de solo, e árvores nativas. Até a disposição é calculada. Árvores altas intercalam árvores baixas para regular a luz do sol.
 
“O objetivo da é trazer o mínimo possível de insumos de fora da propriedade”
 
Nada está ali “de graça”, explica Padovan. Banana, Goiaba e outras frutíferas atraem pássaros para o local, que acabam devorando insetos. Plantas repelentes, como o “cravo de defunto”, também ajudam a espantar visitantes indesejáveis. E se algum aventureiro consegue se alojar, lá vem um banho de caldo de fumo, tudo 100% natural. E funciona. Basta ver o vigor com que surgem tomates, alfaces, cebolinhas, couves (plantadas direto na palhada de onde se colheu o trigo) e várias outras plantas. “A recuperação da biodiversidade da propriedade é um conceito fundamental”, diz.
 
 
Caminhando pelas 16 hectares da Embrapa onde a pesquisa de campo está sendo desenvolvida, o pesquisador demonstra na prática sua pesquisa. Apontando para o solo coberto de aveia preta e sorgo, cortados há poucos dias, Milton explica que “tudo isso é alimento para micro organismos, que recompõem a matéria orgânica do solo”, além disso, ele diz que essas e outras plantas que estão sendo estudadas têm a capacidade de recuperar nutrientes que se perdem para as camadas mais profundas do solo, trazendo-os de volta para onde eles serão úteis as plantas.
 
“O produtor acostumo-se a comprar insumos para recuperar a terra, o que estamos mostrando é que isso pode ser feito sem necessidade de insumos químicos”, reitera. Mais adiante ele mostra um “minhocário” onde é produzido húmus. “aqui estamos pesquisando quais os tipos de matéria organiza produz o melhor húmus”, diz Milton, explicando que o húmus é um excelente adubo natural. “O produtor pode ter a solução para todas as necessidades dele a partir da própria propriedade, é isso que estamos propondo”, reforça o pesquisador.
 
“O simples é tecnologia de ponta; substituir insumo por plantas recuperadoras é tecnologia de ponta”
 
 
O visitante logo percebe que na área não há plantas daninhas, o que é logo explicado pelo pesquisador: “como nós não retiramos nada da palha que sobra da colheita e não removemos a terra, tudo que sobra faz uma cobertura natural, que além de devolver nutrientes para a terra, com a decomposição dessa matéria orgânica morta, evita que as sementes de ervas daninhas voltem a germinar; em um espaço de tempo relativamente curto elas perdem força e param de se reproduzir”.
 
Mais adiante o pesquisador mostra em meio ao milheto uma plantação mista de 52 espécies de árvores nativas, café, abacaxi e banana – sistema agroflorestal. “Num sistema como esse o produtor teria renda a curto e médio prazo”, diz Milton, explicando que na área estão sendo consorciadas arvores nativas com valor comercial e frutíferas, que em períodos diferentes trarão ganhos ao produtor. “Diversificando o produtor poderá ter rendimentos durante todo o ano; se ele tem 50 hectares, planta tudo de soja e perde a colheita ou o preço está ruim, ele perde tudo, mas se variar, ele sempre terá uma alternativa; é a velha máxima da sabedoria popular de não colocar todos os ovos numa cesta só”, enfatiza.
 
O que parece simples é simples mesmo. A variedade de plantas convivendo em um mesmo ambiente é algo que os pesquisadores aprenderam com a natureza. “Em uma sistema natural encontramos diversas plantas, pequenas, grandes, rasteiras, e isso porque o equilíbrio da natureza depende funciona assim, foi a própria natureza que desenvolveu essa tecnologia, nós só estamos imitando da melhor forma possível”, diz Padova. Além da variedade de plantas, a sucessão e alternância de culturas é importante, por isso, plantas de outono/inverno são sucedidas por qualidades de primavera/verão.
 
Ao contrário do que possa parecer a princípio, a técnica não é viável apenas para pequenas ou médias propriedades, embora exista uma afinidade maior com estas, “esse conceito pode ser aplicado em uma propriedade de uma hectare ou em uma de mil hectare”, ressalta Milton.
 
Os primeiros resultados da pesquisa serão publicados em meados do ano que vem, muito embora técnicos de todo o país já estejam visitando a Embrapa de Dourados e levando consigo as técnicas do processo. Com a divulgação dos primeiros resultados surge outro grande desafio, que é faze-los chegar a quem precisa. Milton Padovan explica que essa é uma missão difícil mesmo, e que para isso a Embrapa procura trabalhar em conjunto com órgãos de extensão rural do governo do estado. “De qualquer forma estamos abertos a visitas de produtores interessados em conhecer nossas pesquisas”, diz o pesquisados, que ressalta que trabalhos de estudo de casos e acompanhamento só mesmo pelos órgãos do governo ou por profissionais contratados diretamente pelo produtor.

Fonte: Folha de Dourados

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