Abadia afirma que extradição é único caminho
Entrevista – 27/08/2007
Repórteres da Rede Globo e da TV Morena entraram no Presídio Federal de Segurança máxima de Campo Grande e ficam cara a cara com o colombiano Juan Carlos Abadia, o traficante de mais de US$ 1 bilhão.
O Presídio Federal de Campo Grande é um lugar construído para honrar um compromisso: oferecer segurança máxima. Mais de 200 agentes vigiaam 60 presos. Centenas de câmeras foram instaldas para cobrir todos os ângulos da cadeia. Nada pode passar despercebido. Nos quatro pavilhões, as vistorias são rigorosas.
Os repórteres do Fantástico e da TV Morena foram ao encontro de um dos traficantes de drogas mais temidos do mundo. Um colombiano que esteve no topo da lista dos criminosos mais procurados pelos Estados Unidos: Juan Carlos Ramirez Abadia, capturado no Brasil no começo do mês.
“A gente já está bem no interior da penitenciária. Nós já passamos por 17 portas. E ainda tem mais três até chegar ao local da entrevista. Serão, portanto, 20 portas até chegar à sala de videoconferência. Por uma questão de segurança, a entrevista foi feita na sala de videoconferência, que é o local que está mais distante dos outros presos na penitenciária”, relatou o repórter César Tralli..
Antes, acostumado a usar roupas de grife, Ramirez Abadia agora veste o modesto uniforme com o número da cela que ocupa. O rosto desfigurado por cirurgias plásticas impressiona. E não esconde o desconforto da primeira entrevista em 20 anos de atividades ligadas ao narcotráfico.
Três agentes armados na sala. E, ao lado, os advogados Sergio Alambert e Gustavo Battaglin. Ramirez Abadia, que é um dos chefes do cartel do Valle do Norte, afirma que sua prisão não é capaz de abalar o tráfico na Colômbia.
“Eu estou preso e sempre vai haver outro e outro e cada vez um. E muitas pessoas e não vai acabar o negócio jamais”, diz ele.
O cartel do traficante é acusado de despejar, só nos Estados Unidos, mais de mil toneladas de cocaína nos últimos anos.
Caçado, o colombiano montou no Brasil uma rede de proteção. Comprou documentos falsos. Também é acusado de pagar propina a policiais de São Paulo. A suspeita é alvo de investigação na corregedoria da Polícia Civil. “Que eu saiba, eu não entreguei nada a ninguém”, afirma.
Três anos de esconderijos. E recentemente a desconfiança de que tantos disfarces já não faziam mais efeito. Policiais federais estavam cada dia mais perto do colombiano.
“Percebi algumas coisas, movimentos estranhos e situações anormais”.
O traficante conta que chegou a alertar a companheira colombiana para o risco de serem descobertos.
“Eu sempre lhe disse: mantenha-se afastada de todas as coisas. Porque eu sabia que em algum momento podia acontecer algum problema”.
Jessica está presa na sede da Polícia Federal em São Paulo.
Ramirez Abadia é dono de um patrimônio de US$ 1,8 bilhão, segundo o governo americano. Acusado de 315 assassinatos, ele colecionou muitos inimigos dentro e fora da Colômbia. Está jurado de morte.
“Penso que para o Brasil devo ser o que se chama aqui de uma ‘batata quente’. Acho que a melhor solução para ambos governos é eu ir para os Estados Unidos”.
A caminho da extradição, o traficante teme pela vida dos cinco filhos e muitos parentes que deixou para trás na Colômbia. E em nome deles fez um pacto de silêncio: diz que não vai contar nada sobre os cartéis de drogas.
“Não vou fazer nenhum acordo. Vou assumir meus problemas sozinho”.
O traficante sabe que pode sofrer vingança. Na Colômbia, ele é acusado de mandar matar famílias inteiras de inimigos e delatores.
Ramirez Abadia está isolado numa cela de apenas seis metros quadrados. De um lado, uma pequena cama; do outro lado, um banquinho, uma escrivaninha e uma prateleira, tudo de concreto. Mais ao fundo tem uma torneira, um vaso sanitário e um chuveirinho. Nada de televisão, nada de rádio, nada de visita íntima. O banho de sol: um por dia e de apenas duas horas.
O colombiano não tem contato com outros presos. O mais conhecido é o traficante Fernandinho Beira-Mar, que ocupa cela em outro pavilhão.
Longe do luxo, da ostentação e do poder, Juan Carlos Ramirez Abadia se dá conta do que sobrou de uma história dedicada ao tráfico.
“De todas as pessoas que começaram comigo nesse negócio, há muitos anos, não ficou nenhum. Há dois ou três. O resto morreu. A maioria morreu e outros tantos foram extraditados. Há muito poucos”.
Aos 45 anos, o chefe de cartel de drogas não sabe quanto tempo mais vai ficar no Brasil. Mas tem uma certeza: só sai de Campo Grande para outros presídios de segurança máxima, nos Estados Unidos. Um caminho sem volta.
Fonte: Folha de Dourados



