João Roberto Giacomini
Há alguém falando com você neste exato momento. Não se assuste. Não é o vizinho, o vendedor de consórcio, muito menos aquele parente que telefona exclusivamente quando precisa de você. É alguém muito mais íntimo, inconveniente e persistente. Alguém que conhece seus segredos, suas fraquezas, suas pequenas perversidades e até aqueles pensamentos que você jamais confessaria, mesmo sob juramento. Essa criatura mora dentro de sua cabeça, não paga aluguel, não contribui pagando um boleto e ainda comporta-se como legítima proprietária de seus pensamentos.
É a voz que você escuta.
Você acorda e ela já está trabalhando. Antes mesmo de abrir os olhos, começa a reunião. Lembra das contas, dos compromissos, das pessoas que o decepcionaram, daquilo que deveria ter dito ontem e, principalmente, da resposta brilhante que encontrou às três horas da madrugada para uma discussão encerrada há quinze anos. Curiosamente, essa voz possui uma memória extraordinária para ofensas e uma dificuldade quase patológica para recordar elogios. Basta alguém dizer que você está envelhecendo para ela convocar uma assembleia extraordinária. Se disserem que você está bonito, ela desconfia de alguma intenção financeira.
O mais extraordinário é que passamos boa parte da existência conversando com alguém que ninguém vê. Discutimos, argumentamos, fazemos acusações, ensaiamos discursos, pedimos desculpas imaginárias e até vencemos debates contra adversários que sequer sabem que estão participando. Há pessoas que passam a manhã inteira brigando mentalmente com o chefe e chegam ao trabalho tão irritadas que o pobre homem, sem saber de absolutamente nada, recebe o cumprimento de quem acaba de cometer uma traição imperdoável.
E essa voz não conhece limites. Pode transformar uma simples demora na resposta de uma mensagem numa conspiração sentimental. Você escreve: “Bom dia”. A pessoa visualiza e não responde. Pronto. Começa o tribunal. Talvez esteja ocupada. Talvez tenha esquecido. Talvez não queira conversar. Talvez esteja conversando com outra pessoa. Talvez nunca tenha gostado de você. Em poucos minutos, uma mensagem sem resposta produz uma separação, uma disputa patrimonial e até a escolha do advogado. Tudo isso sem que tenha existido um relacionamento.
Mas seria injusto atribuir a essa voz apenas as nossas desgraças. Ela também é capaz de produzir maravilhas.
É ela que, diante de uma dificuldade, pode sussurrar que ainda existe uma saída. Que vale a pena tentar novamente. Que o fracasso de ontem não precisa ser o destino de amanhã. É ela que alimenta a coragem de quem começa um negócio, escreve um livro, aprende uma profissão depois dos sessenta anos ou decide reconstruir a própria vida quando todos já haviam decretado o encerramento do expediente.
A mesma voz que pode nos convencer de que somos incapazes também pode lembrar que já sobrevivemos a situações muito piores. A diferença está, muitas vezes, naquilo que permitimos que ela repita.
Porque existe algo de profundamente inquietante nesses diálogos secretos: nós os alimentamos.
Uma ofensa recebida pela manhã pode durar apenas alguns segundos na boca de quem a pronunciou, mas permanecer semanas dentro de quem a escutou. Repetimos a frase, acrescentamos intenções, imaginamos respostas, convocamos testemunhas inexistentes e, quando percebemos, transformamos um episódio insignificante numa residência permanente para o ressentimento. O ofensor, enquanto isso, provavelmente está almoçando tranquilamente, sem imaginar que ocupa gratuitamente uma cobertura de luxo em nossa cabeça.
O mesmo acontece com a inveja, o ciúme, a desconfiança e o medo. São sentimentos que, quando alimentados continuamente, deixam de ser visitantes ocasionais e passam a integrar a administração da mente. A inveja assume o departamento financeiro. O medo fica responsável pelos investimentos. O ressentimento dirige as relações pessoais. E a desconfiança, naturalmente, instala câmeras em todos os cômodos.
Depois nos perguntamos por que a vida não prospera.
Não falo apenas de dinheiro. Há pessoas financeiramente bem-sucedidas que vivem numa miséria emocional impressionante. Possuem imóveis, automóveis, aplicações financeiras e uma coleção de inimigos cuidadosamente cultivados. Acordam preocupadas com o sucesso alheio, almoçam remoendo injustiças e dormem planejando vinganças que provavelmente jamais executarão. São proprietárias de quase tudo, exceto da própria tranquilidade.
Outras, com recursos modestos, conseguem preservar uma espécie de riqueza que não aparece na declaração do Imposto de Renda. Não porque desconheçam o sofrimento, mas porque aprenderam a não transformá-lo no único assunto de suas conversas interiores.
É evidente que não basta pensar positivamente para que o dinheiro apareça na conta, a doença desapareça ou o amor bata à porta carregando flores. A realidade não funciona como uma dessas palestras em que alguém promete prosperidade mediante três pensamentos otimistas e a aquisição de um curso em doze parcelas. A vida exige trabalho, circunstâncias favoráveis, cuidados, oportunidades e, algumas vezes, uma sorte que não aceita agendamento.
Entretanto, aquilo que repetimos silenciosamente pode influenciar nossas escolhas, nossos comportamentos e até a maneira como tratamos o próprio corpo. Quem vive alimentando a ideia de que tudo dará errado pode começar a evitar oportunidades, afastar pessoas e abandonar projetos antes mesmo de iniciá-los. Quem cultiva permanentemente a hostilidade pode transformar qualquer conversa numa batalha. E quem passa os dias remoendo ameaças talvez termine a noite com o coração acelerado, os músculos tensos e um sono que se recusa a comparecer.
Não significa que pensamentos ruins produzam, por si, doenças. Seria uma injustiça cruel responsabilizar os enfermos pelo próprio sofrimento. Mas sabemos que o estresse persistente pode prejudicar o sono, a saúde e a qualidade de vida. Às vezes, o corpo acaba pagando parte da conta de uma guerra que acontece apenas na cabeça.
E há uma ironia particularmente humana nessa história: frequentemente somos muito mais educados com estranhos do que conosco. Perdoamos o erro de um amigo, compreendemos a dificuldade de um filho, oferecemos palavras de esperança a alguém desesperado. Mas, diante do espelho, somos capazes de pronunciar sentenças de uma brutalidade que jamais dirigiríamos a outra pessoa.
“Você não presta.”
“Não vai conseguir.”
“Já passou da idade.”
“Todos estão contra você.”
E lá vamos nós, obedientes, vivendo segundo as determinações de um juiz invisível que acumula as funções de acusador, testemunha e carrasco. O pior é que raramente exigimos provas.
Talvez devêssemos aprender a interrogar essa voz. Não para silenciá-la, porque o silêncio absoluto da mente não se conquista por decreto, mas para compreender que nem tudo o que pensamos corresponde à realidade. Um pensamento pode ser apenas um pensamento. Uma suspeita não é uma sentença. Uma lembrança dolorosa não precisa ser uma condenação perpétua.
Também deveríamos prestar mais atenção aos diálogos que nos fazem florescer. À lembrança de alguém que amamos. À satisfação de um trabalho bem realizado. À gratidão por uma amizade sincera. À esperança de um reencontro. À alegria quase infantil de iniciar alguma coisa sem saber exatamente onde terminará.
Há quem converse consigo mesmo e encontre razões para continuar. Há quem faça do mesmo diálogo um instrumento de tortura.
Talvez a grande questão não seja descobrir quem fala dentro de nós, mas perceber a quem estamos entregando o microfone.
Afinal, durante a vida inteira, carregamos conosco essa companhia invisível. Ela estará presente nas vitórias e derrotas, nos amores correspondidos e nas despedidas, nas manhãs luminosas e nas madrugadas em que o teto parece oferecer mais perguntas do que respostas.
E quando finalmente estivermos sozinhos, sem telefone, tabletes, compromissos ou testemunhas, restará aquela conversa inevitável.
A conversa conosco.
O curioso é que podemos passar décadas escolhendo cuidadosamente as pessoas com quem convivemos e jamais dedicar alguns minutos à escolha dos pensamentos que acolhemos.
Quanto a mim, tenho procurado estabelecer certas regras de convivência com esse inquilino cerebral. Já avisei que não admitirei reuniões sobre problemas financeiros depois das dez da noite, discussões conjugais imaginárias durante o banho nem julgamentos de acontecimentos ocorridos no século passado.
Ele ouviu tudo com atenção.
Concordou educadamente.
E, enquanto eu escrevia esta última frase, resolveu lembrar de uma pessoa que me deve dinheiro há mais de vinte anos.
Agora está exigindo que eu telefone.
Às onze da noite. Socorro!


